Noémia Zancuoghi (BRAIDA) é uma artista luso italiana, que nasceu em Lisboa e cresceu em Silves. Explora o macramé e as artes têxteis para criar peças pensadas para ambientes contemporâneos.
Como o pai é natural de Milão, passou muitos verões da sua infância no norte de Itália com a família e a irmã dois anos mais nova, Susana, companheira das suas aventuras. Escolheu Lagos para ficar porque sempre gostou da cidade, onde criou memórias com uma amiga de adolescência com quem ia de Silves até lá, numa agradável viagem de comboio. Encantada pelo movimento e singularidade que se sente nas ruas, houve outro motivo que a fez assentar nas terras do Infante, conheceu o namorado Ruben Guerreiro, arquiteto, o maior suporte no seu projeto.
Passou por várias áreas, desde hotelaria a turismo, mas sempre com a o desejo paralelo de investir num projeto seu, sonho que a mãe sempre apoiou por acreditar no seu talento. Começou a explorar técnicas de macramé com a ajuda de vídeos no Youtube que originaram as suas primeiras pequenas peças, feitas com cordas básicas.
Foi em 2020 que decidiu focar-se em formas modernas, pensadas para ambientes modernos e contemporâneos, e fazer da sua arte o seu negócio. Ao concluir a primeira peça, ficou surpreendida com o resultado e o que começou como um passatempo, tornou-se a sua ocupação a tempo inteiro.
Conseguiu desenvolver criações que transmitem despreocupação e, em simultâneo, elegância, através de tons neutros e um design próximo do tradicional, contudo Noémia não seguiu um conceito em específico: criou o seu. Inspirou-se na natureza, nos detalhes do quotidiano, na moda, fotografia e arquitetura, o que se traduz numa arte onde ressaltam as cores fortes e vibrantes.
«Queria marcar pela diferença e destacar-me do que já existia», revela a artista.
E assim fez, através da criação de padrões únicos, produzidos com extrema dedicação e perfeccionismo. «Gosto do que é moderno, minimalista e tem cor, então decidi apostar em peças onde posso conjugar tudo, com formas geométricas simples e recurso a vários nós», esclarece.
Autodidata, foi adaptando uma técnica antiquada a um estilo moderno e atual, onde mistura vários padrões, cores e nós. Tem o seu próprio perfil, aposta em obras de grandes dimensões, com mais de um metro de largura e 80 centímetros de altura, ideais para pendurar tanto em paredes de um estabelecimento hoteleiro, de turismo rural ou numa habitação própria. A sua arte tem corrido o mundo e hoje tem peças do Brasil aos Emirados Árabes Unidos.
O abstracionismo das suas obras dá liberdade para que cada um faça a sua interpretação, «de forma espontânea e pessoal,» mas a mensagem de calma e tranquilidade é comum bem como a sensação de que o tempo para por uns instantes. BRAIDA, nome escolhido em homenagem ao apelido italiano da avó e bisavós de Noémia do lado paterno, donos de uma oficina de carros com essa marca, utiliza sempre fio de algodão de um produtor nacional e tem uma preocupação acrescida com a sustentabilidade.
Assim, Noémia teve a ideia de utilizar cordas náuticas, com o intuito de dar mais volume às suas peças e reciclar. O resultado de um trabalho árduo e detalhado, em que cada peça demora pelo menos um mês a ser feita, é um efeito visual único e espetacular.
Tudo começa com um estudo de cores e uma pequena maquete, seguindo-se numerosos cálculos para precisar as medidas do material necessário. «Embora queira tudo perfeito como é um trabalho manual, nunca será como se fosse feito por uma máquina e essa é a magia do trabalho,» refletiu a artista ao adicionar que «é um processo longo e bom».
Com os seus trabalhos pretende provocar uma sensação de bem-estar, ânimo, leveza e motivação, o que também acontece com os acessórios que faz com o mesmo material, como colares e brincos. De tudo o que já alcançou, do reconhecimento à criação do seu próprio atelier, Noémia vê-se ainda no início do seu promissor caminho.
Segundo recorda, a sua criatividade manifestou-se cedo. Enquanto brincavam com bonecas, Susana criava a história e Noémia os cenários. «Desde pequena, sempre tive vontade de fazer objetos com diversos materiais, pintar com lápis de cor e fotografar», contou a artista.
Sabia que o seu caminho profissional passaria pela área artística, mas os trabalhos têxteis só vieram mais tarde.
Após concluir a escola secundária, no curso de Artes, mudou-se para Lisboa, onde estudou fotografia analógica no Centro de Arte e Comunicação Visual (Ar.Co), mas não ficou por aqui. O seu lado destemido colocou-lhe um novo desafio: trabalhar em restauração em Viena, capital da Áustria, onde aprendeu alemão, desenvolveu o seu atendimento ao cliente e, ao mesmo tempo, foi construindo o seu portifólio fotográfico.
De regresso ao Algarve, trabalhou pouco mais de um ano num hotel em Faro e decidiu voltar a Silves. Em conjunto com cerca de 10 amigas, decidiu criar uma associação focada no desenvolvimento sociocultural local. Ainda que tenha sido possível dinamizar o município no início, o grupo acabou por se separar e Noémia viveu das melhores experiências da sua vida como resultado de várias viagens por diversos continentes, como América do Sul e Ásia, até que procurou Portugal de novo.
Num futuro breve, pretende produzir mais peças que possam dar uma nova vida a objetos inutilizados, aproveitando para explorar a tridimensionalidade, e mais adiante realizar workshops de pequenos grupos no seu estúdio.





