Cenógrafo, maquetista, construtor de aviões, inventor, ator, Tó Quintas, 55 anos, é uma daquelas pessoas que têm o dom de materializar os sonhos dos outros. Na sua oficina, em Faro, tem dado vida a grande parte dos cenários das peças da ACTA e de outros coletivos da região.
A habilidade e o jeito vieram «por contágio da família do lado paterno. Eram pessoas muito manuais. Faziam a sua própria mobília e estavam sempre a construir coisas. Não se pensava onde é que se vai comprar. Pensava-se como é que se vai fazer?», recorda.
«Quando éramos pequenos, a minha mãe para me entreter a mim e ao meu irmão, ia buscar rádios avariados ou interruptores velhos e soltava-nos na cozinha para desmontarmos tudo. Sempre fomos incentivados a mexer nas ferramentas».
A escola não lhe correu mal, mas poderia ter sido muito melhor se não tivesse nascido canhoto. «A ideia de escrever com a esquerda, estava ligada ao comunismo», no Portugal antes do 25 de Abril de 1974. E portanto, era algo a reprimir.
«O resultado disso foi uma enorme dislexia. Hoje acabo por escrever com as duas mãos, mal. Portanto, concebo as coisas em forma de imagens, é a base do meu raciocínio. Tenho relativa facilidade em pensar em três dimensões», diz.
Paralelamente à escola e mais tarde ao trabalho, Tó Quintas manteve sempre um grupo de amigos interessados no aeromodelismo, em construir modelos de foguetes, carrinhos com motor de elástico, e até cortar e soldar bicicletas.
Chegou a trabalhar como escriturário no Casino de Vilamoura, «uma coisa que não teve nada a ver comigo».
«Um dia, li numa revista da especialidade, um artigo cujo título era faça do seu hobby uma profissão. Fiquei muito interessado. Fiz um curso de jovem empresário e dediquei-me à construção de maquetas para a construção civil».
Nos anos 90, o negócio começou a cair. «Bem, comecei a fazer artesanato e a construir casas típicas algarvias em gesso. O problema é que ou eu montava um processo industrial para ser rentável, ou não dava. Passava o dia a fazer e a pintar casinhas, e mal ganhava para pagar a renda», ri.
«Encerrei essa atividade e fui fazer próteses dentárias. Primeiro os moldes e depois a fundição dos metais. Como já tinha uma grande escola de modelos, trabalhei nisso cerca de dez anos. Era muito extenuante», recorda.
«Quando apareceu o SINCERA», grupo de teatro da Universidade do Algarve e mais tarde a ACTA – A Companhia de Teatro do Algarve, «eles andavam um pouco aflitos à procura de quem lhes fizesse os cenários. As carpintarias normais não se davam bem com coisas fora do standard», lembra. Portanto, «em paralelo, comecei a fazer cenários. Tinha a oficina na sala da minha casa», na altura, um apartamento.
A fundação da ACTA, nos anos 1990, foi determinante enquanto «projeto sólido», porque em Faro e no Algarve, «o teatro era uma coisa de loucos, estava sempre associado à irreverência dos jovens, uma coisa marginal», lembra-se. «Não era visto como uma profissão. A ACTA veio no fundo, a provar o contrário».
Num dos primeiros espetáculos, «andava aí o Luís Vicente preocupado com o cenário, porque toda a gente lhe fazia uma cara estranha. Telefonou-me. Olhamos um para o outro, assim meio desconfiados», e foi assim.
«Começou a haver anualmente duas ou três peças, que me permitiram ter trabalho consistente nesta área», diz.
E como é este trabalho? «A questão é sempre saber como é que a cenografia vai ser usada em palco e para quê. Vai ser molestada? Vão ter que lhe saltar para cima? Terá que abrir, fechar? Terá que ser arrastada pelo palco? De que maneira vai ser utilizada? Em função disso, há que considerar as dimensões. Aqui no Algarve fazemos itinerância, e portanto, tudo tem que ser portátil, desmontável. E depois tem a ver com a imagem, são-me dadas indicações em termos de ambiente, as cores, a época que se pretende representar», diz.
No mínimo, há um prazo de dois meses. Tempo para o «trabalho de concepção» e execução das ideias que lhe são apresentadas. Ao longo da colaboração com a ACTA, Tó Quintas tem surpreendido tanto este coletivo, que goza de total liberdade criativa.
Um facto curioso é que não tem computador, e pouco usa a Internet. «Tenho as minhas fontes de informação. Leio e observo muito. Vou criando património mental», diz.
No final, perguntamos a Tó Quintas como se vê a si próprio? »No fundo, vejo-me como uma pessoa que constrói coisas úteis para os outros. Considero-me um mestre, uma pessoa com uma grande sabedoria acumulada de materiais, de formas e de informação, pela via não-convencional e pelo ensino autodidata».
Pólvora feita em casa
«Sempre fiz a minha pirotecnia em casa. Quando era pequeno, ia com o meu irmão comprar o enxofre, os cloratos, o carvão e fazíamos alguidares de pólvora em casa para fazer foguetes», recorda Tó Quintas.
