Um edital simples, sem data, colado na porta de entrada do edifício da capitania de Faro, informa «todos os visitantes que o Museu Marítimo Almirante Ramalho Ortigão se encontra temporariamente encerrado para manutenção». Quando reabrir, ao que o «barlavento» apurou, será numa nova casa. Isto porque, a Câmara Municipal de Faro quer, ao abrigo de um protocolo com a Marinha, dar uma nova vida ao espólio, a instalar nas antigas instalações do Governo Civil, na zona mais nobre da cidade.
Segundo Paulo Santos, vice-presidente da autarquia farense, este processo começa ainda antes do incêndio de maio de 2015, na Capitania de Faro, que danificou parte do Museu.
«Há cerca de um ano fizemos o trabalho de identificar uma série de edifícios que pertencem ao Estado central, e que, na nossa opinião, têm uma função errada, ou estão devolutos. Numa altura em que a cidade está a ter grande apetência turística, esses espaços deveriam ter outro tipo de valências, ao serviço da cultura e turismo», explica.
«Lançámos o repto a várias entidades e diversos organismos no sentido de passarmos alguns desses edifícios para posse da Câmara Municipal, em condições a determinar», conta o vice-presidente.
São exemplo o imóvel do ex-Governo Civil, «que, neste momento, está desocupado», o da Alfândega «que, apesar de ter utilidade», pois alberga estes serviços aduaneiros, mas «numa perspetiva turística da cidade poderia ter uma utilidade muito maior».
Também o palácio Doglioni, afeto à Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve, «é um espaço muito importante para história da cidade e poderia ter uma utilidade diferente». Por fim, a edilidade tem interesse em «alguns dos armazéns que a REFER tem à volta da estação de comboios, nomeadamente, do lado da Ria Formosa», quase na totalidade devolutos, ou em muito mau estado.
«A ideia não é tirarmos serviços ao Estado para colocarmos os nossos, mas podermos dinamizar estes espaços numa lógica cultural associada ao turismo», sublinha Paulo Santos.
«Já antes do incêndio, o Museu Ramalho Ortigão não tinha a visibilidade que merecia», registando cerca de 3000 visitas anuais, destaca. «A pessoa entrava numa instalação militar, com um guarda à porta. É normal, mas, de alguma forma, desencorajava a visita e talvez não houvesse a divulgação de um Museu com a importância que ele representa para o Algarve e para Faro», acrescenta o vice-presidente da autarquia.
Além de toda a coleção etnográfica sobre a atividade marítima e a pesca algarvia, miniaturas de navios de pesca e embarcações, instrumentos e material de bordo, e de uma biblioteca científica, há peças do consagrado pintor farense Carlos Porfírio, que para o executivo farense, merecem exposição permanente.
«Já havia a intenção recíproca de dar maior visibilidade. Com a questão do incêndio, houve a decisão de enviar parte do espólio para Lisboa, com o objetivo de intervenções de conservação e restauro. Depois, deverá regressar a Faro», sublinha o autarca Paulo Santos.
Neste momento é o Ministério da Administração Interna que detém o edifício do ex–Governo Civil de Faro. «Depois do ofício que enviamos a propor a cedência, já fizemos diversas reuniões com a secretária de Estado [Isabel Oneto]. Estamos a aguardar resposta». Para já, este é o principal entrave, pois as instalações, embora vagas, estão pensadas para albergar o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF).
«A questão agora passa por perceber as diferentes disponibilidades. A vontade de libertar o espaço foi manifestada pela secretária de Estado, que também acha que o edifício para instalar o SEF não é o ideal. Poderá ter outro fim, embora a cedência de património do Estado tenha de passar pelo parecer de várias entidades», diz Paulo Santos.
Em boa verdade, a Câmara Municipal já tem a cargo a gestão de duas salas dentro do edifício, o salão nobre e a sala do ex-governador. A ideia é criar um polo cultural, numa lógica de conjunto, já que o novo posto de turismo de Faro está instalado a poucos metros.
