Vinte anos de paciência para começar a trabalhar a sério naquele que será o maior centro de treinos de futebol profissional da Europa, na Corte de Bispo (Bensafrim), é obra. O Match Algarve tomará forma com a aprovação do Plano Diretor Municipal (PDM).
Ao «barlavento», Erik de Vlieger, proprietário do terreno e também responsável também pela requalificação do edifício «Mabor», em Portimão, traçou o ponto de situação do projeto em Lagos.
«O plano inicial já mudou. Diminuímos a área, porque quero manter uma parte do terreno» tal como está. A ideia é proteger uma zona enquanto reserva, até porque a propriedade tem um total de 610 hectares.
Ainda assim trata-se de um projeto de grande envergadura, pois terá um centro de futebol, pistas de atletismo, oito campos de futebol e râguebi com acomodações privadas, oito campos de ténis, e até um percurso de 36 buracos de footgolf – uma modalidade que alia o golfe às habilidades do futebol.
Esta novidade ocupará 25 mil metros quadrados. Será o primeiro no mundo a ser construído de raiz.
O projeto prevê ainda a utilização dos caminhos rurais existentes como percursos de treino, off-road e BTT. Terá piscinas, um centro médico desportivo e uma unidade de treino de alta performance, ginásio e spa.
«Quero fazer o maior centro de estágios em Portugal. Mantenho a minha ideia e sempre houve interesse em ver este projeto construído, mas a verdade é que, em 2008, comecei a falar com a associação de futebol na Rússia, com os britânicos, o Chelsea e eles perguntavam-me sempre quando estaria pronto», confidenciou um dos rostos do Carvoeiro Branco, Imca Group Bv e Pluis Participaties Bv, promotores do projeto.
Erik de Vlieger está à procura de uma parceria séria, num valor que ascende a mais de cem milhões de euros para começar a construção. «O plano todo ascende aos 115 milhões, com a terra e a construção dos edifícios. Há dois meses, instalei um escritório profissional na Holanda para começar com o marketing e o financiamento», adiantou o empresário, acrescentando que com o PDM aprovado já pode apresentar datas a um eventual parceiro de negócio.
Quando questionado, contudo, sobre uma data concreta para o pontapé de saída, joga pelo seguro. Afinal, esperou 20 anos pelo PDM. Não quer divulgar prazos sem ter um investidor concreto, por isso menciona um limite máximo de cinco anos, que inclui também a realização do Plano de Pormenor e o tempo de construção. «Quero prosseguir sossegado, pois é muito dinheiro», sublinhou.
A ambição é deslocar para o Algarve os grandes «clubes profissionais, mas também tornar o centro numa atração turística. As grandes equipas talvez venham no inverno e no verão. Mas no tempo intermédio tem que ser atrativo para o turismo, porque é uma economia anual. E há muitos jogadores de futebol amador que virão, tal como o acontece com o golfe», afiançou Vlieger, que considera este um mercado maior do que o do golfe.
Quando as equipas precisam de treinar para os campeonatos, o Match Algarve será a solução, porque os voos, ainda mais dentro da Europa, tornam a distância muito curta. «Todas as equipas com quem falo a nível internacional gostam da ideia», assegurou.
A aventura algarvia de Vlieger começou na Suécia, em 1996, quando comprou um prédio, que mais tarde, viria a ser vendido por muito dinheiro. Seis meses depois, um amigo propôs um investimento em Portugal, usando uma parte dos lucros desse imóvel. «Portugal? Em 1996? Porquê?», questionou Erik.
O amigo explicou que havia um terreno à venda no Algarve com pinheiros e 610 hectares de área. Como é um homem de negócios, voltou a questionar o porquê de comprar essa propriedade. «Temos negócios lá?»
A resposta do amigo foi tão simples como «é boa terra». Desconfiou, mas viajou até à Corte de Bispo e, de imediato, apaixonou-se pelo local. «Comprei a terra, deixei-a lá e, em 2001, falei com o treinador Sven-Göran Eriksson, que queria fazer o maior centro de estágios de futebol». Propôs-lhe uma opção de compra, que expiraria em 2006.
Terminado o prazo, o famoso treinador pediu mais dois anos, ao que o empresário recusou. Já o holandês tinha comprado uma casa no Algarve e feito alguns negócios. Sem PDM, Erik também não podia concretizar o projeto. Marcou uma reunião com o antigo presidente da Câmara Municipal de Lagos, Júlio Barroso. Apresentou-se como legítimo dono do terreno. Uma conversa curta, para dizer ao edil que gostaria de ver o PDM aprovado em 2006, para concretizar a sua ideia. Júlio Barroso respondeu que, no ano seguinte, o documento de gestão territorial estaria pronto. Passaram dez anos. «Em 2010, desisti de falar no projeto. Fiquei cansado», contou ao «barlavento».
Pensou que seria melhor abandonar a ideia, deixar o terreno como estava e construir uma casa para si. Este ano, teve uma surpresa. Ligaram a anunciar que já havia PDM. «Fiquei em choque», resume. Passaram vinte anos. Retomou a esperança, mas de forma cautelosa.
Para Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal de Lagos, este projeto vai dinamizar Bensafrim e Barão de São João. «Pretende ser um centro desportivo de excelência para atletas de alta competição, com uma unidade hoteleira e habitações de apoio», sublinhou a edil.
Lagos ficou treze anos sem PDM aprovado, sendo o único caso no país, mas ainda assim desenvolveu-se com os Planos de Pormenor e Urbanização. A aprovação do documento torna a situação mais definida, «tendo ficado contemplado no PDM os núcleos de desenvolvimento turístico e desenvolvimento económico», que deixam margem para a construção deste projeto, explicou a presidente daquela autarquia ao «barlavento».