Faro não entrou na shortlist das cidades portuguesas que passaram à fase final da competição da Capital Europeia da Cultura 2027, mas também não vai desistir das lições deste processo. E fez tudo o que pôde para passar….
Um recital doce, cantado à capela e a duas vozes femininas, na chave de ré maior, pautado pelos sons da Ria Formosa, foi a primeira aproximação da equipa de Faro ao júri, na manhã de quarta-feira, dia 9 de março, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.
Quase como se de uma coreografia se tratasse, a equipa tinha os segundos bem contados e o bidbook na ponta da língua, apesar de o inglês ter sido o idioma mais falado, durante uma hora e meia. O barlavento acompanhou a equipa na viagem e teve a oportunidade de assistir ao último ensaio na véspera, uma vez que as apresentações ao júri decorreram à porta fechada.

Bruno Inácio, coordenador da candidatura de Faro a Capital da Cultura 2027, foi o primeiro a fazer um balanço à saída da sessão. «Não diria que foi complicado. Formularam-nos muitas questões ligadas ao que está escrito no bidbook, à nossa capacidade de conseguir trazer um projeto desta dimensão à região, às audiências que pretendemos atrair e também como é que nós pretendemos criar esta simbiose entre um destino massificado e algo desta natureza».
De alguma forma o júri sentiu-se tocado por esta candidatura ter sido tão participada? «Nós sublinhámos muito essa questão, porque na verdade houve um esforço muito grande, desde o início, para tornar este processo muito participado, com muita gente. E isso é real, não é uma coisa fabricada, porque é impossível, pelo menos com esta dimensão. Penso que passámos essa ideia de forma bem clara no bidbook. Temos a expetativa que possa ser importante».
«Mas acho que temos de moderar as expetativas. Fizemos um trabalho honesto, digno e sincero para a nossa região. No resto do país houve pessoas que também fizeram o mesmo. Poderá haver desequilíbrios que não conhecemos e que fazem com que não estejamos na fase final. O importante é voltarmos sempre ao início: porque é que nos estamos a candidatar? Estamos a candidatar-nos porque acreditamos que a cultura e a criatividade podem ser uma fórmula de mudarmos a maré daquilo que é hoje a perspectiva do desenvolvimento económico da região. Isso não pode estar dependente de uma avaliação de júri. É um desígnio maior do que isso», sublinho. «E portanto, se não tivermos na fase final, ficamos tristes mas saberemos que contribuímos para esse caminho», rematou.

Sente-se realizado? «Sim. Sinto-me cansado, mas sinto acima de tudo que fizemos um trabalho digno para os nossos concidadãos. Estamos a trabalhar para outras pessoas e quem trabalhar no sector público tem de ter esta perspectiva de serviço. E apresentámos de forma digna» Faro.
Inácio, apesar dos treinos e dos ensaios prévios, não esconde que ficou nervoso. «Fiquei. Mas não mostro. Eu disse ao júri quando foi a minha vez de falar. Eles riram um pouco e isso ajudou a desbloquear. São pessoas que procuram nos detalhes o que é que pode fazer a diferença. É difícil dizer isto de forma tão taxativa, mas creio que sim. Acredito que este processo é mesmo importante. Ter 12 cidades, num país tão pequeno, pode revolucionar e mudar a forma como olhamos para a cultura e para a criatividade em Portugal. É preciso ter a humildade de reconhecer que pode haver projetos que o júri considere».
Questionado sobre se o financiamento poderia ser um obstáculo, Inácio admitiu que «houve perguntas também sobre essas matérias, mas penso que a nossa proposta é bastante equilibrada e realista. É concretizável. Desde o momento em que fizemos esta candidatura, no ano passado, a Europa entrou em guerra e portanto a realidade está em constante mudança». Ou seja, «no momento em que fizemos este orçamento, à luz do que são finanças municipais e daquilo que é a capacidade da região, acredito que seja seja um fator de decisão», disse.
Coube a Alexandra Gonçalves Rodrigues, ex-diretora regional de Cultura do Algarve, professora adjunta e atual diretora da Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve, ser a primeira a enfrentar as questões do júri.

