Sul do país tem água para dois a três anos, com barragens a 95% da capacidade e possibilidade de recorde nacional nas albufeiras.
O sul do país tem água armazenada suficiente para «dois a três anos», com todas as barragens «literalmente cheias», afirmou hoje o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), admitindo que podem ser batidos recordes nacionais nas albufeiras.
«Não tenho dúvidas de que em dois a três anos, do ponto de vista da quantidade da água, estamos completamente descansados. Temos as barragens literalmente cheias», disse José Pimenta Machado à Lusa, estimando que no final de fevereiro Portugal bata o recorde de água armazenada no país.
«Só não estamos a 100% porque estamos a libertar água», observou.
Segundo o boletim semanal de albufeiras da APA, na segunda-feira, dia 16 de janeiro, Portugal continental tinha 12.610 hectómetros cúbicos de água armazenada, o que corresponde a 95% da capacidade total. A albufeira com menos água, a do Arade, estava a 74%.
Em declarações à agência Lusa, Pimenta Machado salientou que o país passou por uma «situação verdadeiramente excecional», com chuvas persistentes que afetaram «de Bragança a Faro», na sequência das tempestades que atingiram o território nas últimas semanas.
«Foi todo o país. Não me recordo de todas as bacias hidrográficas estarem cheias», afirmou.
O responsável recordou que a realidade a sul é diferente da do norte, mas na sucessão de tempestades a zona que por norma tem menos água foi igualmente atingida.
Como exemplo, apontou a barragem de Monte da Rocha, que «todos os portugueses conhecem por não ter água» e que esta semana esteve a fazer descargas de superfície por estar «completamente cheia».
Na barragem de Monte da Rocha, no concelho de Ourique, no Alentejo, neste século só tinha enchido em 2011, seguindo-se anos de seca. Em fevereiro de 2018 estava com 8% da capacidade e em 2021 chegou aos 29,4%. No ano passado registava 14,5% e em 2024 12,1%.
«A mesma coisa de Campilhas, a mesma coisa das albufeiras do Algarve», disse o presidente da APA, recordando que em 2024 as barragens algarvias tinham água para cinco meses.
Os dados indicam que Campilhas, em Santiago do Cacém, não ultrapassou na última década os 40% (em 2017) e em fevereiro de 2022, em pleno inverno, estava nos 4%.
Na barragem de Santa Clara, no rio Mira, em Odemira, oscilou nos últimos anos entre os 66% e os 33% «e neste momento está cheia».
Na Bravura, no concelho de Lagos, nos últimos dez anos o máximo que atingiu em fevereiro foi 34,1%, em 2022. Há dois anos estava nos 12,5%. Em Castro Marim, a barragem de Odeleite nunca encheu na última década.
Este ano todas as albufeiras estão cheias, o que demonstra «o caráter excecional» que o país atravessou, estando hoje numa situação mais tranquila, com os rios a regressarem aos leitos.
Pimenta Machado admitiu que este período «não foi fácil».
«Do ponto de vista profissional nunca vivi um momento tão difícil», assumiu.
Mesmo no Algarve, foi necessária uma gestão apertada das barragens do Arade e do Funcho, na bacia do Arade. «Desde 2018 que me recorde o Arade não tinha água. Pois o Arade teve de descarregar vários dias seguidos», observou.
Também o rio Chança, afluente do Guadiana do lado de Espanha, atingiu valores de 1.100 metros cúbicos por segundo.
«Não me recordo de que alguma vez tenha feito descargas para o Guadiana, que chegou a ter caudais na foz na ordem dos 6.000 metros cúbicos por segundo», assinalou.
Pimenta Machado recordou que as tempestades entraram pelo Atlântico, afetaram Portugal e depois seguiram para Espanha, e das bacias espanholas a água voltou para Portugal. A essa situação somou-se a neve que, ao transformar-se em água, escorreu para os rios, especialmente o Mondego e o Zêzere.
«Temos sempre muita dificuldade em perceber qual é o significado do degelo para o caudal do rio», disse, acrescentando que também os incêndios do verão passado tiveram influência, como na serra do Açor, onde a vegetação fragilizada e os solos sem capacidade de retenção agravaram a situação.