José Moças, 64 anos, casado, dois filhos, dois netos, é um portimonense que não nasceu, nem vive, em Portimão, mas que considera esta a sua cidade de referência. Vejamos porquê: «nasci em Estremoz, mas vim para Portimão com 9 anos e aqui vivi o melhor da minha infância e adolescência. Embora tenha ido para Lisboa aos 18 anos, continuei a vir cá com regularidade, pois os meus progenitores fixaram-se aqui. Aliás, o meu pai ainda vive em Portimão», justifica.
José (Zé) Moças queria ser arqueólogo, mas o pai achou que ninguém conseguia retirar o sustento de tal atividade e não o deixou. Acabou por ir para Lisboa, trabalhou no Conselho Superior Judiciário, hoje Conselho Superior de Magistratura, mas nunca acabou qualquer curso, embora tivesse saltitado de Faculdade em Faculdade. «Fiz parte do Coro da Juventude e essa experiência, em conjunto com a minha transferência para Macau, acabou por marcar a minha vida futura», explica.
A ida para Macau aconteceu em 1986 e por lá ficou 11 anos, tendo sido secretário do Ministério Público e locutor, como hobby, na Rádio Macau. «Em 1990 surgiu uma oportunidade de pedir a reforma antecipada, por causa da passagem do território para a China. Reformei-me, embora com uma reforma reduzida, e entrei na Rádio Macau a tempo inteiro, com o mesmo salário que tinha no tribunal. Em 1992, criei a editora Tradisom, que comemorará as bodas de prata em 2017».
Em 1996, António Espanha, presidente da Comissão dos Descobrimentos, desafiou-o para viajar até Lisboa para colocar de pé um projeto antigo: «Viagens dos Sons», 12 discos que representam um valiosíssimo conjunto de gravações realizadas em Goa, Damão, Diu, Cochim, Korlai (India), Sri lanka, Malaca, Sumatra, Macau, Timor Leste, Moçambique, São Tomé, Cabo Verde e Brasil.
«É um trabalho científico de enorme valor cultural, talvez o mais importante que fiz. Curiosamente, vendi mais coleções para bibliotecas dos Estados Unidos da América do que vendi em Portugal. O engraçado é que vim apenas para fazer este trabalho e acabei por ficar por cá». Atualmente, Moças vive em Vila Verde, Braga.
A maioria dos seus trabalhos é de pesquisa de obras antigas. Porquê? «Queria ser arqueólogo. Tenho o bichinho da procura, da descoberta por curiosidade». Apesar de não ser do conhecimento público, este editor e apaixonado pela música portuguesa deu um valioso contributo para a candidatura do fado a património da humanidade.
«Tenho essa consciência, embora ninguém tenha reconhecido isso. Não estou cá para medalhas, quero é que as coisas aconteçam. Contudo, a minha descoberta dos arquivos de fado de Bruce Bastin, em discos de 78 rotações, em Inglaterra, foi muito importante, porque em Portugal ninguém ligava a essas gravações. Nem se sabia quando tinham começado. O próprio Museu da Guitarra e do Fado datava as primeiras gravações de 1904, mas descobri muita coisa gravada em 1902 e até algumas de 1900. Neste ano, a base de dados contém espaço para 82 peças, embora só se conheçam 67. São essencialmente de fado, gravado no Porto por atores e atrizes, pois ainda não havia a profissão de fadista. Duarte Silva, de quem pouco se conhece, gravou cerca de 800 faixas, em duas décadas. Tenho a maior coleção de 78 rotações no país e uma rede de angariadores. Compro tudo, até repetições ou discos partidos. Mas tenho alguns que nunca foram tocados e estão como novos – até as etiquetas».
No dia 8 de setembro, José Moças estará em Portimão, na Casa Manuel Teixeira Gomes, a apresentar a sua última edição, «Povo que ainda canta», gravações feitas por Tiago Pereira, que deram uma série de 28 episódios na RTP2 e na Antena 1, aos sábados. É um excelente livro paginado por Cláudia Faro Santos, com oito DVDs, que contêm toda a série e mais um cancioneiro (filmagens que não passaram na TV).
São 2000 exemplares, em quatro capas de cores distintas, formando quatro coleções, cada uma numerada de 1 a 500. Serão objeto de venda direta. Haverá novidades em 2017, incluindo uma obra de homenagem a José Afonso, «a minha referência de vida». Quem quiser saber mais sobre o trabalho editorial de José Moças, aconselhamos uma visita à sua página na internet, em www.tradisom.com