Gestão de resíduos no Algarve em risco de colapso, alerta Almargem, que critica o alargamento de aterros na região e exige mudanças estruturais urgentes.
A Associação Almargem promoveu, no dia 29 de janeiro, na Cortelha, uma sessão de informação e apoio à participação pública dedicada à situação crítica da gestão de Resíduos Sólidos Urbanos (RSU) no Algarve, aos impactos sentidos pelas populações locais e à necessidade urgente de uma mudança estrutural nas políticas de recolha, tratamento e deposição de resíduos na região.
A iniciativa decorreu no âmbito da Consulta Pública do Estudo de Impacte Ambiental (EIA) do Aterro Sanitário do Sotavento do Algarve, a decorrer até 4 de fevereiro, que prevê o alargamento de mais uma célula de recepção de RSU, tal como o nosso jornal já tinha adiantado.
Para a Almargem, esta opção confirma uma estratégia reiterada e falhada, já aplicada no Aterro Sanitário do Barlavento, assente no prolongamento da deposição em aterro em vez da resolução estrutural do problema.
Em nota divulgada hoje, a associação ambientalista com sede em Loulé afirma que «não haverá aterros e alargamentos que cheguem enquanto não forem radicalmente alterados os modelos de recolha, deposição e tratamento de Resíduos Sólidos Urbanos no Algarve», responsabilizando diretamente as entidades envolvidas.
«As entidades responsáveis — ALGAR, AMAL e autarquias — têm de acordar, de uma vez por todas, para o enorme problema ambiental, social e sanitário que têm (e que todos temos) em mãos na região algarvia», sublinha a Almargem.
O diagnóstico apresentado aponta para uma situação próxima do colapso na recolha e tratamento de resíduos na região. De acordo com a Almargem, «as populações que vivem nas imediações dos aterros são as mais prejudicadas», encontrando-se «desesperadas, cansadas e profundamente desiludidas», não só devido à poluição diária, mas também às «promessas sistematicamente não cumpridas por parte das entidades responsáveis».
Entre os impactos relatados durante a sessão estão a circulação constante de veículos pesados no interior da aldeia da Cortelha, a poluição das linhas de água, maus cheiros intensos e persistentes e a dispersão de plásticos e papel por quilómetros em redor. «O cenário é desolador», refere a associação, citando moradores que afirmam que «até o motocross não se aguentou».
A Almargem alerta ainda para a descrença crescente da população na eficácia da participação pública, admitindo que «alguns residentes já não acreditam que a participação nesta Consulta Pública consiga alterar o que quer que seja na realidade que vivem todos os dias», havendo mesmo quem considere recorrer a «outras formas de luta mais drásticas».
A associação recorda que o problema está identificado há vários anos, como demonstram queixas apresentadas em Bruxelas por organizações congéneres e a cobertura mediática continuada. Persistem, segundo a nota, situações «claramente ilegais e inaceitáveis», como «a deposição contínua de matéria orgânica em aterro, sem triagem prévia», a «compactação dos RSU a funcionar de forma ineficiente ou inexistente» e uma taxa de deposição em aterro no Algarve que ronda os «81,9%, muito acima da média nacional, cerca de 54%».
De acordo com a Almargem, estes valores colocam a região em incumprimento dos compromissos assumidos por Portugal perante a União Europeia. «Não falta legislação. Não faltam estudos. Não faltam recursos financeiros — que, aliás, pesam de forma significativa nas faturas pagas pelos munícipes algarvios. Falta ação. Falta visão. Falta coragem política», afirma a associação.
A Direção da Almargem conclui que este é «um modesto, mas firme, contributo para despoletar a mudança urgente que se exige na gestão dos RSU», alertando que «o Algarve não pode continuar a afirmar-se como região de excelência turística enquanto trata os seus resíduos com práticas indignas de um território europeu do século XXI».
