Portugal tem de se preparar para cheias e secas cada vez mais frequentes e intensas, defende o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
O presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), Pimenta Machado, defende que Portugal tem de se preparar melhor para os impactos das alterações climáticas, responsáveis por fenómenos extremos como cheias e secas, e tirar conclusões dos episódios registados em janeiro e fevereiro.
Em declarações à Lusa, à margem das «Cumbersas ne l Arquivo», promovidas pelo município de Miranda do Douro com o tema da gestão da água em contexto de alterações climáticas, o responsável apontou três prioridades: prevenção, proteção e recuperação, na sexta-feira, dia 20 de março.
«A parte mais importante deste PPR é a prevenção, que passa pelo ordenamento do território. Nós temos em Portugal mais de 100 mil pessoas que vivem em leito de cheias e aqui o mais importante é não aumentar a exposição ao risco e as pessoas não construírem em leito de cheia», afirmou.
Segundo Pimenta Machado, a segunda prioridade passa por soluções de proteção que trabalhem com a natureza.
«Temos de aprender com a natureza para nos defendermos e apostar em soluções de base natural, como a criação de grandes bacias para guardar água em excesso, à semelhança do que foi feito em Setúbal há dois anos», disse.
O presidente da APA admitiu também o recurso a infraestruturas como barragens e diques para reduzir o impacto das cheias, apontando o exemplo da barragem da Aguieira, onde foi necessário baixar a cota da água.
Outro eixo essencial é o recurso à tecnologia para alertar populações e apoiar a tomada de decisões.
«A tecnologia fez toda a diferença na gestão destas cheias de janeiro e fevereiro», sublinhou, destacando a articulação entre a proteção civil, os municípios e os sistemas de monitorização.
No plano da recuperação, Pimenta Machado defendeu a necessidade de reconstruir as zonas afetadas de forma adaptada à realidade atual.
«Temos muitos diques danificados, em Coimbra, no rio Lis e no rio Tejo. Vamos recuperar, mas numa lógica de adaptação aos sinais que recebemos da natureza», referiu.
O responsável acrescentou que o território deve tornar-se mais resiliente, sobretudo nas zonas costeiras, para enfrentar tempestades cada vez mais intensas.
Pimenta Machado destacou ainda o impacto das alterações climáticas na alternância entre períodos de seca e episódios de chuva intensa.
«Antes destas intempéries tínhamos as barragens do Algarve vazias e agora estão a transbordar», disse.
Segundo o dirigente, as chuvas persistentes registadas em janeiro e fevereiro resultaram de vários sistemas meteorológicos sucessivos, que também tiveram impacto nas bacias hidrográficas partilhadas com Espanha.
«As nuvens levam a água para Espanha, onde é descarregada, e depois volta a Portugal através dos rios, como o Douro, o Tejo, o Guadiana e o Minho», explicou.
O presidente da APA referiu ainda que os incêndios florestais agravaram os efeitos das cheias, uma vez que os solos ficaram mais vulneráveis e com menor capacidade de absorção da água.
«Havia muita lenha queimada que acabou arrastada para os cursos de água», indicou.
Outro fator que contribuiu para o agravamento da situação foi o degelo nas bacias dos rios Mondego e Zêzere.
«O degelo é um problema, porque nevou muito e a neve transforma-se em água. Tivemos dificuldades com este impacto na modelação destes rios», disse.
Para Pimenta Machado, a conjugação de incêndios, degelo, cheias e marés associadas à lua nova criou «a tempestade perfeita» que afetou várias regiões do país.
Foto: Vítor Teixeira