Fissura coloca rochedo do Peneco, em Albufeira, em risco de demolição, após o mau tempo que acelerou a erosão na costa algarvia.
O rochedo que dá nome à praia mais emblemática de Albufeira poderá ter de ser demolido. Uma fissura que agrava a instabilidade, a par do avanço da erosão costeira no concelho, levou o presidente da Câmara a pedir uma reunião urgente à Agência Portuguesa do Ambiente (APA).
«Em princípio, será demolido», disse hoje Rui Cristina, aos jornalistas, à margem da apresentação do programa do evento Albufeira Cidade Europeia do Desporto 2026. «Não está ainda decidido, mas há essa indicação da parte técnica. Ali não dá para fazer obra nenhuma», reforçou.
«Há essa grande probabilidade de perdermos», disse, «algo que é emblemático». «Vamos perder o ex-líbris de Albufeira em consequência destas últimas tempestades», previu.
Para esta tarde estava agendada uma reunião por videoconferência entre o município e a APA para uma primeira avaliação técnica.
«Na quarta-feira enviei um e-mail à APA, com conhecimento do Ministério do Ambiente, a dizer que teríamos de reunir forçosamente, em caráter de prioridade, o mais urgente possível», revelou Rui Cristina, «para avaliarmos o quanto antes, tecnicamente, essas arribas. A época balnear está quase a começar. Temos a Páscoa aí à porta», sublinhou.
Nas últimas semanas, «choveu como nunca choveu nos últimos anos. Isso acaba por fragmentar parte das arribas», disse o autarca, engenheiro civil de formação.
A par das chuvas, há um segundo fator, mais estrutural. «Há um desassoreamento brutal das praias», alertou Rui Cristina. Neste caso, a faixa de areia entre o rochedo e o mar está muito mais estreita do que nos anos anteriores. «A praia está muito mais reduzida, vários metros».
O problema é que «se houver menos areia no verão, as pessoas vão-se aproximar das arribas», advertiu. «Não vão respeitar a distância de segurança. Sabemos o que é que acontece», lamentou.
A (má) memória de Maria Luísa
A 19 de agosto de 2009, um leixão de dez metros de altura e seis de diâmetro desmoronou-se na Praia Maria Luísa, numa manhã de verão com a praia apinhada de gente. Cinco pessoas morreram soterradas, quatro delas da mesma família que passava férias no Algarve. Foi o acidente com arribas mais grave registado em Portugal até então. O país acompanhou os trabalhos de salvamento em direto na televisão. Segundo relatórios do Ministério do Ambiente, entre as causas estiveram a degradação dos materiais, as marés vivas e um sismo ocorrido três dias antes.
Rui Cristina não esquece o que acontece e não quer que se repita. «Temos aqui um passado trágico. Não quero que isso volte a acontecer», disse. «A prioridade é proteger quem cá vive e quem nos visita», afirmou.
«Estou muito preocupado com o verão», admitiu.
A zona da Praia Maria Luísa foi mencionada pelo autarca como outro ponto a avaliar com urgência, a par do Peneco. «Há muitos sítios que vão ter de ser intervencionados», reconheceu. «Nós não temos técnicos; temos uma ideia. Os verdadeiros técnicos estão na APA — é a eles que cabe essa responsabilidade» de planear e tomar medidas.
O exemplo do Garrão replicado em Albufeira
Uma das medidas que Rui Cristina quer ver aplicada em Albufeira é a reposição artificial de areia nas praias. A poucos quilómetros, o município de Loulé está prestes a ter em curso uma das maiores operações do género no Algarve. A 10 de janeiro, a ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, assinou o contrato da empreitada de reposição de areia no troço Quarteira-Garrão — 6,7 quilómetros de frente de mar, 1,4 milhões de metros cúbicos de sedimentos e 14,9 milhões de euros de investimento. Uma obra que apesar de ainda não ter arrancado, o governo quer ver concluída antes da época balnear que se aproxima.
«Sabemos que aqui ao lado, em Quarteira, vai haver esse enchimento. Vamos chegar ao verão e, se houver menos areia na praia — que é o que está à vista —, as pessoas vão-se aproximar das arribas», repetiu o autarca.
«Sem dúvida que vou pedir» esse reforço, garantiu. «Por isso é que escrevi o e-mail à APA com conhecimento da Ministra do Ambiente», Maria da Graça Carvalho.
O pedido inclui, disse, as Praias do Peneco e dos Pescadores. «Além da segurança, estamos a falar do cartão de visita e do ex-líbris do nosso concelho».
Derrocadas controladas e reforço da vigilância
Enquanto aguarda os pareceres técnicos da APA — uma das entidades com competência sobre o domínio público marítimo e com a gestão das arribas costeiras —, o município antecipa a necessidade de reforçar as medidas preventivas.
«Reuniremos várias vezes com a APA e tomaremos medidas conjuntas para salvaguardar as pessoas», afirmou Rui Cristina. O autarca albufeirense pediu que a análise técnica seja alargada a outras arribas além do Peneco.
«Há muitos sítios que vão ter de ser intervencionados». A decisão final, sublinhou, pertencerá aos técnicos da APA.
No plano municipal, o autarca comprometeu-se a colocar mais sinalética, campanhas de sensibilização e reforço da vigilância nas praias. «Tudo o que estiver ao alcance do município, nós faremos».
O mandato de Rui Cristina começou logo com uma prova de fogo quando um tornado vindo do mar atingiu o Eden Resort e o Parque de Campismo de Albufeira e provocou mais de 20 feridos e um morto, no dia 15 de novembro de 2025, tal como o barlavento noticou.







