Crítica a «Pudesse ser noite a vida inteira», livro estreia de Laura Vasques de Sousa, que explora decadência, morte e desejo numa narrativa intensa, pelo editor.
Há um insaciável apetite pela desgraça alheia que nos torna humanos e ao qual podemos ou não ceder, embora nem sempre seja tão opcional, quanto visceral.
É esse apetite pela destruição, assim lhe chamaram os Guns’n’Roses em 1987 inspirados pela arte de Robert Williams, que conduz o funerário Albano Vespa ao longo de Pudesse ser noite a vida inteira, livro de estreia de Laura Vasques de Sousa.
A densidade dos cenários e da vida interior dos personagens contrasta brutalmente com o minimalismo dos diálogos, esparsos, como se nada houvesse para dizer além do mínimo, com palavras dos diálogos a significarem menos que a sua ausência.
Laura esmiúça gestos mínimos, dotando-os de um carácter gigantesco onde cada palavra ganha o peso de um cadáver a ser carregado para a despedida, e a espaços e sub-repticiamente, a autora deixa vislumbrar a sua natureza de bióloga, em alguns termos concretos, estrategicamente colocados como chamada de atenção para a morbilidade do leitor e dos defuntos que desfilam pelo livro.
Mas nem tudo é fúnebre em Pudesse ser noite a vida inteira. Por vezes a provocação erótica dos corpos crus e decadentes colide com a obsessão pela morte, na forma da ruptura da continuidade, confirmando a tese de Bataille.
Ao longo da lenta asfixia em progresso pelo livro, os pensamentos alastram como bolor, acompanhando a fragilidade existente sob a insistente decadência nas características físicas definidoras das personagens, onde a recusa da autora em circunscrever a história no espaço-tempo contribui para o continuum de opressão e desnorte.
O descontrolo que daí brota, está intimamente alicerçado numa institucionalização do pensamento misógino, acentuado pela recusa ou desinteresse da figura masculina, aqui caricaturado com um físico tão grotesco como os seus instintos mais bestiais, não distantes do prazer sádico no falhanço como legado neoliberal ampliado pelo sensacionalismo.
A permanente ameaça de ruína na narrativa, evidente na falibilidade dos corpos, quase reduzidos à sua dimensão assimétrica emissora de fluídos, detalhados por uma escrita bisturi, a escalpelizar cada microexistência como a uma natureza morta, torna-a o seu carácter definidor e definitivo, numa estética deste lado do neorrealismo, devedora e honradora dessa herança, tanto como a dos clássicos.
Tudo isto empurra para uma paranoia autoalimentada pelo húmus do malogro, encarnada em partes do corpo como o espaço entre os glúteos, cuja descrição se lê como quem assiste a uma panorâmica do cinema clássico com algo de Agustina, algo de Ronquentim em a Náusea de Sartre e um certo je ne sais quois Poe, coroado por um gato apelidado como cabrão.
O resultado é uma leitura olfactiva, plena de humor mórbido, aliado a uma vaga sensação de nojo, numa ecografia pelos vales interiores do protagonista numa solitária orgia no fundo do poço.
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«Pudesse ser noite a vida inteira»
Laura Vasques de Sousa
Traça edições
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Hugo Filipe Lopes (Cobramor)
Autor. Tradutor. Editor.
Antitudo.
Copy criativo. Sociólogo.
O necessário para um precário
Declaração de interesse: o autor deste texto é também o editor do livro