Estaleiro na Ponta da Areia, junto à foz do Guadiana, em Vila Real de Santo António (VRSA), tem agora capacidade para reparar barcos até 47 toneladas, além de alojamento, loja náutica, estruturas de apoio e restaurante à beira-rio aberto ao público.
A pergunta que se impõe é: que tem a zona da foz do Guadiana para oferecer aos marinheiros e à náutica desportiva e de lazer? Responde Cláudio Tenório, responsável pela empresa Deusesrebeldes, Unipessoal, Lda, que detém as marcas registadas NautiParque, Centro Náutico 818 e NautiTours.
«Diria que é toda a extensão do rio, o facto de neste momento ser navegável e ter sinalização marítima até ao Pomarão, comparado com outros sítios da costa algarvia que só têm mar. O que falta nesta zona são lugares de amarração e fundeadouros organizados. Queremos preencher essa lacuna, montar um serviço de assistência, para trazer as pessoas a terra, ou levar víveres aos barcos. No verão chegámos a ter 14 a 15 barcos em frente ao Centro Náutico 818».
Recentemente, a Deusesrebeldes investiu num equipamento pesado, neste caso, numa máquina de movimentação de embarcações de grande porte, para aumentar a capacidade de resposta da empresa na prestação de serviços relacionados com manutenção, parqueamento, serviços de alagem, reparação, pintura e lavagem de barcos. E ainda, assistência técnica qualificada às embarcações e navegantes de náutica de recreio e profissional.
O investimento, na ordem dos 200 mil euros, com apoio do CRESC Algarve 2020, moderniza e direciona a empresa para um segmento de luxo, cuja oferta de serviços é limitada na região algarvia, e por isso, diferenciadora.
Cláudio Tenório explica: «este novo equipamento tem capacidade para movimentar embarcações até 47 toneladas. É um sistema que entra dentro de água e levanta o barco, de baixo para cima. Tem um sistema de esponjas que se adapta à forma do casco e levanta a embarcação. Graças a isto, temos conquistado clientes para os quais antes não tínhamos capacidade por causa da dimensão, quer de comprimento, quer de peso». E por este motivo, teriam de fazer a manutenção em Vilamoura ou Portimão. O equipamento funciona acoplado a uma máquina multifunções que lhe fornece a pressão hidráulica necessária.
«É de fabrico holandês, feito por uma empresa especialista em metalomecânica que, curiosamente, faz coisas que aparentemente nada têm a ver. Isto é, equipamentos para parques de diversões como montanhas-russas, rodas gigantes e afins. Embora este seja um modelo standard, é feito por medida e apenas quando há encomendas», descreve.
Tenório sublinha que o apoio do CRESC Algarve 2020 «foi importante porque sem este financiamento não teríamos sonhado nem chegado a este objetivo. É claro que isto nos obriga a ter uma melhor organização e mais pessoal para desenvolver outro tipo de competências».
Também por questões de espaço e parceria, o novo equipamento tem servido para dar apoio à movimentação das novas construções navais da Nautiber. Muitos dos barcos que estão a ser feitos hoje, já são movimentados e são postos dentro da água com isto. E também já temos capacidade para trabalhar com muitos dos barcos de pesca aqui da zona».
O equipamento, contudo, «não é fácil de operar. Estamos a falar de uma carga suspensa superior a 40 toneladas de peso e com de 18 metros, ou mais de comprimento».
Primeiro, é necessário ter uma formação de operador da máquina multifunções que «só há em Lisboa e é dada no ponto de vista da obra de construção civil, onde, regra geral, vemos este tipo de maquinaria».
A formação seguinte é dada na Holanda pelo fabricante. «Antes de decidirmos qual o modelo que queríamos, fomos a vários estaleiros holandeses ver as diferentes variantes», recorda.
«São equipamentos efetivamente específicos. É diferente de carregar uma palete», compara. «A máquina é que se adapta ao barco. Tem um conjunto de seis esponjas, mas podemos trabalhar só com duas ou quatro. O operador pode até nem ser um perito náutico, mas precisa de ter sensibilidade para a distribuição de pesos», diz ainda. Apesar da tonelagem, este equipamento «está adaptado e tem facilidade de manobra em espaços pequenos com o nosso».
De modo geral, a operação de retirar um barco destas dimensões da água, dura cerca de 30 a 45 minutos, mas envolve alguma complexidade. «Temos um mergulhador que acompanha tudo e verifica onde é que as esponjas assentam no casco, debaixo de água». Depois, para apoiar a embarcação, já no estaleiro, demora cerca de uma hora, sem contar com a parte da lavagem.
«É um trabalho com algum risco de podermos danificar equipamentos como transdutores e sondas. Alguns cascos não são convencionais, e, como se costuma dizer, não há dois barcos iguais», acrescenta.
Relação com Espanha e norte da Europa
Embora o mercado das embarcações de grande porte ainda seja pequeno no volume de negócios do estaleiro, Cláudio Tenório consegue traçar um perfil de cliente. «A maioria dos nossos clientes são ingleses, alemães, holandeses e franceses», além de espanhóis.
A relação com a vizinha Andaluzia é muito importante, «porque Ayamonte só tem um estaleiro que trabalha quase em exclusivo para barcos de pesca. Em Isla Canela, há outro, mas com regras de funcionamento diferentes das nossas. Ou seja, não deixam os proprietários entrar dentro do perímetro. Por questões legislativas, só o pessoal do estaleiro ou de outras empresas é que podem fazer reparações», pois em caso de acidente, os seguros não cobrem riscos nem danos.
