barlavento – Onde estava exatamente quando se deu o sismo?
Héli Camarinha – Encontrava -me no meu hostel, na zona de Themal, no centro de Kathmandu. Estava a fazer o check in, ainda com a mochila às costas, quando, ao descer o primeiro lance de escadas ouvi um grande estrondo. Tentei perceber o que se tinha passado. Até pensei que tivesse sido algum acidente. De repente, senti tudo a tremer, com uma força enorme e tive uma sensação de perigo. O meu primeiro impulso foi descer até ao rés-do-chão. Encontrei todos os clientes do hostel e decidimos ficar lá até a situação acalmar.
Sentiu que a sua vida estava em risco?
No início senti algum medo. Respondi aos meus instintos animais de sobrevivência. Não consegui processar logo o que se estava a passar. Senti algum medo, mas depois descer até à entrada do hostel, tentei respirar fundo e pensar: «ok, isto é um terramoto, mas estou num bom edifício». Tentei acalmar-me arranjando os meus pretextos. Ficámos uma hora na cave, em segurança. Consegui gerir as minhas emoções e, ao mesmo tempo, tentei gerir as emoções de quem estava ao meu lado, pessoas que se encontravam em pânico.
O que fez a seguir ao terramoto?
Eu e um amigo decidimos dar uma volta para ver o que se passava. Na rua do hostel estava tudo intacto, mas sem ninguém, algo que é de estranhar numa cidade tão movimentada. No centro deparámo-nos com muitos templos destruídos. Apenas no dia seguinte, é que vi o quão desastroso tinha sido este terramoto, no noticiário.
Na altura não teve consciência do que se estava a passar à sua volta?
Pensei que não tinha sido grave. Quando me apercebi, decidi que tinha que agir o mais rápido possível.
Como se tornou voluntário?
Senti que tinha uma missão a fazer naquela terra, e tinha a crença que iria ser positivo para mim em termos pessoais e humanos. Tentei ir mais além da minha individualidade, pensei que era bom dar o meu contributo. Apesar de não ser médico, seria importante tudo o que poderia fazer. Foi durante o voluntariado que tive um contacto mais direto com a situação das pessoas. Muitas tinham sofrido ferimentos graves e as suas casas estavam devastadas. Mais tarde, eu e um grupo de amigos juntámo-nos para prestar auxílio às aldeias, distantes do centro. Nesses locais a situação era pior, havia mesmo pessoas sem comida nem água. Depois de me deparar com isso, apercebi-me que era fundamental e imprescindível o nosso trabalho, e que acabaria sempre por fazer a diferença.
Alguma vez pensou que o seu contributo humanitário viesse a ter um impacto mediático?
No hospital encontrei vários jornalistas, fui entrevistado para vários órgãos de comunicação social portugueses. Assim a notícia da minha missão espalhou-se, acabando por inspirar outras pessoas. Dois rapazes viajaram para o Nepal, após o terramoto, com o objetivo de fazer voluntariado. Contaram-me que o meu testemunho fê-los agir. Isso deixou-me muito contente. Mas quando fiquei lá a prestar auxílio, não foi para ganhar qualquer tipo de fama…
Como avalia a intervenção do Estado nepalês no pós-terramoto?
Uma das grandes preocupações que tive foi quando me apercebi que não havia um apoio sólido do Governo. Cheguei a deparar-me com alguma atividade militar, mas nada suficiente para dar resposta à situação, o que demonstrava a falta de preparação para emergências. Em algumas situações a polícia atrapalhou os trabalhos deste grupo, impedindo a realização de algumas estratégias que visavam a ajuda à população. Os táxis cobravam preços altíssimos pelas viagens que se destinavam ao transporte de materiais para as aldeias.
Como caracteriza a experiência que viveu?
No sentido pessoal foi uma experiência muito rica, um misto de tristezas e alegrias que deu para avaliar várias partes de mim. Fez-me avaliar a minha postura face a uma situação desta natureza. Assim entendi melhor quem eu sou. Aprendi que devemos dar valor ao que mais importa, e isso é a vida das pessoas. Quando prestei auxílio às aldeias, o povo que lá residia, que tinha as casas destruídas, não aparentava estar devastado. Encarava a situação com um sorriso e isso foi para o nosso grupo um fator de choque. Fomos para lá para dar apoio, mas na realidade foram as pessoas que nos acolheram. Também o estado de sobrevivência, algo que não é habitual, faz-nos sair da nossa zona de conforto e isso teve um impacto a vários níveis.
Quanto tempo ficou no Nepal?
Quatro semanas. Ponderei ficar mais tempo, mas a impossibilidade de ter uma dieta saudável deixou-me vulnerável. Em termos psicológicos, senti uma grande pressão, pois nada é acessível como era suposto. Trata-se de um país subdesenvolvido, ainda mais com aquela situação, em que tudo piora. Isto provocou um desgaste enorme. Senti o meu sistema imunitário a baixar, tive várias intoxicações alimentares. Cheguei ao ponto em que senti que já não estava capaz de prestar um serviço correto. Decidi que era hora de voltar, mas continuei com a minha missão aqui em Portugal.
Quando voltou, como estava a situação?
As coisas demoram muito tempo a se recompor. Passadas duas semanas notei mais movimento nas ruas, mas em termos militares continuava muito parado. Após o segundo terramoto senti, de novo, uma grande quebra. Nessa altura foi mais difícil encontrar sítio para dormir e comer. Em apoios, de voluntariado internacional, comecei a ver mais, de vários países, como o Canadá, o que me deixou bastante contente.
Coordenação Ana Sofia Varela com Inês Coelho.