«Sou um jovem com 22 anos, de Alvor. A minha ocupação principal é guitarrista de fado. Sou uma pessoa normal». Assim se definiu Filipe Baptista, a iniciar a conversa com o «barlavento».
Filipe Baptista iniciou-se no piano, aos oito anos. Mais tarde, enveredou pela via musical nos estudos do ensino secundário. Repentinamente, aos 18 anos, abandona tudo por amor ao fado. Se estivéssemos a falar de um jovem de Alfama ou Bairro Alto, compreendíamos perfeitamente. Neste caso, não tanto e, por isso, fomos conversar com ele.
barlavento – Como surge esse amor pela guitarra portuguesa?
Filipe Baptista – Foi principalmente pelo fado. Desde pequeno que ouvia fado nas cassetes dos meus avôs. E no restaurante do pai de um amigo meu, onde havia fado semanalmente. E ficou sempre cá o bichinho. Mas só a partir dos 18 anos, talvez por já ter outra bagagem musical, me interessei pela guitarra portuguesa. O facto de a minha irmã ter começado a cantar também teve alguma influência.
Mas continuou com a sua formação em música clássica e com o piano?
Larguei tudo.
Por amor ao fado?
Foi uma opção e o desejo de realizar um amor antigo. O instrumento agradava-me e o fado também.
Podia ter entrado na guitarra portuguesa pela via clássica onde já estava enquadrado. Porque não o fez?
Não me interessava, sinceramente. Gosto principalmente de acompanhar quem canta. Não é que não goste de solar e, para o instrumentista, dá mais projeção tocar guitarradas. Mas prefiro acompanhar, porque comungamos no conjunto cordas / voz, caldeando as letras, a música, o sentimento que transmitimos às pessoas. Para mim, o fado consiste em passar uma experiência a quem está a assistir.
Como é que aprendeste a tocar o instrumento, que me dizem ser difícil?
A minha irmã começou a cantar fado e eu decidi aprender a tocar guitarra portuguesa. Fomos falar com o guitarrista Victor do Carmo e tive a minha iniciação com ele. Depois, tenho seguido a minha aprendizagem pela audição de vários guitarristas e pela muita prática.
Diz-se que são necessários três a quatro anos para se dominar a guitarra portuguesa. Concorda?
É relativo. Eu tive iniciação durante pouco mais de um ano. Depois, foi a aprendizagem gradual, ao longo deste ano e meio que levo na profissão.
Os anos de aprendizagem na música clássica ajudaram?
Deram-me segurança, embora não faça leitura de nada que tenha a ver com fado. Embora haja pautas, prefiro ouvir os originais, para perceber como fizeram. Depois, tento colocar o meu sentimento.
O modo como se acompanha também mudou, nos últimos anos, não foi?
Hoje, temos mais recursos, ouvimos todo o tipo de músicas a nível mundial. E recolhemos essas influências. A nova abordagem da guitarra portuguesa concentra-se nos silêncios da voz, para preencher e não tapar o trabalho dos outros, fazendo os contracantos. No passado, os guitarristas começavam a tocar no início e acabavam no fim, sem paragens.
Hoje, vocês deixam esse trabalho ao viola?
Sim, porque a função da viola é fazer o acompanhamento, marcar os compassos para segurar quem está a cantar. Nós embelezamos, fazendo o adorno. A guitarra pode acompanhar, mas não é a mesma coisa. É como se o fado fosse um bolo: o viola é a base, o fadista o recheio e o guitarrista os adornos.
Teve a sorte de encontrar um viola experiente, que o ajudou na sua inexperiência?
Posso dizer que sim. Há ano e meio, o Paulo Feiteira veio para o Algarve, necessitava de um guitarrista para trabalhar e perguntou-me se estava interessado. O Paulo tem uma boa batida para acompanhar, tem uma boa mão direita, como ele costuma dizer. Dá-me segurança para fazer o que quero e corrige-me, quando estou errado. A sua grande experiência e as muitas pessoas que já acompanhou dão-lhe um enorme traquejo e dão-me segurança para fazer os adornos. Estou perfeitamente descansado.
Entretanto, abandonou os estudos?
Tive de fazer uma opção. Por um lado, faltava-me o tempo; por outro, fiquei sem paciência para me dedicar ao piano, na escola, quando era a guitarra que me dava satisfação pessoal. Guitarrista foi a profissão que abracei. Não descarto a hipótese de voltar a estudar, mas não no imediato.
Os guitarristas são poucos no Algarve. Logo, as influências são limitadas. Vai regularmente a Lisboa, procurar outras escolas?
Não vou, porque o Youtube é um recurso muito importante para qualquer músico. Estamos em casa, no sossego, e temos abertura para todo o lado e conseguimos ver tudo o que eles estão a executar. Às vezes, acabam de fazer e já está no Youtube. Não digo músicas novas, mas ver as malhas que fazem. Tento não copiar, mas baseio-me nos que são a minha referência para me desenvolver.
Quem é a sua grande referência na guitarra portuguesa?
São vários. Dos atuais, o José Manuel Neto é a minha grande influência. Mas gosto de ouvir outros, como o Ângelo Freire e o Luís Guerreiro. Mas tento ouvir também os antigos, para saber o que se faz, se fez e se pode fazer.
Como vê as novas tendências do fado, com outros géneros misturados?
Na minha opinião, que vale o que vale, é uma forma diferente de chegar às pessoas. Desde que a característica base do fado se mantenha, não tenho nada contra. Mas não gosto dos novos instrumentos que estão a trazer para o fado. Fica desvirtuado o bonito disto, que são dois ou três instrumentos, guitarra portuguesa, viola de acompanhamento e baixo, a fazer quase o trabalho de uma orquestra.