Por uma questão «ética» e para não levantar «problemas de ordem comercial», a Administração Regional de Saúde (ARS) do Algarve decidiu não revelar o nome da unidade ontem encerrada na baixa de Faro.
«Tem cerca de 20 camas, o que exclui os grandes hotéis da cidade», disse apenas ao «barlavento», Ana Cristina Guerreiro, Delegada Regional de Saúde e Diretora do Departamento de Saúde Pública e Planeamento.
No entanto, não foi difícil chegar à encerrada porta do Hotel Adelaide, na Rua Cruz das Mestras, estabelecimento de duas estrelas desde há vários anos apreciado pelos hóspedes devido ao ambiente descontraído, no coração da capital algarvia.
A responsável sublinhou que se trata de um incidente isolado, pois os hotéis são obrigados a fazer programas de prevenção e controlo, que neste caso «não estavam a ser cumpridos».
«Nas visitas que fazemos no âmbito da Autoridade de Saúde, e também as da ASAE, é sempre verificado se esses programas estão a ser feitos. No Algarve já temos há muitos anos uma rotina de vigilância e por vezes encontramos casos de positividade nas análises da água, sem haver casos clínicos», explica.
Segundo a médica responsável, os hoteleiros do Algarve estão bastante sensíveis a esta problemática. «Sim. De uma forma sintética, diria que sim. São muito cuidadosos. E existe uma sensibilidade cada vez maior» para evitar estas situações, embora admita que «não podemos perder a vigilância» sanitária.
A fiscalização é feita por uma equipa regional, que se divide em três equipas locais, sediadas em Portimão, Faro e Tavira. As inspeções são feitas ao longo do todo o ano. «O risco destas situações é maior quando a taxa de ocupação não está completa e a utilização da rede de água dos hotéis é menor», esclareceu.
Razões para o fecho
Em nota de imprensa enviada ao final da tarde de ontem, 2 de novembro, a ARS/Algarve confirmou que as análises do Laboratório Regional de Saúde Pública Dr.ª Laura Ayres, «revelaram forte positividade para a espécie Legionella pneumophila, em diversos pontos da rede predial de abastecimento» do hotel.
Por este motivo, o Delegado de Saúde do ACES Central, numa intervenção conjunta com a ASAE, «desencadeou as medidas consideradas necessárias à minimização do risco, tendo-se procedido à suspensão da atividade» desta unidade.
«A situação foi considerada de risco grave para a saúde pública. Temos conhecimento de quatro casos de contaminação epidemiológica no hotel», reforçou ao «barlavento» a médica responsável Ana Cristina Guerreiro.
O último alarme para este surto foi o caso de «uma senhora que ainda está internada» no Hospital de Faro. «Está estável. Os outros casos foram diagnosticados no estrangeiro», já nos países de origem dos hóspedes que estiveram no hotel farense contaminado, e que segundo Ana Cristina Guerreiro, foram comunicados à autoridades portuguesas «por via europeia». «O primeiro caso foi comunicado em julho. Os mais recentes casos foram identificados a 27 de outubro», precisou, e determinantes para se localizar o foco de contágio, através do cruzamento de dados.
A solução para que o hotel possa reabrir e regressar à normalidade, passará pela «contração de uma empresa que tenha competência nesta área, que tem de ser específica, para fazer uma avaliação da canalização do hotel. Se estiver em boas condições, terão que fazer tratamento químico e térmico, ou vários, até terem as análises negativas e a água com boa qualidade».
Por fim, Ana Cristina Guerreiro sublinha que não há nenhum motivo para alarme. O mediatismo da Leggionela, em sua opinião, é uma consequência da gravidade do que aconteceu em Vila Franca de Xira, e nada leva a crer que há uma propagação excecional desta doença. «Não. Pensamos é que existe um melhor diagnóstico, quer clínico, quer ambiental por parte das Autoridades de Saúde Pública. Os meios de diagnóstico são mais rápidos e, no fundo, hoje está a ser feito um trabalho melhor» de prevenção.
Efeitos da doença
Ainda segundo informação da ARS/Algarve, «a doença dos Legionários apresenta-se habitualmente sob a forma de pneumonia, provocando um quadro clínico caracterizado por cansaço, febre, dores de cabeça, dores musculares e tosse. Trata-se de uma doença rara que atinge preferencialmente pessoas idosas, fumadores, imunodeprimidos e pessoas com doenças crónicas».
Ou seja, «a bactéria causadora da doença, designada como Legionella, vive em ambientes aquáticos naturais, podendo contaminar sistemas de água criados pelo Homem, como redes prediais, torres de refrigeração, fontes ornamentais, entre outros. A infeção pode acontecer por inalação de gotículas de água contaminadas com a bactéria. É uma doença que pode ocorrer sob a forma de casos esporádicos ou surto, registando um maior número de casos habitualmente entre o fim do verão e o outono».