O novo Hospital Central do Algarve não resolve, por si só, o fracasso urbano do Parque das Cidades, herdado do Euro 2004 e ainda sem visão territorial consequente.
A formalização do novo Hospital Central do Algarve representa, finalmente, um passo concreto após duas décadas de anúncios inconsequentes. O investimento de 426,6 milhões de euros e a definição de um modelo de gestão são sinais positivos no sentido obrigatório. A prudência de autarcas e população, porém, é compreensível. Desde 2006 que a região conhece sucessivas «primeiras pedras» sem obra real nem qualquer resultado. O Parque das Cidades é hoje um território abandonado, degradado, com um estádio obsoleto. Chegou o momento decisivo: transformar compromissos em concretização.
Mas há uma questão estrutural que transcende esta decisão histórica. O que está em causa não é apenas a edificação de um grande hospital central com 742 camas. Está em jogo a responsabilidade política e técnica de Faro e Loulé em reconfigurar um território ainda prisioneiro de um planeamento medíocre e fragmentado, herdado da lógica apressada do Euro 2004. Manter o «Parque das Cidades» como um enorme baldio, com um conjunto disperso de estradas, rotundas, parques de estacionamento e infraestruturas em solo rústico, abandonado, com um estádio como legado principal e, agora, um hospital comprimido noutro canto, é um erro estratégico em que a região não pode persistir.
É precisamente aqui que se impõe uma mudança de escala institucional. A revisão profunda do Parque das Cidades não pode ser apenas um exercício municipal. Exige coordenação intermunicipal, visão metropolitana e capacidade técnica reforçada.
Exige, também, que a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, com os seus técnicos, geógrafos e profundo conhecimento do território, assuma plenamente a missão de planeamento estratégico e desenvolvimento económico que a lei lhe confere.
A CCDR, como o próprio nome indica, tem de abandonar a pulsão paroquial de se afirmar como polícia do uso do solo e adotar, com maturidade institucional e ambição estratégica, o papel de liderança do desenvolvimento regional, de articulação de políticas públicas, de apoio técnico aos municípios, de dinamização da inovação, de captação de investimento, de gestão da coesão europeia e de construção de competitividade territorial, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 36/2023. Substituir a cultura do bloqueio por uma lógica operacional de planeamento, parceria e criação de valor é hoje uma condição essencial para que esta oportunidade histórica não se perca.
O próprio projeto hospitalar demonstra bem o disparate de lançar um concurso com um programa desta dimensão em que, para além da sua enorme complexidade, a maior dificuldade foi colocar o «Rossio na rua da Betesga», implantando uma estrutura desta dimensão num lote de terreno confinado por ruelas, baldios e terrenos agrícolas, sem qualquer integração, para além dos acessos e parques de estacionamento criados para o Euro 2004.
Ainda assim, o projeto vencedor descreve, na sua memória, uma «cidade interna», com espaços verdes, ruas técnicas e fluxos separados entre torres clínicas. Essa sofisticação contrasta com o vazio exterior. Continuar a chamar «Parque das Cidades» a este território é hoje ficção. Não existe cidade, não existe parque, não existe densidade funcional, nem sequer solo urbano preparado para acolher ambição metropolitana. Enquanto se desenham corredores no interior do edifício, cá fora permanece um enorme investimento público sem projeto urbano consequente.
Embora se tenha optado por uma implantação acantonada no seu lote, o futuro Hospital Central do Algarve tem de ser o detonador de uma revisão profunda do plano de urbanização, capaz de criar uma nova centralidade orientada para a saúde, a ciência, a longevidade e a inovação.
O planeamento do novo «Parque das Cidades» deve ser, ele próprio, o modelo inspirador de uma nova urbanidade contemporânea, saudável e ambientalmente responsável. As reduzidas zonas ajardinadas internas do edifício são insuficientes. É necessário oferecer ambientes e áreas de lazer diversificadas. A envolvente exige um verdadeiro parque ecológico regional sustentável: um modelo exemplar, com jardins terapêuticos, zonas de água, percursos pedonais e cicláveis, corredores de biodiversidade e conforto climático. Não se trata de criar uma moldura verde para edifícios dispersos, mas uma paisagem ativa que organize o território, lhe dê identidade e qualidade de vida.
Em torno do hospital deve nascer um verdadeiro campus integrado de saúde e tecnologia médica: centros de investigação clínica e translacional, laboratórios públicos e privados, polos de inovação digital, incubadoras e aceleradoras de startups médicas, centros avançados de simulação clínica, plataformas de dados e inteligência artificial, centros de congressos científicos, auditórios internacionais e áreas expositivas ligadas à indústria farmacêutica. Um hub estruturante com projeção internacional, não apenas uma faculdade anexa a um hospital.
Também a dimensão assistencial tem de ser ampliada. O Algarve reúne condições singulares para se afirmar como território europeu de referência no envelhecimento ativo e nos cuidados geriátricos avançados, num contexto em que já atrai milhares de reformados internacionais. Confinar esta ambição ao edifício hospitalar seria desperdiçar uma vantagem competitiva evidente.
O Parque das Cidades deve integrar um verdadeiro cluster de longevidade, capaz de articular economia e saúde: redes de apoio domiciliário, telemonitorização clínica, centros de dia, enfermagem móvel, estruturas residenciais para idosos, centros de reabilitação intensiva, residências assistidas, comunidades sénior com serviços partilhados, áreas de bem-estar preventivo e desporto terapêutico. Esta diversidade funcional é também decisiva para viabilizar a reclassificação simplificada de um território hoje abandonado.
Tudo isto cruza-se com a crise habitacional que atravessa a região. Os municípios continuam com o solo bloqueado e sem áreas estruturadas de expansão. A própria ministra da Saúde sublinhou que o hospital será motor de atração de talento. Mas não se fixa talento sem condições de vida. A essa ambição tem de corresponder um parque habitacional completo e diversificado: habitação acessível para técnicos e investigadores, residências universitárias, alojamento temporário para doentes e famílias, hotelaria clínica e oferta residencial para fixar população permanente. Não basta um enclave técnico rodeado de vazio. É preciso criar um núcleo urbano contemporâneo, com comércio, escolas, serviços, equipamentos desportivos e espaços públicos qualificados.
Os municípios de Faro e Loulé, que acabam de firmar um acordo estratégico com o Governo, têm agora a obrigação política de abandonar a lógica do enclave e assumir uma visão de desenvolvimento urbano consequente. O novo Hospital Central do Algarve não pode nascer isolado, como nasceu o estádio. Tem de ser o coração de uma nova cidade da saúde, da ciência e da longevidade, com impacto económico, social e internacional para todo o Algarve.
Se esta oportunidade for desperdiçada, o erro será mais um enorme erro histórico.
Jorge Palma | Arquiteto
