Faro enquanto capital de distrito de uma das cinco regiões plano de Portugal continental tem padecido de falta de visão estratégica. Talvez isso explique o facto do processo de revisão do Plano Diretor Municipal (PDM) – o instrumento, por excelência, de ordenamento territorial à escala concelhia, já que orienta a espacialização da estratégia e supervenientes medidas de política de desenvolvimento socioeconómico e ambiental planeadas para o horizonte de médio-longo prazo – ainda não estar concluído…E talvez não o esteja, porque tal obrigue a um exercício de reflexão aturada sobre a cidade e as suas freguesias limítrofes, baseada em diagnósticos realistas da situação atual, que conduzam ao elencar de medidas tendentes a obviar às fraquezas e ameaças (nas várias dimensões – socioeconómica, ambiental, cultural, etc.) que impendem sobre o concelho, enquanto se projeta um futuro que reforce os pontos fortes do território, da economia regional e das suas gentes, para maximizar o aproveitamento das muitas oportunidades que nos acenam. Resulta óbvio o défice de ideias sobre “onde estamos”, “para onde queremos ir” e “como lá chegamos” enquanto cidade – capital de distrito e concelho.
É claramente insuficiente para um concelho da importância de Faro, o saldo que subjaz destes últimos anos, assente no mero circunstancialismo que advém do crescimento das rotas low cost através do aeroporto de Faro (é paradigmático que paredes meias o Montenegro tão somente tenha “beneficiado” por essa via do caos crescentemente sentido pelos residentes ao nível do estacionamento), as quais têm possibilitado o surgimento de algumas unidades de turismo local / hostéis, a reboque das quais se tem feito a pouca reabilitação do edificado visível no concelho, ou uma política de grandes eventos mediáticos, cuja virtude, efémera pois desacompanhada de outras medidas que tirem partido da alavancagem induzida, é a de apenas «massajar o ego» ou possibilitar um esquecimento momentâneo dos vários problemas e constrangimentos que cronicamente afetam Faro e os farenses.
Desde a crescente degradação dos espaços/vias de comunicação/equipamentos públicos, à falta de investimento na habitação social, na educação e na reabilitação urbana (com as exceções atrás elencadas), passando pelo virar de costas à Ria Formosa, às suas gentes e atividades económicas que aí decorrem, continuando este nosso percurso por uma quase ausência de fertilização do tecido social e económico da cidade e do concelho com novos negócios protagonizados por empreendedores criativos e inovadores oriundos da Universidade do Algarve, pela «dor de alma» que é assistir ao corte-amputação da ligação entre a cidade e a sua fantástica frente ribeirinha e finalizando com o esquecimento a que tem sido votada a requalificação e potenciação dos espaços canal que ligam a cidade e áreas periurbanas às freguesias rurais ou com a inexistência de uma política consistente para o arrendamento habitacional em condições acessíveis, crucial para o rejuvenescimento da cidade, o rol, apresentado por defeito, do que poderia mas não foi feito é extenso para o curto espaço disponível neste artigo…
A partir de 1 de outubro, resulta imprescindível para Faro um desígnio estratégico que passe por: compatibilizar investimento produtivo com a preocupação pela melhoria da qualidade de vida dos munícipes, mantendo simultaneamente finanças públicas equilibradas; uma gestão humanista, de proximidade às pessoas, que dê resposta aos seus anseios e seja proactiva na resolução dos problemas com que se debatem; um projeto de sustentabilidade nas dimensões socioeconómica e ambiental, crucial para reganhar os fatores de competitividade e reforçar a capitalidade.
Opinião de Pedro Valadas Monteiro | Engenheiro Agrónomo e Doutorado em Gestão | Integra como independente a lista do Partido Socialista encabeçada por António Eusébio na eleição para a Câmara Municipal de Faro do próximo dia 1 de outubro.