«Pareceu-me que gostaram bastante da nossa apresentação. Em relação às respostas, é sempre difícil em tão curto espaço de tempo, até porque há várias abordagens que se podem dar. O que é fundamental dizer é que trabalhámos em equipa, fizemos o nosso melhor, com muita entrega, com muita dedicação, com o envolvimento real de todos, desde os mais jovens ao presidente da Câmara. Para mim, este foi o primeiro processo, do género, em que estive envolvida, e sinto-me muito honrada em integrar esta equipa», sublinhou.
Outro aspeto singular foi o facto de a equipa de Faro ter duas jovens de 19 anos a enfrentar o júri. «Foi excelente porque com a evolução dos anos perdemos a noção daquilo que os preocupa. Só com esta proximidade é que conseguimos entrar no mundo dos jovens e conseguimos encontrar os problemas de hoje, que não são os da nossa geração na mesma idade. Hoje vivem num mundo global, com as questões de pandemia, de guerra, que também fazem parte da dimensão cultural e têm de entrar nesta programação. Elas trazem um meio muito interativo, das redes sociais, numa procura de se encontrarem e de perceberem o seu papel na sociedade. Isso é excelente nesta geração porque de facto querem dar o seu contributo para uma sociedade melhor».
«Mostrámos que somos capazes de fazer e temos gente muito boa na nossa cidade, no nosso distrito, temos tudo para nos tornarmos diferente. Há essa capacidade, independentemente daquilo que venha a ser o resultado. Não houve nenhuma resposta que ficasse por dar. Toda a equipa funcionou e mostrámos que trabalhámos para um projeto que acreditamos», concluiu Alexandra Gonçalves.
Rogério Bacalhau, presidente da Câmara Municipal de Faro destacou que «fomos nós próprios, com autenticidade. Mostrámos aquilo que estamos a fazer e aquilo que temos projetado para o futuro. De alguma forma, explicámos que o processo burocrático em Portugal é atroz, mas isso não tem a ver com este projeto. Já temos experiência nesse campo e, por isso, há-de ser ultrapassado».

Em jeito de balanço, o autarca farense considerou que este processo «nos levou a pensar em nós e a tentar atingir um nível que nunca antes foi pensado. Temos condições para implementar este projeto. Independentemente de termos ou não este galardão europeu, muitas destas coisas irão ser realizadas. O que falhará se não formos capital? Bem, o nível de programação [cultural] não será o mesmo. Mas a ideia transformadora para as infraestruturas e para a cultura estará sempre presente na nossa ação», garantiu Rogério Bacalhau.
Tiago Prata faz um balanço muito positivo. «A minha participação, enquanto algarvio que está fora, foi no âmbito específico da dimensão europeia, que é algo em que tenho experiência profissional. O que fiz foi dar a minha opinião sobre como as urgências locais se poderiam ligar às urgências europeias e internacionais, e ajudar a desenvolver alguns projetos-piloto com financiamento europeu».
«O que posso dizer é que enquanto algarvio, estou muito orgulhoso do trabalho que foi feito pelos atores culturais locais, por todos os que fizeram parte desta candidatura. O que pude ver é que há uma vontade real de melhorar tudo para o bem da cidade de Faro e do Algarve. Será sempre subjetivo, pois no júri há 12 pessoas que darão a sua opinião e que vão decidir o que o futuro será. Espero bem que, apesar do resultado, deste processo seja impossível reverter esta visão para o desenvolvimento. O importante a reter é que temos qualidade e podemos desenvolver-nos, mesmo sem o título, de acordo com as necessidades de Faro e do Algarve que foram identificadas».
Fúlvia Almeida, da associação Ar Quente, ex-jornalista e membro recente da equipa, sentiu «que os ensaios que fizemos se refletiram aqui. Em cada sessão de trabalho fizemos vários. Fiquei muito contente porque senti que estávamos confiantes, relaxados, unidos e a atuar de coração, verdadeiramente. Em relação às perguntas, sinto que estivemos à altura do desafio e que até teríamos tempo para mais. Penso que o júri insistiu muito na parte financeira e na parte da gestão. Senti que era uma preocupação, mais até do que perguntas acerca da parte artística e do conceito. Talvez tenha ficado claro na apresentação».
No entanto, «mesmo que não consigamos, penso que todo o trabalho que já foi feito, todo o pensamento que foi estruturado à volta destas questões é muito importante. Quando olho para Faro e para o Algarve sinto que precisamos mesmo mesmo disto. Era tão importante pormos as pessoas todas juntas a pensar num Algarve comum, a contruir o nosso futuro juntos. O que estou a dizer não são balelas, nem conversa. Acredito que só a cultura pode mudar isto, com a mão na massa, a sentir as coisas. E se for assim, nós transformamos».

Por sua vez, Marko Paunovic trouxe o input de fora para dentro. «Verdade. Eu sou da Sérvia, dos Balcãs. Trabalho com projetos de voluntariado e juventude da Europa. Vivo há pouco tempo em Faro, onde sinto que já pertenço. Fui convidado para dar o meu contributo, porque penso que a cultura e as culturas criativas ainda são bastante subestimadas, apesar de todo o potencial que existe na cidade. Penso que fizemos o nosso melhor e penso que o processo em si é um sucesso que já traz muito para Faro».
Ainda sobre a a canção que tanto impressionou o júri, em primeiro lugar surgiu a letra, de uma troca de ideias entre Teresa Aleixo e as jovens Maia Viegas e Camila Graça, ambas de 19 anos, que tinham a responsabilidade pelo momento introdutório da apresentação. A inspiração foi o poema «A minha rua tem o mar ao fundo», de António da Encarnação Pereira, e um poema original da cantora, «para aquilo que queriámos que representasse o momento».

