Enfermeira algarvia na linha da frente contra o suicídio

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Carolina Marques, 45 anos, enfermeira do serviço de Pedopsiquiatria da unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), é voluntária, desde abril, numa linha de prevenção nacional, lançada pelo Núcleo de Estudos do Suicídio (NES). Objetivo é salvar vidas.

O vírus da COVID-19 ataca a saúde física e, sobretudo, tem provocado um aumento significativo e generalizado do sofrimento psicológico de muitas pessoas, de todas as faixas etárias e extratos sociais.

Por isso, em abril, durante o confinamento e em pleno estado de Emergência, o Núcleo de Estudos do Suicídio (NES), do Hospital de Santa Maria, lançou uma resposta especializada para todo o país.

Uma resposta específica para quem se sente triste, com pensamentos negativos ou ideias de morte.

Carolina Marques, enfermeira algarvia que está na linha da frente, considera que a altura excecional que vivemos exige ultrapassar o tabu social que tem remetido esta problemática para o silêncio.

«A maior parte das pessoas, até os profissionais de saúde, abordam o tema com receio. Mas este trabalho de prevenção do suicídio não pode ser feito com medo. Tem de ser feito de uma forma realista. Quando se aborda alguém, temos de perguntar com clareza, se tem pensamentos de morte, se tem ideação ou plano suicida. São coisas diferentes, mas é assim que se avalia a gravidade da situação. Se estivermos com rodeios, o que acontece é que a pessoa não se sente compreendida», começa por explicar ao barlavento Carolina Marques, enfermeira especialista em saúde mental.

«A verdade é que o tema suicídio, se até aqui não era falado, hoje está nas redes sociais, em todo o lado. A ideia já está interiorizada nos jovens, nos adultos, até nos mais pequenos. Temos de perguntar: já pensaste em morrer? E se sim, já pensaste como? É duro, mas tem de ser. Tem de ser criada empatia, para que o outro diga o que realmente sente», explica.

«É como nas automutilações. Quem o faz está dentro do contexto de risco, mas não quer dizer que irá cometer suicídio, embora seja um fator de risco. As automutilaçoes têm a ver com uma grande dor emocional que a pessoa sente e que é aliviada pela dor física. Quando se avalia alguém, temos de perceber se há antecedentes dessas práticas de agressão ao próprio corpo, porque é provável que continue. Se abordarmos a questão com rodeios, não conseguimos avaliar, nem fazer uma intervenção», acrescenta.

Carolina Marques trabalha na equipa de Pedopsiquiatria da unidade de Faro do Centro Hospitalar e Universitário do Algarve (CHUA), que durante alguns anos, contou com a colaboração da psicóloga Patrícia Romão, uma das maiores especialistas na problemática do suicídio.

«Foi a pessoa que me fez interessar. Durante a crise da COVID-19, com o isolamento e a saúde mental das pessoas a agravar-se, as situações a piorar, o acesso à ajuda nos centros de saúde limitado, a Drª Patrícia Romão perguntou-me se eu queria participar» no projeto do NES, associação científica sem fins lucrativos e com estatuto de utilidade pública já com 33 anos de existência.

A linha conta com profissionais de norte a sul de Portugal. Carolina Marques é, neste momento, a única enfermeira do Algarve envolvida, devido à sua experiência profissional e formação. Mas qualquer pessoa no país que precise de ajuda, basta enviar um email ([email protected]).

«Todos os meses é feita uma escala que divide o trabalho pela equipa do projeto. Todos os dias somos três a quatro pessoas em alerta, divididas por localização geográfica, de forma a se fazerem os encaminhamentos», explica. E todos os emails têm resposta, e se o remetente concordar, será, de seguida, contactado por telefone.

A enfermeira reconhece que «há de facto algumas situações graves», e se não surgem mais pedidos de ajuda é talvez porque esta linha de apoio ainda não está muito divulgada.

As folgas do seu trabalho são sacrificadas em prol deste projeto. É voluntariado, mas também altruísmo. Chega a ficar de alerta duas vezes por semana, das 9 às 21 horas, colocando a família em segundo plano.

«O que desgasta é o sofrimento do outro. Mas este é um trabalho que salva vidas. E numa altura com esta, acredito que tem de haver uma sensibilidade», remata.

Profissionais estão preocupados

A enfermeira Carolina Marques refere que há eventos de vida dolorosos que podem ser precipitantes do suicídio, como a perda de saúde, roturas afetivas, desemprego, entre outros, levando aos sentimentos de desesperança. Nunca há apenas um motivo isolado, mas sim um conjunto de situações na vida de cada um que a determinada altura poderá levar ao desejo de morrer.

«Momentos de angústia, temos todos nós. O problema é quando chega a desesperança, que é a falta de esperança num dia melhor».

Por vezes, o sistema também pode falhar na deteção. «Imagine alguém que tomou comprimidos a mais. Se não for bem esclarecida a causa da ida à urgência e depois tiver alta, se calhar, nós que trabalhamos esta problemática nunca chegamos a saber o que aconteceu. Assim, essa pessoa fica em risco, pois não terá acompanhamento» adequado.

