Escola Profissional de Odemira integra jovens migrantes de vários países e regista taxas de empregabilidade próximas de 100% nos cursos ligados à hotelaria e restauração.
Entre a aprendizagem da língua portuguesa, cocktails e bacalhau à Brás, alunos de várias nacionalidades da Escola Profissional de Odemira (EPO) procuram integrar-se no mercado de trabalho numa região marcada pela imigração.
Nesta escola do distrito de Beja estudam cerca de 300 alunos, a maioria portugueses, embora 40% sejam estrangeiros, oriundos da Índia, Nepal, Bangladesh e Brasil.
«Temos tido uma procura enormíssima de miúdos migrantes, com tudo o que isto traz de bom e mau, porque é muito difícil, ao longo do ano, receber miúdos constantemente», resume à Lusa a diretora pedagógica, Ana Paula Pereira, referindo-se ao fluxo migratório que chega à escola.
A responsável percorre os corredores exteriores da escola enquanto conversa com a Lusa e vai sendo saudada, por vezes com sotaque, pelos alunos que seguem em passo acelerado.
A EPO funciona atualmente com sete cursos profissionais, graças a «esta afluência de miúdos», mais do dobro da oferta de anos anteriores, que se resumia a três ou quatro, destaca.
Além dos cursos de cozinha e pastelaria e de restaurante/bar, os mais procurados pelos alunos estrangeiros, a oferta inclui técnico comercial, manutenção industrial, produção agropecuária, informática e turismo ambiental e rural.
«É muito raro termos miúdos estrangeiros num curso de produção agropecuária, porque não querem fazer o que os pais fazem», reconhece.
Os setores onde os jovens encontram mais facilidade de integração no mercado de trabalho são a hotelaria e o turismo, sobretudo em empresas do litoral alentejano e do Algarve.
Segundo a diretora, no 2.º ano cerca de «67% dos alunos são migrantes» e, no 3.º, a taxa situa-se nos 66%. Já no 1.º ano, a percentagem desce para 40%, «fruto da mudança da lei da imigração».
Neste contexto, a aprendizagem da língua portuguesa «é a peça fundamental» para a integração dos alunos estrangeiros, vinca.
Num dos pátios da escola, os alunos distribuem-se por grupos, nos quais predominam diferenças linguísticas. Uns conversam ou jogam cartas, enquanto outros, de olhos no telemóvel, aproveitam a pausa. Entre boinas alentejanas e turbantes, cruzam-se culturas.
Saimon, de 19 anos, natural do Nepal, escolheu o curso de técnico de restaurante/bar por uma razão simples: «Toda a gente come, não é?».
Para o jovem, este é «um bom curso para trabalhar» e onde se aprende a «fazer muitos cocktails », entre outras competências.
Quando chegou a Portugal, em 2019, sabia apenas contar em português: «um, dois, três», exemplifica, com a ajuda das mãos.
Sete anos depois, apesar de ainda sentir dificuldades na língua, está a terminar o curso, embora sem certezas sobre o futuro: «Não sei se fico ou não em Odemira».
Já Khusi, de 18 anos, também nepalesa, mostra maior facilidade na língua portuguesa e diz gostar da comida portuguesa e do contacto com clientes.
«Gosto de fazer serviço com portugueses, são muito simpáticos», conta.
Entre o «bacalhau à Brás» e a «carne de porco à alentejana», os seus pratos preferidos, a aluna do curso técnico de restaurante/bar reconhece que o maior desafio foi aprender português.
Em declarações à Lusa, o presidente do conselho de administração da escola, Paulo Barros Trindade, afiança que as «taxas de empregabilidade [são] elevadíssimas», chegando «muito perto dos 100%» em alguns cursos, sobretudo na área da hotelaria e restauração.
Resultados que exigem, contudo, «um esforço maior» do corpo docente.
«Os professores de língua portuguesa [fazem] um trabalho muito mais exaustivo com os alunos para, logo no primeiro ano, começarem a dominar a língua», explica.
A escola aposta também na ligação ao tecido empresarial da região, tentando que os alunos «visitem os locais de estágio» e «conheçam a realidade empresarial», acrescenta Ana Paula Pereira.
Arshpreet Kaur, de 18 anos, natural da Índia, a frequentar o 3.º ano do curso técnico de cozinha e pastelaria, destaca as aprendizagens.
«Aprendi muitas coisas, as pessoas são simpáticas e ajudam muito. Aprendi português, aprendi a fazer comidas portuguesas», diz.
Na cozinha da escola, que funciona como sala de aula, o grupo de 15 alunos, onde está Arshpreet, prepara pratos nepaleses e indianos, mas é a gastronomia portuguesa que mais a conquista.
«Adoro bacalhau à Brás. O meu professor diz que sou mais portuguesa do que indiana», brinca a jovem, que pensa prosseguir os estudos no ensino superior.
Desta experiência, relata, leva «confiança e muita aprendizagem» para o futuro profissional.