O documentário «Clandestina» de Maria Mire, que recorda o trabalho de resistência à ditadura da artista Margarida Tengarrinha, venceu os prémios «A Voz das Mulheres» e de melhor filme português do festival Porto Femme – Festival Internacional de Cinema.
«Clandestina», de Maria Mire, tem como ponto de partida a obra «Memórias de Uma Falsificadora – A Luta na Clandestinidade pela Liberdade em Portugal», da professora e ilustradora Margarida Tengarrinha (1928-2023) que durante a ditadura falsificou documentos de opositores perseguidos.
«O interesse na realização deste filme prende-se tanto com a urgência de tirar da sombra a ação das mulheres que de modo revolucionário combateram neste período negro da história contemporânea portuguesa, como o de pensar na dimensão política presente nos pequenos gestos da vida quotidiana», segundo a realizadora, citada na apresentação da obra.
O prémio «A Voz das Mulheres», para «vozes que recusam o silêncio», distingue o melhor filme português que aborde a importância «da palavra na denúncia da situação de discriminação, nas várias dimensões da vida».
A competição nacional distinguiu ainda «Cura 1», de Joana Peralta, como melhor filme experimental, «Sopa Fria», de Marta Monteiro, como melhor filme de animação, «As Melusinas à Margem do Rio», de Melanie Pereira, como melhor documentário, e «Entre a Luz e o Nada», de Joana de Sousa, como melhor obra de ficção.
Na competição internacional, o prémio de melhor documentário foi para «Prague’s Girl», de Andree Lucini, de Itália, o de melhor animação para a produção francesa «Green grass», de Eli Augarten, e o de melhor filme experimental para «The Altar», de Moe Myat May Zarchi, de Myanmar.
Na área de ficção foram distinguidos «Uli», de Mariana Gil Ríos, da Colômbia, como melhor curta-metragem, e «Woodland», de Elisabeth Scharang, da Áustria, como melhor longa-metragem.
O prémio de melhor filme pelas Lutas e Direitos das Mulheres foi para «Bald Women», de Sandra Román, de Espanha.
A associação cultural It Gets Better Portugal recebeu o prémio Sororidade, pelo trabalho global de apoio a jovens gays, lésbicas, bissexuais, trans e intersexo.
O festival internacional de cinema Porto Femme, que se define como mostra do «melhor cinema produzido por mulheres e pessoas não binárias», dedicou este ano a programação às mulheres e à revolução, porque para algumas delas «o 25 de Abril demorou a chegar».
Extra-competição, exibiu filmes como «Revolução» (1975), de Ana Hatherly, «O aborto não é um crime» (1976), de Mónica Rutler e Fernando Matos Silva, «Beirute: Olho da tempestade» (2021), de Mai Masri, e «Sagargur» (2024), de Natasa Nelevic.
Na abertura, foi homenageada a cineasta portuguesa Margarida Cardoso, que dirigiu filmes como «Natal 71», «A costa dos murmúrios» e «Yvone Kane».
A curta-metragem «Pelo Sim Pelo Não», de Laura Andrade, que retrata a experiência feminina a partir das conversas de um grupo de amigas, recebeu o Prémio do Festival, que iniciou a sua sétima edição no passado dia 16, mobilizou cerca de três mil pessoas, em cinco espaços do Porto, e encerrou na noite de domingo.
A competição oficial do Porto Femme contou este ano com 122 filmes de 38 países.
A lista integral de prémios está disponível nas redes sociais do festival.