Também nem sempre quem tenta quer mesmo pôr termo à vida. «Recordo o caso recente de uma senhora que se divorciou. Tinha vontade de morrer e fez uma intoxicação medicamentosa. Será que queria mesmo morrer? Não queria. Foi um ato de desespero. É preciso falar e escutar muito as pessoas para se perceber. Às vezes, só precisam de atenção. As mulheres têm muito este registo. Há uma diferença entre géneros. Tanto que os métodos escolhidos, estatisticamente, são diferentes. Os homens escolhem sobretudo métodos mais letais», distingue.

Por outro lado, a enfermeira não esconde que os profissionais de saúde estão muito preocupados, até porque os casos de ideação suicida estão a aumentar, sobretudo nas novas gerações.

«Há quatro ou cinco anos tivemos na Pedopsiquiatria uma adolescente que tentou o suicídio. Se tivesse ido para casa, haveria fortes probabilidades de voltar a tentar. Concordámos um internamento e fez psicoterapia. Há cerca de três semanas, veio parar outra vez à urgência, já adulta e reconheceu-me».

Na verdade, «em termos oficiais, ela já não me pertence, enquanto doente, mas dei-lhe o meu email e temos trocado mensagens. Basta dizer olá e as pessoas sentem-se um pouco mais agarradas à vida. Ela diz-me: ontem não tive bons pensamentos, mas é tão bom perceber que você gosta de mim. Ou seja, bastam estas pequenas coisas» para apaziguar a grande carência afetiva que existe sobretudo neste momento.

«Também há miúdos querem afastar a dor, querem desaparecer. Na infância ainda não há maturidade para perceber o que de facto é morrer, mas na adolescência já o sabem», esclarece.

«Todos temos um pouco de culpa»

Falando em contexto de vida pessoal, também esta profissional de saúde já perdeu um amigo querido. «Ainda hoje me pergunto como é que eu não consegui perceber que ele ia morrer? Lembro-me de o ver com uma depressão, já mais para o psicótico. Certo domingo tivemos entre amigos. Ele despediu-se de algumas pessoas. Eu tive de sair mais cedo. Ainda hoje pergunto-me porque não se despediu de mim, porque eu teria percebido. Como é que não fez luz a alguém que ele estava efetivamente a despedir-se?», recorda.

Mais uma vez, é uma questão cultural, mas também religiosa. «Ninguém quer falar sobre a morte. Toda a circunstância é dolorosa, não gostamos de pensar na tristeza. Há confissões religiosas que não vêm a discussão do tema com bons olhos, porque num suicídio ninguém vai para o céu. Isto mexe com as nossas ressonâncias. É algo que nos assusta. Quando alguém se suicida fica um aberto. As questões ficam por responder. É uma falha da sociedade, porque todos reconhecemos que também temos alguma culpa».

A pandemia é apenas mais uma crise. O quotidiano moderno também não ajuda. «Os miúdos vão com poucos meses para o infantário, passam pouco tempo de qualidade com os pais, não é feita uma boa vinculação. Antes havia famílias alargadas, em que os avós estavam presentes. Hoje as crianças vão crescendo num vazio enorme e na correria dos dias».

Trabalho de retaguarda ajuda famílias

Num dia de trabalho normal no serviço de Pedopsiquiatria do Hospital de Faro, neste contexto da pandemia, a enfermeira Carolina Marques acompanha vários casos à distância.

«Apenas uma minoria tem apoio. Imagine o que é uma criança hiperativa fechada num apartamento. Tem que haver uma contenção de toda a família. Havendo este trabalho de monitorização direta e de acompanhamento, são dadas às famílias estratégias de adaptação à crise, facilitando a sua adaptação e evitando descompensações das patologias e consequentes idas à urgência. Agora, também é verdade que a pedopsiquiatria não tem uma retaguarda de crise numa situação grave. As crianças que precisam de internamento vão para o Hospital de D. Estefânia, em Lisboa. Precisavam de um internamento no Algarve», considera.

E mais. «Em termos de consulta, há apenas um pedopsiquiatra para toda a região. É muito pouco. Como é que as crianças de Aljezur ou de Silves conseguem vir a Faro fazer uma psicoterapia semanal? É muito difícil ou impossível». Ainda em relação à linha de apoio do NES, a voluntária sublinha que daquele lado estão «pessoas que se envolvem e que gostam de dar e cuidar dos outros».

Como pedir ajuda?

Como é que se motiva alguém a dar um sinal de alarme se já está com ideias suicidas? «Há sintomas e todos temos de estar atentos. Por exemplo, alterações de sono e alimentação. O isolamento, consumo de drogas ou álcool. Nos jovens vai havendo um desinvestimento na escola, nas rotinas», explica a enfermeira Carolina Marques, voluntária num projeto nacional de prevenção do suicídio.

A linha do NES está disponível para todas as idades. Até pode ser um um terceiro a contactar. «Sim, já aconteceu. Pode ser um pai, um vizinho, um amigo. Como é que ajudamos as pessoas? Se tiver ou conhecer pessoas com determinados sintomas como por exemplo depressão ou desesperança, sentimento de inutilidade ou pensamentos relacionados com suicídio ou morte» deve contactar, sem hesitar, por email ([email protected]).