Há um sobreiro postiço pendurado sobre o palco com a copa invertida. É uma espécie de espada de dâmocles transfigurada que reverte para um Alentejo latifundiário e reprimido, e também para os moldes da tragédia grega que inspiram a 71ª produção da ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve.
«Era um projeto antigo que há muito tempo me ocupava o pensamento. Tem como ponto de partida um poema de Sophia de Mello Breyner», explica Luís Vicente, ator, diretor artístico e encenador da peça que pretende «fazer uma reflexão sobre a justiça, na perspetiva da polis grega».
«O texto não segue exatamente a estrutura tal como foi definida por Sófocles, mas segue as grandes linhas dessa feição. É um espetáculo sobre esta heroína, numa perspetiva que a afastasse da questão política pura e dura. Penso que foi nessa perspetiva que a Sophia» compôs o poema.
«Não vamos questionar a legitimidade ou a ilegitimidade da associação da Catarina Eufémia ao Partido Comunista Português. Não é isso que está em causa. Não sendo esse o nosso caminho, não podemos ignorar, contudo, que na vida coletiva do Alentejo nesta época, era impossível alguém não ser contaminado pelo ideário comunista», reconhece Luís Vicente.
E se está «subjacente a questão da luta de classes», na peça sobressai «a diferença de proventos do trabalho. A jorna era paga às mulheres em valor inferior à dos homens, o que ainda acontece hoje. Há aqui um conjunto de temas que são transversais e que existem também no nosso tempo, como a condição da mulher, a emancipação e o olhar sobre si própria».
A 2 de outubro começaram os ensaios parcelares e nas últimas duas semanas, em conjunto. Pela segunda vez na história da ACTA, a plateia do Teatro Lethes foi removida na totalidade para dar espaço a Fiona, uma meiga e inteligente égua de seis anos, que contracenará com o elenco humano (24 elementos). É cedida pelo Centro Hípico Equinostrum, e tem vindo a ser treinada em picadeiro pelo ator Miguel Martins Pessoa.
O texto de «Catarina» é um poema dramático encomendado a Jacinto Lucas Pires. Dar-lhe vida, segundo Luís Vicente, tem sido «uma descoberta em conjunto. Eu, enquanto encenador e dramaturgo estabeleço o osso, e os atores têm de o preencher com os músculos e os tendões», compara.
O papel principal estava pensado para Sandra Barata Belo, embora não tenha sido possível por questões de agenda. Caberá à atriz Ana Cris, de Braga, dar vida à ceifeira mártir da repressão salazarista. De coturnos (botas) autoritários e máscara soturna, Luís Vicente interpretará o tenente Carrajola.
O espetáculo não se esgota no teatro. A jovem coreografa e bailarina farense Filipa Rodriguez assina apontamentos de dança contemporânea e a música também terá um lugar de destaque, com a participação especial das Moçoilas e do maestro António Alves Pereira. «A ideia que lhes transmiti é começar com o cante alentejano e desconstruí-lo» ao longo da peça.
«Catarina» fica em cena até 4 de dezembro e pode ser vista às quintas-feiras às 15h00, sextas e sábados às 21h30 e aos domingos às 16h00. Tem duração de 90 minutos e é para maiores de 12 anos. Os bilhetes custam 10 euros (7,50 euros para menores de 30 e maiores de 65 anos).
Jovens desconhecem a História
«Eu preservo documentos para uma época que já não os irá entender. Ou para quem este tempo é tão longínquo que vai dizer que eu era um falsário». Luís Vicente cita as palavras de Karl Kraus, o alemão que encenou uma humanidade cúmplice do seu próprio extermínio, para justificar quer a escolha do tema da peça, quer o autor do texto. «Gosto da forma como o Jacinto Lucas Pires aborda a escrita, a linguagem um bocado crua que utiliza. Depois, é um autor da geração pós 25 de Abril. Algumas das pessoas que estão aqui a trabalhar neste projeto, nunca tinham ouvido falar em Catarina Eufémia», explicou, referindo-se aos jovens da Escola Secundária Tomás Cabreira que fazem parte do elenco. O que não deixa de ser estranho, pois, além de ser «uma figura emblemática da resistência ao Salazarismo», «julgo ser o nome mais presente em ruas, becos, praças e jardins» por todo o país.
Povo de «má indole» e «ideias subversivas»
A morte de Catarina Eufémia consta de um relatório escrito pelo comandante do posto da GNR de Baleizão, datado de 1 de novembro de 1960. O documento classifica o povo daquela vila alentejana de «má indole» e com «ideias subversivas bastante avançadas», desresponsabilizando o tenente João Tomás Carrajola pelo homicídio. A versão da GNR sobre o que aconteceu a 19 de maio de 1954, lembra que «um rancho de ceifeiras, instigadas por agentes comunistas, dirigiram-se à herdade do Olival, a fim de, por meio de ameaças, obrigarem um outro rancho também de ceifeiras, que se encontravam trabalhando naquela propriedade, a abandonarem o trabalho, para exigirem salários exagerados e estabelecerem a confusão». «Durante estes tumultos um grupo de mulheres, do qual fazia parte Catarina Eufémia, com termos ameaçadores, dirigiu-se ao comandante da força», e quando este «tentou persuadir as amotinadas a dispersarem, devido ao automatismo da arma, esta disparou-se sem qualquer interferência do dito oficial». Catarina Eufémia morreu assassinada a sangue frio aos 26 anos de idade.
