Ciência Viva de Lagos capacita tripulantes da marítimo-turística BlueFleet para explicar as pegadas de dinossauros e história geológica ao longo da costa.
O Centro Ciência Viva de Lagos (CCVL) anunciou hoje, em nota enviada às redações, o lançamento de um programa de formação em geologia e paleontologia destinado aos tripulantes de embarcações turísticas que operam na costa entre Lagos e Salema.
A iniciativa, desenvolvida em parceria com a empresa BlueFleet, abrange profissionais que contactam com cerca de 30 mil turistas por ano. O objetivo é dotá-los de conhecimentos científicos rigorosos sobre o património geológico que atravessam nos seus percursos.
A formação decorre durante três dias. Nos dias 25 e 26 de fevereiro realizam-se as sessões teóricas em sala. Na sexta-feira, dia 27, terá lugar a componente prática a bordo, ao longo do trajeto costeiro entre Lagos e Salema.
Com a duração total de seis horas, o programa transforma o percurso entre a Ponta da Piedade, formada no Miocénico há cerca de 20 milhões de anos, e a Praia da Salema, onde existem pegadas de dinossauros do Cretácico Inferior com cerca de 125 milhões de anos, numa viagem por aproximadamente 100 milhões de anos da história da Terra.
Uma costa de relevância internacional
A costa do Barlavento algarvio concentra, entre Lagos e Sagres, um património geológico e paleontológico de relevância internacional. As jazidas de pegadas de dinossauros da Praia da Salema e da Praia Santa, atribuídas a ornitópodes e datadas do Cretácico Inferior (cerca de 125 milhões de anos), estão entre as mais importantes da Península Ibérica, segundo a informação divulgada pelo CCVL.
A Ponta da Piedade, com os seus calcários biodetríticos do Miocénico (cerca de 20 milhões de anos) e elevada diversidade de fósseis, é um dos geomonumentos mais visitados do país.
Segundo os promotores da iniciativa, a maioria dos visitantes desconhece a história geológica destas paisagens. Ou seja, milhares de turistas percorrem esta faixa costeira de barco sem enquadramento sobre o tempo profundo que moldou as formações rochosas.
Do Miocénico ao Cretácico
O programa foi concebido e é ministrado por Luís Azevedo Rodrigues, diretor executivo do CCVL e doutorado em Paleobiologia de Dinossauros.
Na componente em sala, os formandos aprendem a interpretar uma falésia, exploram a escala do tempo geológico através de analogias e analisam paleomapas que ilustram as transformações da geografia do Algarve ao longo de 150 milhões de anos. A sessão termina com um briefing detalhado do percurso marítimo.
Na sessão prática, o trajeto costeiro converte-se numa leitura cronológica da paisagem. A partir da Ponta da Piedade, formada há cerca de 20 milhões de anos, a navegação para oeste corresponde a um recuo progressivo no tempo até ao Cretácico Inferior, há cerca de 125 milhões de anos, nas praias da Salema e Santa. Em cada ponto, o formador enquadra os afloramentos com recurso a paleomapas e modelos tridimensionais (3D) das pegadas de dinossauros.

Projetos europeus aplicados ao turismo
A iniciativa aplica resultados de dois projetos financiados por fundos europeus.
O projeto SciTour (ALG-01-0145-FEDER-072585), financiado pelo CRESC Algarve 2020 através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), foi liderado pelo CCVL em parceria com a Universidade do Algarve (UAlg), através do Centro de Investigação em Turismo, Sustentabilidade e Bem-Estar (CinTurs), da Universidade do Algarve.
O SciTour desenvolveu o património natural e cultural do Barlavento como produto de turismo científico, nas áreas da Geologia, Paleontologia, Arqueologia e Biodiversidade Marinha, identificando os recursos geológicos da costa Lagos–Sagres como ativos com potencial para diversificar a oferta turística e reduzir a sazonalidade.
O projeto PaNReD – Património Natural transformado em Recursos Didáticos Digitais, financiado pelo CRESC Algarve 2020 através do Fundo Social Europeu (FSE), produziu 10 recursos digitais com 36 temas dedicados ao património natural algarvio para ensino e formação profissional. Entre eles incluem-se conteúdos sobre a geologia costeira do Barlavento, como o vídeo «As Cores da Praia da Luz» e materiais sobre a Ponta da Piedade e a Praia da Salema, integrados na formação agora lançada.
Ambos os projetos contaram com a parceria da UAlg e com o envolvimento dos municípios de Lagos, Vila do Bispo, Aljezur e Monchique.
Impacto esperado
Segundo o CCVL, a formação dos tripulantes da BlueFleet terá efeito multiplicador. Cada profissional formado contacta com milhares de turistas por época, passando a integrar informação científica na narrativa dos passeios.
A iniciativa inscreve-se na valorização do geoturismo e do turismo científico como instrumentos de desenvolvimento sustentável e, segundo o CCVL, posiciona o Algarve como pioneiro em Portugal na formação geológica aplicada ao turismo náutico.
«Esta costa é um livro aberto de 150 milhões de anos de história da Terra. As falésias que os turistas admiram guardam pegadas de dinossauros, fósseis de mares tropicais e vestígios de tsunamis. Ao formarmos os tripulantes que navegam nestas águas todos os dias, criamos uma rede de comunicadores de ciência que vai muito além das paredes de um museu. É a ciência a ir ao encontro das pessoas, no sítio onde a história aconteceu», afirma Luís Azevedo Rodrigues.
A BlueFleet sublinha a importância de valorizar o património natural nos seus passeios, a diferenciação pelo conhecimento e a aposta na formação dos tripulantes como investimento na qualidade e na sustentabilidade.
Inaugurado em 2009, o CCVL integra a Rede Nacional de Centros Ciência Viva. A BlueFleet foi fundada há 20 anos em Lagos, opera 12 embarcações e emprega 18 profissionais.