«Percebemos que era o caminho e que as nossas vozes ligavam na perfeição», diz, quem sabe se poderá evoluir para um hino. Aleixo diz que trabalhar com a jovem «foi viajar um pouco no tempo. Olhar para ela e ver o percurso que está a ter fez-me ver um pouco a mim própria, a começar. Foi muito emocionante porque houve uma partilha de ideias e da forma como encaramos a nossa arte. Nasceu aqui uma amizade».
Para Camila Graça, «para o elemento musical, a idade não foi de todo um ponto. A música liga-nos a todos. A Teresa tem a música dentro dela, o espírito dela não iria ficar mal, fosse quem fosse» o dueto, disse a jovem.
«O ambiente que temos enquanto grupo foi tão bom que correu melhor do que aquilo que esperava. Mostrou como a energia de grupo diz tudo sobre o que queremos fazer a seguir cada um de nós», resumiu. E a letra? «A minha rua tem o mar ao fundo. Este lugar onde cabe o mundo. Onde a pele bebe o que houver para beber e a mente alimenta o saber. Este lugar tão vasto que é o mar. Traz consigo pedaços de outros lugares. Traz outras pessoas, outras línguas e olhares. As perspetivas que tu sonhares. E eu aqui as aguardo e de braços abertos penso no que trará a maré de amanhã. O que trará a maré de amanhã. A minha rua tem o mar ao fundo num lugar onde cabe o mundo», cantaram.
Veredito
Faro concorreu com Aveiro, Braga, Coimbra, Funchal, Guarda, Leiria, Oeiras, Ponta Delgada, Viana do Castelo e Vila Real. Integraram o painel de jurados Suvi Innilä, Else Christensen-Redzepovic e Jorge Cerveira Pinto (nomeados pelo Parlamento Europeu), Marilyn Gaughan Reddan, Goda Giedraityte e Rossella Tarantino (nomeados pelo Conselho Europeu), Jelle Burggraaff, Beatriz Garcia e Hrvoje Laurenta (nomeados pela Comissão Europeia), Anne Karjalainen (nomeada pelo Comité das Regiões), João Seixas e Suzana Faro (nomeados pelo Ministério da Cultura português).
Na conferência de imprensa de sexta-feira, dia 11 de março, que contou com a presença da ministra da Cultura, Graça Fonseca, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, foi anunciado que passaram à fase final do concurso as cidades de Aveiro, Braga, Évora e Ponta Delgada. Em breve, será divulgado o relatório com os argumentos do júri que levaram ao chumbo das restantes candidaturas.
Um obrigado a todos!
O processo de candidatura Faro2027 envolveu a participação direta de mais de 3000 pessoas. Artistas, empresários, autarcas, especialistas internacionais, professores catedráticos, residentes estrangeiros, reformados, jovens e crianças, só para citar alguns dos que se interessaram. A todos, a equipa organizadora deixa um enorme «obrigado!». Com base nas ideias recolhidas, o dossier de candidatura focou temáticas como a água, a multiculturalidade, as alterações climáticas e a massificação turística. Apresentou propostas para mais e melhores ligações com a Europa nos domínios da cultura e da sustentabilidade. Envolveu entidades como a Universidade do Algarve (UAlg), o Turismo do Algarve, a Direção Regional de Cultura do Algarve, o Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ), a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, agentes culturais e todos os munícipios, que «desde a primeira hora» apoiaram esta iniciativa.
«O processo foi essencial para olharmos para o concelho de Faro e para região de uma forma muito participada. O caminho está iniciado. Agora há que continuar a trabalhar», afirma Rogério Bacalhau. «Não podemos ignorar todo o trabalho desenvolvido nem a energia gerada. Há projetos que estão em curso e que pretendemos continuar a dar seguimento, como a reabilitação da Fábrica da Cerveja, o Quilómetro Cultural e a Embaixada Gastronómica. Somos líderes do European Creative Rooftop Network (ECRN) que junta nove cidades, com o financiamento do programa Europa Criativa. A Convenção de Faro e as conferências internacionais anunciadas, bem como o projeto MI.MOMO.FARO, vão continuar a ser desenvolvidos, assim como outros, com todo o nosso empenho», garante o autarca farense.
Algarve persiste no investimento público na cultura
José Apolinário, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Algarve, entidade responsável pelo acompanhamento na implementação das políticas públicas no território e pela gestão dos fundos europeus de impacto regional, fez uma declaração formal acerca do chumbo da candidatura de Faro a Capital Europeia da Cultura em 2027.
«O júri internacional não escolheu Faro. É justo, contudo, reconhecer os esforços colocados para a apresentação de uma candidatura de mérito, participada, estruturada e com impactos positivos em toda a região. Saúdo o desafio que representou esta candidatura. Reafirmamos a nossa firme aposta em defender a mobilização de Fundos Europeus no investimento na área da cultura, no património histórico-cultural e nas indústrias criativas no Algarve, em proximidade e com um papel decisivo das autarquias locais. Ainda neste primeiro semestre estarão concluídos novos investimentos em património e equipamentos culturais com o apoio de fundos europeus geridos no Algarve», como são os casos da nova intervenção de conservação e valorização das ruínas romanas de Milreu, em Estoi, da nova exposição multimédia alusiva aos Descobrimentos e ao Infante D. Henrique, em Sagres, e da reabilitação do Cineteatro António Pinheiro, em Tavira.
