barlavento – A saúde é uma área que lhe é cara. Está a par dos problemas no Algarve?
Maria de Belém – É cara a todos nós, porque a saúde é o valor mais importante. Também é natural que tendo tido tantos anos de trabalho nesta área, a conheça bem. Tenho ideia de que há grandes dificuldades no acesso aos cuidados de saúde e têm havido alguns problemas. Não conheço em pormenor, mas como candidata à Presidência da República não direi outra coisa que não seja a indispensabilidade de se garantir cuidados de saúde a toda a população do país, porque a Constituição diz que este acesso tem que ser universal. Sabemos que há uma hierarquia na prestação de cuidados, portanto tem que haver hospitais de referência. O que acho é que tem que funcionar tudo de forma adequada para que, por falta de organização da rede, as pessoas não vejam o seu estado de saúde ou prognóstico comprometido.
São diversas as críticas a este serviço público prestado no Algarve. A saúde é um pilar na sua candidatura?
O pilar da minha candidatura é o cumprimento da Constituição e que esta esteja ao serviço das pessoas. E como lhe disse, o artigo 64 é claro na definição dos princípios que regem o Serviço Nacional de Saúde (SNS). A organização e o funcionamento é assunto da competência do governo, mas o Presidente da República deve instar o governo para que a Constituição seja cumprida. Agora, temos um novo governo, um novo ministro da Saúde. Espero que muitos dos problemas neste domínio possam ser corrigidos. Porque a vida é o primeiro de todos os direitos, mas também porque as pessoas doentes não produzem e a produtividade é essencial.
Mas há outros problemas na produtividade. A geração atual é a mais qualificada e é aquela que se vê obrigada, de novo, a emigrar…
Hoje, não há uma família portuguesa que não viva esse drama. Eu própria o vivo. Há pessoas que emigraram em jovens por opção, porque é importante. Abrem horizontes e estabelecem redes de contactos ao longo da vida. [A emigração] é também uma das minhas batalhas. É indispensável o país criar condições para que os jovens que tiveram que emigrar, porque não tiveram oportunidade de trabalho, regressem. Criemos oportunidades na economia para que tenham integração no mercado de trabalho, seja para empreendimentos já existentes ou para serem capazes de criar o seu próprio emprego.
Sabe quais são os principais problemas do Algarve?
Sim. O Algarve tem problemas da sazonalidade, mas isso deve-se mesmo às próprias estruturas empresariais, que também têm que trabalhar no sentido de criar condições. Não podemos ter o país pendurado no Estado. As estruturas empresariais, em articulação com as nacionais, devem tanto quanto possível, trabalhar no sentido do nível de atividade, mesmo no turismo, ser mais regular todo o ano. Esta região não é só praia. É montanha, termas e recursos naturais lindíssimos. Este cruzamento permite uma utilização, durante o ano, sem tantos altos e baixos. É uma região com potencialidade agrícola. E há uma coisa que a maioria das pessoas não sabe. Para ter grandes atividades económicas e capacidade de atração, por exemplo, de estrangeiros, que venham residir para Portugal, é necessário ter estruturas de saúde que lhes garantam segurança, para o caso de terem algum problema e de poder ser dado o socorro, no imediato. E também outras estruturas que permitam a fácil evacuação. Temos que olhar a estas componentes todas e pedir mais à iniciativa privada para fazer com que a dinâmica da região seja estimulada. Outro aspeto importante é a Universidade do Algarve, que tem sido um motor de desenvolvimento e afirmação da região, que é preciso que seja cada vez maior.
O Algarve já sofre uma situação específica de sazonalidade, que leva ao desemprego e, em consequência, à carência social, num círculo vicioso. É candidata à Presidência da República do país, mas tem que distinguir os problemas de cada região, certo?
Todas são diferentes umas das outras. Também tenho referido nas minhas intervenções a indispensabilidade de ajustarmos as decisões às realidades, porque a centralização da decisão, muitas vezes, não permite a solução de problemas que são diferentes de um sítio para outro. Pode haver problemas idênticos a outra região, mas é diferente do sul e vice-versa. Precisamos, sobretudo, de ter a preocupação da correção das assimetrias, das desigualdades e isso faz-se partindo de um conhecimento real. Depois tentando ajustar e descentralizar a decisão o mais possível.
Também é preciso estimular a natalidade?
O sector da economia social pode constituir uma arma ou uma oportunidade para muita gente, com competências para ajudar as famílias na sua conciliação e criar os próprios projetos de negócio social, produzindo bens e serviços que são necessários para a família. Ajudar a criar as crianças é um bem fantástico.
Terá uma Presidência de «portas abertas» se for eleita?
Sim, de portas, olhos e ouvidos abertos. E também com uso da palavra, porque o Presidente tem uma responsabilidade grande do uso das palavras e dos silêncios. Farei a minha gestão.
É isso que tem falhado nos últimos anos? Que falem pelas pessoas?
Acho que as pessoas têm sentido, sobretudo durante a crise económica e financeira mais pesada, durante o programa de ajustamento, falta de representação.
Alguém que falasse por elas?
Sentiram-se órfãs e esse sentimento de orfandade sugere muito a injustiça. As pessoas sentem-se injustiçadas e, portanto, é bom que haja alguém que possa ao menos ouvi-las, escutá-las e dentro do possível construir um cenário de esperança.
Por ser mulher estará mais atenta a outros problemas?
A única coisa que posso dizer é que colocarei toda a minha razão e sensibilidade ao serviço do cargo. Sou muito racional e sensível e acho que uma coisa ajuda à outra. Temos que ter capacidade conceptual, de perceber as situações, onde elas se encaixam, onde se enquadram e ter a sensibilidade para tomar a decisão certa. A vida que vivi, aquilo que aprendi ao longo da minha vida permite-me ter essa capacidade com ponderação.
«Portas abertas à população» será a prioridade de Maria de Belém
A ex-ministra da Saúde, da Igualdade, deputada e ex-presidente do PS, entre muitos outros cargos, promete colocar a Constituição ao serviço das pessoas e ser uma Presidente da República com «as portas abertas». Num discurso direto disse que o importante são as pessoas e traçou aquele que acha que deve ser o perfil do Presidente da República, cruzando com as características que reconhece em si própria. «Experiência multifacetada, ponderação, serenidade, firmeza e seriedade» são algumas das qualidades apontadas. «Não sou, nem nunca fui criadora de factos políticos, ou de dificuldades para depois aparecer como uma pessoa capaz de resolver», afirmou ainda na sua fugaz visita a Portimão. Para a sua candidatura no Algarve escolheu como mandatária a socialista Isilda Gomes, presidente da Câmara Municipal de Portimão, e como diretor de campanha no Algarve Vítor Guerreiro, edil em São Brás de Alportel. Reúne apoio ainda de figuras como José Amarelinho (Aljezur), António Miguel Pina (Olhão), Jorge Botelho (Tavira), António Eusébio (deputado e presidente do PS Algarve) e Miguel Freitas (ex-deputado). Ao «barlavento» Maria de Belém afirmou retornar à região para contactar com a população e ouvir aos pessoas.