As palavras Tiranossauro Rex ou Velociraptor estimulam a imaginação. Como seria a vida no planeta na era destas criaturas? Apesar de extintos há milhões de anos, os dinossauros continuam presentes no nosso imaginário e os seus vestígios estão bem mais visíveis e perto do que imagina.
No Algarve, ainda é possível admirar marcas deixadas por dinossauros herbívoros e carnívoros. Existem dezenas de pegadas espalhadas pelas praias da Salema e Praia Santa, no concelho de Vila do Bispo.
As primeiras foram encontradas na praia da Salema há 20 anos, mas ainda permanecem desconhecidas para muitos algarvios. E não há razão para tal, pois é possível descobri-las na companhia de um paleontólogo experiente.
Luís Azevedo Rodrigues, 44 anos, é diretor do Centro Ciência Viva de Lagos (CCVL) desde 2012. Doutorou-se em paleontologia de vertebrados e tem desenvolvido trabalho de investigação em paleontologia de dinossauros por todo o mundo. Trabalhou no Museu Nacional de História Natural e da Ciência (Universidade de Lisboa), no Museu de História Natural de Nova Iorque e é, atualmente, o responsável pelas saídas de campo que este centro promove.
Nas visitas guiadas do CCVL, é feito o enquadramento geológico e a caracterização paleontológica. Duram cerca de hora e meia, e têm um nível de acessibilidade médio-fácil e um custo de dez euros.
Contudo, se preferir tentar descobri-las por contra própria, o desafio poderá ser mais difícil. Comece por seguir até à praia da Salema onde poderá admirar as rochas do Cretácico Inferior: «têm cerca de 120 milhões de anos», segundo o paleontólogo. «São calcários e margosas, rochas depositadas em profundidade no mar, em águas quentes, ou pântanos», segundo as explicações de Luís Azevedo Rodrigues. Aqui existem duas jazidas de pegadas: a este encontrará pegadas de dinossauros bípedes carnívoros e, a poucos metros de distância, a oeste, um trilho deixado por um animal bípede herbívoro.
Na laje situada a este é possível identificar sete pegadas tridáctilas (três dedos), com dedos finos e com garras, atribuíveis a terópodes. Por aqui passaram, pelo menos, três indivíduos.
Infelizmente, a jazida está sujeita à ação da força das marés que retiram ou repõem a areia ficando por vezes, inacessível. Azevedo admite que «no espaço de uma década e devido à sua localização, assisti a uma erosão quase completa destas pegadas. Já não estão em muito bom estado», mas ainda é possível apreciá–las e talvez tirar um registo fotográfico, antes que desapareçam de vez.
A oeste encontrará uma laje horizontal na areia junto à falésia, logo após um vão de escadas que liga a falésia ao areal, com uma pista formada por oito pegadas alinhadas, e algo desgastadas devido à constante erosão do mar. «Reconhecem-se marcas com cerca de 50 centímetros, três dedos largos e curtos, com terminações arredondadas, em forma de «U», e com a ausência de garras nos pés», descreve. A pista é atribuível a um ornitópode, um herbívoro com 2,2 metros do solo até à anca que estaria a deslocar-se a uma velocidade de cerca de 2km/h.
«Através do tamanho da pegada, e multiplicando-a por quatro, é possível descobrir a altura do animal e calcular a velocidade de locomoção», explica. Perante as atuais condições de preservação, talvez seja possível observá-las apenas durante mais uma década, até serem totalmente consumidas pela erosão.
O acesso às pegadas na praia Santa é bastante mais difícil e sinuoso. E atenção que provavelmente não conseguirá descobrir estas pegadas sem o acompanhamento de um guia. Mas, neste caso, Azevedo considera que o estado de preservação destas pegadas é fantástico e vale bem a aventura: «notam-se perfeitamente as almofadas das patas.
O animal que as deixou é semelhante ao da jazida oeste da praia da Salema, mas bastante maior». Trata-se de um ornitópode, um bípede herbívoro. A boa preservação neste local pode dever-se a diversos fatores, como a ligeira diferença de composição de sedimentos e o facto de as camadas «terem saído» há menos tempo, comparativamente às outras…
Descobertas em Portugal e no Algarve
Os dinossauros surgiram há cerca de 235 milhões de anos. Foram a forma de vida dominante na terra por mais de 150 milhões de anos. Distinguem-se em bípedes carnívoros (terópodes), quadrúpedes herbívoros (saurópodes) e bípedes herbívoros (ornitópodes) e as suas pegadas são conhecidas em várias jazidas de Portugal. Recentemente, foi encontrada no concelho de Loulé uma nova espécie de salamandra gigante (Metopossaurus Algarvensis). Este município celebrou na semana passada um protocolo de cooperação científica que visa apoiar a continuidade da investigação, através do apoio às escavações e bolsas de estudo.
Guias à distância de um telefonema
É possível agendar uma visita guiada às pegadas de Vila do Bispo na companhia do Centro de Ciência Viva de Lagos. Para marcações e informações basta contactar pelo telefone 282 770 000 ou escrever para o e-mail [email protected]