Já não faltam muitos dias até grande parte das ostras produzidas na Torre d’Aires, lugar paradisíaco à beira da Ria Formosa, seguirem para norte, mesmo a tempo de chegarem a muitas mesas de Natal em França. Este será o ano da verdade para António Mota e Pedro Gois. Amigos desde estudantes, resolveram dedicar-se à ostricultura no final de 2014, devido à falta de trabalho no sector da construção.
«Já nos conhecemos desde a universidade. Terminamos o curso juntos e trabalhamos em conjunto na mesma empresa. Queríamos também abraçar um novo projeto que fosse rentável. A família da minha esposa sempre esteve ligada a esta área e cederam-nos o viveiro. E, por isso, abraçámos este projeto com bons olhos», explica Pedro Gois.
«A nossa produção começa com a chegada dos juvenis, alguns deles adquiridos em maternidades francesas e outros em berçários portugueses. Para ter uma ideia, no início, 1000 ostras têm o peso aproximado de 200 gramas. Quando saem do nosso viveiro, cada unidade pesa entre 65 a 85 gramas (calibre número 3)».

No viveiro «temos quase três milhões de ostras em crescimento» numa área útil de 10700 metros, onde é produzida a chamada ostra japonesa (Crassostrea gigas). «Dentro dessa espécie há muitas variantes. Neste momento temos metade diplóides e metade triplóides. Uma cresce mais rápido e outra mais lentamente. A triplóide, como não desova no verão, não amarga e por isso vende–se bem durante estação estival. A diplóide é melhor no inverno», diferencia.
Segundo o sócio-gerente, «este vai ser o ano normal de comercialização, pois em 2016 houve muita mortalidade. Um vírus atingiu toda a costa e houve viveiros que perderam 100 por cento da produção, como infelizmente já aconteceu na Ria de Alvor», entre Portimão e Lagos, sublinha. Sendo ambos engenheiros eletrotécnicos, começaram «nesta área sem qualquer conhecimento» e tiveram «perdas na ordem dos 70 a 80 por cento. Mas como guerreiros e lutadores que somos não foi isso que nos deitou abaixo. O vírus existe sempre dentro da ostra, já vem encubado. Pode ser, ou não, ativado por vários fatores ambientais, como a temperatura da água. No entanto, esta experiência ensina-nos a não estar dependentes só de uma espécie», admite.
Os sócios consideram introduzir no viveiro, a chamada ostra portuguesa (Crassostrea angulata), muito apreciada, mas que tem vindo a ser substituída pela congénere do Pacífico na ostricultura nacional. «Até já estabelecemos contactos com biólogos da Universidade do Algarve que estão a desenvolver um projeto de maternidade nas Quatro Águas de Tavira».
Até agora, os sócios já investiram mais de 150 mil euros «na aquisição de mesas, sacos, juvenis e equipamentos. Temos até um sistema de videovigilância, devidamente autorizado pela Comissão Nacional de Proteção de Dados, que nos permite controlar dia e noite o que se passa dentro do viveiro. Já nos poupou muitos dissabores e preveniu a entrada de embarcações no espaço. Além disso, há sempre o efeito dissuasor, pois as ostras dos nossos vizinhos estão sempre a ser roubadas», lamenta.
«No início considerámos cultivar mexilhão. Mas uma produção em offshore envolvia um maior investimento com tripulações e embarcações. Aqui estamos a instalar mais 200 estruturas metálicas (mesas) para aumentar a produção já a partir de 2018», detalha.
Juntamente com o sócio António Mota, Gois mete a mão no lodo quase todos os dias. «É um trabalho duro e pesado e por isso é difícil arranjar mão de obra. Tivemos uma experiência com nepalenses que abandonaram os sacos e fugiram. O nosso responsável ligou-me a dizer que deixaram as pás, as ferramentas, e os baldes».
A rotina é «desde as 7 até às 18 horas. Com a maré vazia trazemos os sacos para o apoio. Com a maré cheia não podemos aceder ao viveiro, mas podemos trabalhar na plataforma. Fazemos a triagem das ostras em três tamanhos. Usamos maquinaria no sentido de fazer a calibragem e conseguir separá-las, porque como seres vivos que são, concorrem entre si. Há uma competição pela comida, as maiores não deixam as mais pequenas alimentar-se. No início, em cada saco colocamos entre 2000 a 2500 ostras e quando terminamos o processo, temos 150 a 200 ostras, a produção desdobra quase 10 vezes». Mas há outros aspetos a ter em atenção. «Quando a ostra cresce muito rápido não tem a estrutura e a força necessária para resistir aos invasores, é mais frágil e vulnerável».
«Há quem diga que a ostra destrói os outros mariscos, o que é errado pois é um agente filtrador natural. Onde temos ostra, temos água mais limpa e de melhor qualidade», sublinha.
Para a área que têm, a meta é chegar «às 40 ou 50 toneladas» anuais. Os produtores seguem o modelo francês, no qual as ostras estão suspensas para evitar o contacto com a lama, «de forma a não afetar a qualidade da carne».
A maioria é exportada para França e Espanha. «Seguem para as depuradoras e depois para a grande distribuição. No que toca ao mercado regional, temos em vista um projeto a elaborar para a divulgação» da marca Ostras da Torre, registada no final do ano passado.
Os sócios gostariam de avançar com «quiosques ambulantes» ao estilo street food, para participar em eventos locais como a Feira da Dieta Mediterrânica, em Tavira, entre outros. «No futuro, queremos dar projeção à ostra e ao local. Aliás, a nossa marca é uma homenagem ao monumento aqui em frente ao viveiro».