«O cliente do norte da Europa está habituado a viver no barco. E por uma questão cultural, está apto a fazer todos os pequenos trabalhos de manutenção. Por norma, só recorrem a empresas da especialidade para trabalhos maiores ou quando a idade já não lhes permite fazer determinadas coisas, por exemplo lixar um casco ou uma reparação de fundo. Mas, regra geral, gostam de acompanhar», diz.
«No estaleiro, autorizamos que os clientes façam alguns tipos de trabalhos», o que pode ser visto como uma vantagem competitiva, ou simplesmente, uma cortesia. «Sabemos que a maior parte dos clientes vivem nos barcos, portanto, não faz sentido afastá-los para um hotel».
Por outro lado, «o cliente estrangeiro sabe o preço das coisas. Está habituado a que no seu país de origem seja mais caro, dá valor ao trabalho, mas também é exigente em termos de qualidade e pontualidade. E não regateia os preços. Diz sim ou não. Já o cliente espanhol gosta de regatear», compara, com humor.
«Quando os proprietários conseguem fazer uma utilização regular do barco, com várias saídas durante o ano, isso é uma utilização feliz. Em números médios, qualquer embarcação deveria ter à volta de cinco por cento do valor que custa em novo, de manutenção, por ano. É uma questão de custo-benefício e de amor. Às vezes fazem-se reparações em que o barco já não justifica o investimento, mas o proprietário, como gosta, porque era uma herança familiar ou considera que tem valor sentimental, avança».
Tenório, que durante 23 anos trabalhou para a Águas do Algarve, onde foi responsável «pelo abastecimento de metade da região», assinala também a diferença com a vizinha Espanha.
«Existem muitos mais lugares de amarração. Ayamonte, Ponta Umbria e Huelva têm centenas de lugares cada, para a náutica de recreio», o que é também um enorme mercado para VRSA.
Hotelaria para estágios e eventos corporativos
Ao chegar ao Centro Náutico 818, mesmo ao lado do estaleiro da NautiParque, agora também sob a gestão de Cláudio Tenório, estão expostas peças de arqueologia industrial que remetem para a história de VRSA.
«Este espaço, se calhar no século XX, foi sempre um estaleiro de construção naval. Temos dados concretos nos últimos 30 anos, quem pegou no estaleiro que aqui existiu foi gradualmente deixando a construção em madeira e passou para a fibra de vidro», diz, referindo-se às origens da vizinha Nautiber, uma das empresas líder do sector.
«A única coisa que sobrou do antigo estaleiro foi um pavilhão que está remodelado. Ainda é o mesmo. Todas estas plainas e serras também ajudavam» até há pouco tempo, «porque os moldes para a fibra continuaram a ser feitos em madeira».
A Nautiber «tem a concessão por um período de 20 anos e fez todas as obras de beneficiação do espaço» que deram origem ao Centro Náutico 818. No entanto, «somos empresas independentes a todos os níveis», detalha. O número 818 «tem a ver com os quilómetros do Guadiana, desde a nascente até aqui à foz, embora haja informações divergentes».
É uma estrutura idealizada para apoio à náutica de recreio e para dar valor acrescentado á atividade de parqueamento e manutenção, na promoção de eventos náuticos, com uma componente de restauração e alojamento.
«Temos rampa de acesso à água, pavilhão coberto, barcos e cais de apoio e todas as condições para as equipas poderem treinar vela, canoagem, windsurf, pesca, mergulho» e desportos náuticos motorizados. É esse o nosso público-alvo». Mas não é fácil de atingir, porque são nichos de mercado muito pequenos, e às vezes até com logísticas complicadas. «Digamos, que é aí que queremos chegar», sublinha.
Vamos procurar ocupar os alojamentos com mos nossos clientes, os nossos fornecedores do estaleiro, de equipamento náutico e os nautas em geral . Já fizemos aqui um curso que englobou a parte teórica e a parte prática de mecânica na nossa oficina de uma marca japonesa de motores marítimos interiores Yanmar, que somos representantes oficiais. Em outubro tivemos o meeting da Yamaha para as motas de água», revela.
«Conseguimos trazer para VRSA a representação e assistência técnica de marcas de prestígio. Além das já referidas, somos também representantes oficiais da Garmin».
Significa isto, segundo o responsável, que há potencial para acolher eventos corporativos do sector da náutica. «Já percebemos que temos falta de uma sala de formação para 30 pessoas. A piscina é o bónus», brinca. O alojamento também foi pensado para albergar os nautas durante as grandes reparações, embora, não seja uma opção frequente.
Águas internacionais entre dois países
No canal de navegação na em bocadura do Guadiana, «não é possível colocar poitas, não estão definidos os lugares de amarração e há ainda algumas agravantes legislativas. Para alguns efeitos, esta foz é considerada águas internacionais, por incrível que pareça, como se tivéssemos em alto mar. Depende de onde é que a maré nos leva. Se estivemos a tocar na margem portuguesa, estamos em Portugal, se estivemos a tocar na margem espanhola, é Espanha. No meio, estamos em águas internacionais». Por vezes, tal posicionamento suscita dúvidas aos marinheiros de lazer, saber a que país pedir ajuda em caso de dificuldade. «Os espanhóis ligam para as autoridades espanholas e nós para as nossas. Se for um inglês ou um belga», a dúvida pode resultar em confusão. Esta realidade agrava os custos dos seguros para a náutica de recreio e para as marítimo-turísticas no Guadiana.
Apoio dos fundos europeus geridos na região
O reforço da capacidade operacional da NautiParque valeu ao promotor Deusesrebeldes Unipessoal, Lda, de 234.912,39 euros, sendo o apoio não reembolsável do CRESC Algarve 2020, no montante de 79200 euros.





