Alzheimer Portugal abre núcleo do Algarve em Portimão

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Associação Alzheimer Portugal tem como objetivo dar respostas e apoios específicos a pessoas com demência e aos seus cuidadores. Doença está em crescimento a nível mundial.

Os doentes com Alzheimer e os seus cuidadores no Algarve têm, desde terça-feira, dia 1 de setembro, um espaço físico em Portimão para lhes oferecer, em melhores condições, o auxílio de que necessitam e de que já beneficiavam.

Edite Reis e Liliana Ferreira são as duas voluntárias que ao longo dos últimos seis anos, têm desenvolvido essa missão e que conseguiram abrir o novo núcleo, com a cooperação da Associação Alzheimer Portugal e da Câmara Municipal de Portimão.

«A minha avó desenvolveu a doença de Alzheimer, a minha mãe estava reformada e era a cuidadora principal. No início, levou aquilo bem, mas depois começou a ser muito desgastante. Tornou-se muito duro gerir a situação. Durou oito anos. Foi difícil, porque eu estava emigrada em Inglaterra e a minha mãe era filha única. Tinha de me deslocar com frequência a Portugal para lhe dar algumas folgas», recorda Liliana Ferreira ao barlavento, acrescentando que «as famílias acabam por sentir na pele o peso da doença, porque esta afeta não só os doentes, mas todos os familiares ao redor».

Por sua vez, Edite Reis conta-nos o seu caso. «Eu era adolescente, a minha mãe tinha de trabalhar e acabei por ser eu a cuidadora da minha avó. Na altura, já lá vão muitos anos, ainda não se falava na Alzheimer, usando-se, muitas vezes, nomes feios para designar as pessoas que tinham a doença».

«Foi tudo novidade, tanto para os meus pais como para mim, e marcou-me imenso, porque era um desafio permanente para o qual não me sentia preparada. Na altura, comecei a inventar estratégias para a manter em casa, quando ela queria ir embora, para a casa da mãe ou outra coisa do género», recorda.

«Distraía-a com conversas e atividades diversas. A situação exigiu muito de mim. Marcou-me muito e de tal modo que, quando a minha avó faleceu, decidi que toda a minha atividade profissional iria passar por ajudar pessoas a lidar com este tipo de patologia, o que vem acontecendo há mais de 20 anos».

Liliana, após a morte da avó, decidiu criar uma empresa de apoio domiciliário, para ajudar famílias que se encontrassem na situação pela qual a sua tinha passado. Levou um ano a estudar o projeto e, embora seja da zona do Porto, decidiu-se pelo Algarve.

«Nessa altura, precisava de uma pessoa especialista em terceira idade e abri uma candidatura. Depois de muitos currículos recebidos, surgiu a Edite, uma beirã que tem sido o meu braço direito nestas andanças, há nove anos», conta.

Entretanto, as duas aperceberam-se de que há pouco apoio no Algarve para famílias que têm pessoas com demência. Decidiram contactar a Alzheimer Portugal, no sentido de criar um gabinete de apoio, o que aconteceu há seis anos, embora sem um espaço físico próprio.

Têm promovido diversas atividades, não só para portugueses, mas também para estrangeiros residentes.

«A doença está a afetar pessoas cada vez mais jovens, algumas ainda a trabalhar, o que cria problemas maiores. Como os doentes, no início, se apercebem das suas falhas, tendem a isolar-se, o que acaba por piorar a situação», diz Edite Reis.

«Um dos sintomas que ouvimos das pessoas mais jovens é saírem para trabalhar e, depois, esquecerem-se do caminho para casa. Ou sentem-se muito cansadas, sem razão aparente. Os familiares tendem a desvalorizar estes sintomas, mas não devem fazê-lo. Uma consulta a um neurologista ou a um psiquiatra será o caminho a seguir», aconselha.

Segundo ambas, «a doença não é genética. É resultado de uma degeneração cerebral. Faz parte do nosso estilo de vida e da degradação do nosso cérebro. E não é resultado do envelhecimento normal, embora seja mais propício terem a doença a partir de uma certa idade».

Edite Reis conta ainda que «começámos por fazer atendimentos, a maioria por telefone. As pessoas ligam-nos e perguntam-nos, por exemplo, o contacto de um neurologista ou psiquiatra, dependendo da zona do Algarve, uma vez que damos apoio em toda a região. Ou pedem-nos conselhos sobre o que fazer, quando o paciente está mais agitado ou não quer comer».

«São coisas práticas em que podemos ajudar, porque sabemos e fazem parte do nosso trabalho diário. No fundo, partilhamos os nossos conhecimentos com as pessoas que estão a passar por isto e, muitas vezes, se sentem perdidas. Porque o que funciona agora pode não servir dentro de uma hora. Temos de ser criativos e ter uma paciência enorme. Os cuidadores sentem-se, muitas vezes, perdidos e sozinhos».

Liliana e Edite são formadoras e estão bem familiarizadas com os programas da Alzheimer Portugal.

Ao longo destes seis anos, têm ministrado formação aos cuidadores, «em que as pessoas aprendem muitas dicas que conseguem pôr em prática, quando chegam a casa. Dentro da nossa disponibilidade, porque somos voluntárias, já fomos a universidades, centros de dia, instituições particulares de solidariedade social, farmácias, em Portimão e em diversos locais do Algarve. Mas ainda há muito a fazer neste campo. Uma das nossas ambições é prosseguir com as ações de formação».

Até porque «a doença não escolhe nacionalidades e os residentes estrangeiros também têm casos de Alzheimer e necessitam de ajuda, com a agravante da barreira da língua», sublinha Liliana Ferreira, acrescentando que «a diferença é que [os estrangeiros] estão mais alerta para estas situações de donativos e são muito generosos para com associações de saúde ou outras que decidam acarinhar».

E justifica: «há uns anos fomos contactados por um clube de golfe de Silves que foi muito generoso, pois queria apoiar mais estratégias e iniciativas no Algarve. A sua filosofia de vida é muito interessante, pois dizem que escolheram o Algarve para viver. Estavam a usufruir de tudo o que o Algarve tem de bom e, por isso, sentiam que tinha de dar algo em troca. Em dois donativos distintos e muito generosos permitiram-nos, com a ajuda da Câmara Municipal de Portimão, abrir agora este núcleo. Passámos de um gabinete, onde trabalhavam duas pessoas voluntárias, para um núcleo, onde haverá também uma técnica a meio-tempo, dedicada ao Algarve e à causa».

A Alzheimer Portugal tem também um projeto dirigido às crianças, com um livro escrito por uma técnica da associação, intitulado «O elefante Memo», para levar às escolas, «porque cada vez mais há crianças a ter familiares afetados pela doença e devem saber o que fazer.

O comportamento das famílias que afastam as crianças, porque os avós estão a ter um comportamento diferente do normal, não é o mais correto. Deve-se explicar que tipo de doença é, a que o avô está a passar. As crianças são extremamente inteligentes e conseguem compreender, se lhes explicarmos».

Em Portimão, o livro foi sujeito a dramatização e a história apresentada a cerca de 900 crianças, em 2018.

«A recetividade dos mais pequenos foi impressionante, vimos que estavam a absorver e isto é muito importante, pois serão eles os nossos cuidadores, no futuro», conclui.

Toda a quotização de associados com residência no Algarve será usada em atividades na região e quem desejar tornar-se sócio da Alzheimer Portugal, com uma quota anual de 25 euros, poderá fazê-lo online, ou no núcleo, onde também pode obter informações e auxílio.