Modelo de negócio é a exportação em bruto
Questionado sobre outros modelos de negócio, como por exemplo, a marca «Ostras da Culatra» que são vendidas na Makro, Pedro Gois, sócio-gerente da Ostras da Torre, diz que para já, não está no horizonte. «Eu penso que a nós diretamente não nos interessa. Mas não quer dizer que uma outra empresa não possa dar a mão a essa situação. Isso obrigaria a um frota de viaturas de transporte, refrigeradas, à depuração das ostras e teríamos que criar mais postos de trabalho. Não digo que não seria um bom negócio. Mas neste momento temos tudo controlado e estabilizado. A nossa venda é por grosso, chegam a ir cinco toneladas de uma vez quase todas as semanas para França e Espanha». Na região, apenas uma depuradora vizinha na Luz de Tavira, adquire uma pequena parte desta produção.
Marcelo Rebelo de Sousa fã das Ostras da Torre
Logo no primeiro ano de produção, Pedro Gois e António Mota tiveram a ideia de dar a provar as suas ostras a Marcelo Rebelo de Sousa, que não recusou a oferta. Foram até à Quinta do Lago à procura do chefe de segurança pessoal do Presidente da República. «Ele achou a ideia agradável e deixou-nos falar com o Presidente Marcelo que nos explicou como deveríamos fazer a entrega. Nessa mesma noite, ainda recebemos uma visita dos seguranças que vieram buscar as facas próprias para abrir as ostras», que seriam servidas à mesa de Marcelo. «A partir daí estabeleceu-se uma relação, e cada vez que o Presidente está cá, ou tem agenda no Algarve, nós continuamos a levar-lhe ostras», garante Pedro Gois.
Atenção aos interesses estrangeiros
Para Pedro Gois, sócio-gerente da Ostras da Torre, «há uma interajuda na comunidade de viveiristas na região, uma concorrência saudável e um círculo de amizade». «O principal problema que temos no Algarve são os grupos estrangeiros que estão a adquirir os viveiros todos e a ficar com a toda a produção. Diria que se não houver o mínimo de regras e controlo por parte das autoridades, em poucos anos os viveiros estarão todos em mãos estrangeiras. As pessoas não têm capacidade de investir e preferem ceder os viveiros a quem lhes ofereça melhores contrapartidas. Os franceses rentabilizam-nos e produzem a mesma ostra em metade do tempo que se produz em França, com melhor qualidade de água, sol e menos concentração» comparativamente com aquele país europeu.
Veículos de lagartas e moinho de cascas
«A salvaguarda ambiental está sempre presente», garante Pedro Gois, sócio-gerente da Ostras da Torre. «É por isso que usamos viaturas com lagartas, ao invés de outros viveiristas que usam tratores» convencionais, mais suscetíveis a pingar óleos e combustíveis para o solo. «Temos três no total, sendo o mais recente, comprado novo em Espanha, em janeiro. São máquinas completamente estanques e por isso o impacto sobre o viveiro é mínimo. São veículos anfíbios, leves. Flutuam e têm força. A primeira vez que aqui veio um amigo nosso com um trator, deixou um rasto de crateras e buracos. Percebemos que destruiria tudo o que são seres vivos ao nível do solo. Por isso, a nossa consciência fez-nos enveredar por outro tipo de solução» para realizar o trabalho pesado.
Como engenheiros que são, Pedro Gois e António Mota inventaram também uma máquina para os ajudar a minimizar os subprodutos que resultam da atividade. «Com a mortalidade da ostra, as cascas que sobram acabam por causar um grande impacto negativo. Nós construímos um moinho elétrico para triturá-las e convertê-las em substrato natural. Podemos dispersar todo esse calcário das cascas pelo viveiro e pelo ecossistema».
Hotelaria do Algarve desconhece o produto
Enquanto empresa focada na exportação, Pedro Gois admite que poucos são os chefs que conhecem as outras que produz. Uma exceção é o chef do Botique Hotel da Praia Verde, no concelho de Castro Marim, «que cada vez que organiza um evento especial, faz-nos encomendas. Há aqui uma aproximação no sentido de ele usar o nosso produto, e de nós lhe darmos condições para ele trabalhar as nossas ostras». No entanto, este poderá ser um exemplo a replicar, se houver interesse por parte de outras unidades hoteleiras ou restaurantes da região. «Não somos um povo muito consumidor de ostra. A ideia que as pessoas têm é a de que se trata de um marisco caro. Não concordo com isso. Em comparação, um quilo de ameijoa chega aos 15 euros, nós temos aqui um quilo de ostras a 5,50 euros. É o preço vendável. Estamos estamos a falar de um produto de excelência, de grande qualidade».
«Burocracia do sistema» atrapalha soluções
«Quando chegámos ao viveiro, no final de 2014, já aqui existia o apoio de viveiro», diz Pedro Gois. Encontrava-se em muito mau estado e, por isso, os empreendedores tiveram de instalar um contentor provisório, que serve de escritório e de plataforma de trabalho. Está coberto pelas madeiras da antiga estrutura que ali existia há muitos anos, de modo a minimizar o impacto visual. Mas não é isso que preocupa Pedro Gois. «O anterior concessionário pagava uma taxa na capitania em Tavira. Entretanto, a legislação mudou, a taxa acabou e, por consequência, a estrutura passou a estar ilegal», admite. Para resolver o problema, «já fizemos dois requerimentos à Agência Portuguesa do Ambiente para que nos cedam um espaço alternativo, em domínio público marítimo de forma a relocalizarmos o nosso apoio. A resposta é que não têm capacidade de decidir essa situação devido a alterações legislativas. Até lá, o apoio fica onde sempre esteve, por burocracia do próprio sistema», lamenta.