«Não há horizonte temporal», mas Paulo Santos acredita que «é uma questão de meses. Estamos a assumir que a cidade tem falta do Museu Ramalho Ortigão, e é vontade deste executivo tê-lo visitável o mais depressa possível», concluiu.
Marinha concorda com Faro
Contactado pelo «barlavento», o Serviço de Comunicação, Informação e Relações Públicas da Marinha, informa que, «na sequência do incêndio que ocorreu no edifício da Capitania de Faro, em maio de 2015, que deflagrou na Biblioteca Infante D. Henrique e afetou colateralmente o Museu Ramalho Ortigão, decidiu-se pelo seu encerramento, assim como repensar a forma de melhorar a sua visibilidade para o público nacional e muitos estrangeiros que o pretendem visitar.
Tendo sido o espólio do Museu oferecido à Marinha, estando sob a gestão técnica do Museu de Marinha, entendeu-se que face à sua localização, dentro de portas de uma instituição militar, sem vocação exclusiva de museologia, se deveria encontrar uma solução». A armada está de acordo com a ideia da Cãmara Municipal e considera que «deve ser disponibilizado ao público na cidade de Faro, num espaço digno para o efeito».
A contrapartida será «manter a identidade do mesmo e o vínculo com a Marinha através do Museu de Marinha, a definir em protocolo» com a autarquia. Faro poderá ainda sair a ganhar já que «o espólio existente constituirá o núcleo duro da exposição, que poderá ser enriquecida com variedade de peças do Museu de Marinha ou outras com o mesmo tema». Por fim, «a gestão seria feita em parceria, mantendo-se o diretor do Museu o Capitão de Porto de Faro».
Serralves a caminho de Faro
Segundo Paulo Santos, um dos projetos que o município de Faro candidatou ao programa Algarve, iniciativa do Turismo de Portugal, para combater a sazonalidade através da cultura da região, «foi uma parceria com a Fundação Serralves», que aliás, já está aprovada.
No entanto, o objetivo é manter e consolidar a relação no futuro. «Pretende-se que vá mais além, na formação de técnicos, do serviço educativo e de intercâmbio de quadros de pessoal».
«Serralves tem um modelo bem definido de parceria que funciona muito bem nalguns municípios do norte e do centro. Disponibilizam exposições temporárias, podem fazer circulação pelos associados. Durante os primeiros contactos que fizemos, estiveram cá em Faro responsáveis a ver espaços» para as acolher.
O problema é que «temos falta de espaços expositivos, quer para mostras permanentes, quer para temporárias. E têm que ter características diferentes. Uma exposição de arte contemporânea, faz sentido de ser integrada num espaço mais industrial, como os hangares dos caminhos-de-ferro», exemplifica.
«Não devemos ir por projetos megalómanos, de museus de arte contemporânea de orçamentos gigantescos, isso faz-nos recordar algumas más experiências e algumas ideias de há poucos anos», sublinha.
A solução pode passar pelo modelo do que está previsto para o Museu Ramalho Ortigão. O «barlavento» sabe que a Fundação Serralves viu com bons olhos a Alfandega de Faro, sob tutela das Finanças. «É de todos os espaços que nos propusemos ter, o mais difícil, porque está ocupado e em funções. Onde hoje é o Centro Interpretativo do Arco da Vila trabalhavam 16 pessoas. A Câmara teve dificuldade em libertar esse espaço e realojar essas pessoas. Mas se foi uma aposta certa? Não tenho o mínimo de dúvidas», garante Paulo Santos.
O vice-presidente admite que adaptar os vários edifícios a funções museológicas, terá custos, mas «dada a evolução que o turismo tem tido, a aposta na valorização dos espaços, será sempre muito menor quando comparada ao retorno que poderá trazer».
Também o Museu Municipal de Faro está a preparar-se para ter condições de receber, em 2017, duas grandes exposições de obras de elevado valor, em parceria com uma instituição espanhola e outra britânica.

