Carpintarias Frieza, empresa sediada em Lagoa, é das mais experientes e capazes do sector. Fundador, com 65 anos, responde a qualquer desafio que envolva madeira.
O conceito de empreendedor serve na perfeição a José Frieza. Começou sozinho a trabalhar na construção durante o dia e depois em casa, numa pequena oficina, fazia de tudo um pouco pela noite fora. Aprendeu com vários mestres e aos 18 anos já era encarregado de obra, à frente dos acabamentos da urbanização Aldeia das Chaminés, no Carvoeiro, em Lagoa.
Ainda hoje «gosto muito de executar, de fazer telhados, pérgolas, coisas diferentes que me vêm parar às mãos. Ninguém seguiu este rumo. Hoje quase não há carpinteiros», lamenta.
Fez um pé de meia e comprou o terreno onde ainda hoje tem a fábrica, nas traseiras do campo onde se realiza a Feira de Artesanato, Turismo, Agricultura, Comércio e Indústria de Lagoa (FATACIL).
Dali saiu, pronto a instalar, o material que fez muitas das obras do Algarve turístico que hoje conhecemos. Nos tempos áureos da construção civil, a empresa não tinha mãos a medir. Chegou a envernizar 100 a 150 portas interiores e a fabricar mais de 5000 metros de rodapés por dia. Fazia e equipava prédios inteiros seguidos com cozinhas e roupeiros.
Ainda hoje, «temos maquinaria para fazer tudo o que tem a ver com madeira, desde telhados a portas, soalhos, balcões, cozinhas, armários. Não há qualquer limite, pois temos as ferramentas e o conhecimento. Equipamos restaurantes, bares, garrafeiras, apartamentos e casas particulares», diz José Frieza.
A empresa dá trabalho a 17 empregados diretos e tem um conjunto de subempreiteiros exclusivos.
As encomendas estão fechadas até setembro de 2022 e a empresa orgulha-se dos padrões de fabrico e do cumprimento dos prazos.
«Não compramos materiais de qualidade inferior para fazer lucro no produto final. O nosso principal interesse é satisfazer os clientes», garante.
Esta empresa aproveitou um aviso do Programa de Apoio à Produção Nacional (PAPN) para promover a incorporação de inovação e conhecimento nos processos, capacitando-se para uma melhor resposta em termos de compromissos de qualidade, cumprimento de prazos e competência na assistência pós-venda, contribuindo para a alteração do perfil produtivo e de interação com o cliente, numa clara transição digital dos processos e uma melhor utilização dos seus recursos.
Neste caso, com o apoio de fundos europeus, foi adquirida uma orladora automatizada elétrica BIESSE (Akron 1300), importada de Itália, que permite competir com as multinacionais que oferecem mobiliário barato feito em série.
O aparelho é fundamental para acompanhar a procura do mercado. «Até há 10 anos atrás, as portas interiores eram feitas em faia e carvalho quer para o pobre quer para o rico. Agora é tudo lacado em branco, que custa mais 30 ou 40 por cento que uma porta envernizada. O lacado leva muito tempo e quase a maior secção da empresa é a pintura.
Apesar de reformado, faz questão de acompanhar as encomendas mais difíceis.
«Os desenhos dos arquitetos nunca prestam porque na maior parte das vezes não são respeitados, por isso tenho de ir sempre às obras acompanhar a montagem» dos trabalhos mais desafiantes.
Ao longo da carreira, Frieza inventou as suas próprias máquinas de circuitos, com sistemas automáticos que até limpavam o pó às peças de madeira, ajudado pelo genro que era eletricista, e inspirado no que viu em feiras internacionais por toda a Europa. Alguns dos engenhos que desenhou surpreendiam até os industriais do mobiliário do norte que o visitavam.
Em 2011, contudo, aconteceu o desastre. A crise do subprime fez com que perdesse 1,5 milhões de euros. Os maiores clientes faliram e de um dia para o outro, o cofre estava cheio de cheques sem qualquer valor para financiar «obras feitas e que não foram pagas. Foi abaixo a minha vida inteira. A nossa safa foi não termos dívidas às Finanças nem à Segurança Social», recorda.
Na primeira semana de setembro «no meu bolso tinha um cêntimo e a conta da empresa negativa. Não tinha dinheiro para pagar a ninguém. Demos a volta com o crédito do ser humano. Quando se deu o rombo, atendi sempre todas as chamadas, estive sempre disponível para falar com os credores, sempre de cabeça fria» e a pouco e pouco, começou a conquistar novos clientes. Fez também um plano de pagamentos aos fornecedores de sempre, que aceitaram ajudar.
Na altura, havia «muito má cultura financeira» e pouca seriedade. «A maior parte dos construtores iam fazer um prédio de um milhão e nem 100 mil euros tinham. Era tudo a crédito. Deu no resultado que deu», recorda.
Na reconstrução, «a maior parte das pessoas que nos vieram dar trabalho, confiaram em nós. O que se fez? Marcar prazos certos e dar a cara. É essa a conduta, com honestidade e sem enganar ninguém», reforça. Frieza valoriza, mais que tudo, o nome na praça.
«Apregoamos a qualidade, não somos os mais baratos. Uma pessoa hoje compra uma porta na grande distribuição por 150 euros, aqui custa quase quatro vezes mais. Mas vê-se bem a diferença. E tem de ser assim». Mesmo quando trabalha à consignação, «faço as contas honestamente com os 10 por cento que são a margem da empresa. A reputação é muito importante. Uma pessoa que venha indicada por um cliente nosso, nem que precise apenas de uma gaveta, temos de ajudar. Vivemos disto, sentimo-nos bem assim e é o que queremos», conclui.