«O meu avô também fazia a sua própria pólvora, pois tinha um velho canhão napoleónico que costumava disparar ao fim-de-semana».
Mais tarde, aos 22 anos, Tó Quintar começou a colaborar com a fábrica de fogo-de-artifício dos Vilarinhos (São Brás de Alportel) – quando ainda aí eram fabricadas as misturas de pós para darem origem às cores no céu.
Hoje, apenas aí se fabricam as sequências e os espetáculos com granadas importadas da China. «Sim, perdeu-se muito desse saber, mas há muitos anos, moía-se ali o carvão, misturavam-se os químicos, faziam-se aquelas combinações secretas que dava origem aos diferentes efeitos», conta.
«Antigamente, era tudo feito com canas, barro e tubos de cartão. Construir um foguete, do princípio ao fim, é mais do que parece. A espessura do furo de escape tem a ver com a densidade do ar, dependendo se é Inverno ou Verão. É a mesma teoria dos tanques de combustível sólido do Space Shuttle».
«Antigamente, os foguetes eram feitos em casinhas muito pequenas, muito frouxas, para não conterem as explosões se acontecesse um acidente. Tinham um poço à porta. Se aquilo pegasse fogo, a única coisa a fazer era saltar lá para dentro. Era o truque de sobrevivência. Mas tomara dar tempo para fugir!»
Tó Quintas fez muitos lançamentos de foguetes em equipa, e nos últimos tempos, individualmente, em festas por todo o Algarve. Na concentração internacional do Motoclube de Faro chegou a montar «umas pirotecnias malucas».
Uma vez, numa noite ventosa em Albufeira, aconteceu um efeito dominó e de súbito, centenas de foguetes pegaram fogo ao mesmo tempo nas grades de madeira. «Parecia um apocalipse. Era explosões por todo o lado. Felizmente, ninguém se magoou».
Antigamente, não havia a tecnologia atual para controlar o espetáculo. «Mesmo assim, hoje dá a sua luta, mas são centenas de fios elétricos entrelaçados», brinca…
Um país de costas voltadas para as manualidades
Ao longo das últimas décadas, os trabalhos manuais têm cada vez menos expressão no sistema de ensino português. Ou seja, as gerações mais novas estão mais educadas, mas também menos à vontade para o trabalho manual. Poucos são os que conseguem pregar um prego na parede sem fazer cair o estuque e abrir um enorme buraco, ou outras tarefas simples.
«É muito grave», considera Tó Quintas. »Isso prejudica-nos muito enquanto povo».
Mas este é também um problema de mentalidades, em que o trabalho manual se tornou, ao longo das últimas décadas, «socialmente malvisto».
«A opção de se acabar com os trabalhos manuais no ensino, revela pobreza de espírito. É o povo que tem a cultura do ser doutor. Tem a perspetiva que o doutor não trabalha, fala. Isso não é verdade», considera Tó Quintas.
«Quando olhamos os grandes projetos de engenharia no estrangeiro, são os engenheiros quem trabalha. Os menos qualificados apoiam esse trabalho. Aqui é ao contrário, o engenheiro tem o conhecimento no papel, mas depois na prática as coisas falham».
«O trabalhar com as mãos permite acesso a um grande conhecimento. Desde as propriedades dos materiais, ao cálculo matemático».
Quando não está a trabalhar na cenografia, Tó Quintas é animador de oficinas lúdico-pedagógica de construção de objetos voadores para um público infantil.
«Construir modelos em papel, às vezes até com cola de farinha, é uma coisa baratíssima e que dá um prazer incrível às crianças». A isto, junta-se o saber histórico e contextual, no caso do modelismo, por exemplo.
«Na Alemanha, todos os miúdos fazem aeromodelismo e radiomodelismo. Também os adultos constroem carros e barcos e comboios lindos. Aqui, isso é visto como uma excentricidade. É uma coisa excêntrica porque se considera que a brincadeira é uma coisa de crianças, quando na verdade, a brincadeira é sinónimo de inteligência. A brincadeira não é uma coisa desprovida de sentido. É um exercício de aprendizagem. Nós é que brincamos pouco», conclui.
Balões de ar quente na noite de Natal farense
Finalmente, Tó Quintas também é conhecido por ser um dos últimos a dominar uma tradição esquecida – os balões de ar quente lançados nas festas dos santos populares – construídos apenas em papel de cera e canas.
Algures na década de 1980 começou a lançar estes engenhos na Praia de Faro, na noite de Natal, depois da missa do galo, algo se tornou numa festa popular espontânea.
«Não tem hora marcada, não se paga bilhete, acontece quando acontecer e o resultado é o que for», diz.
«Só com ar quente. Às vezes leva uns efeitos pirotécnicos. Já houve balões que estiveram três a quatro horas visíveis no horizonte. Normalmente no Inverno, àquela hora, o vento sopra predominantemente da terra para o mar. Portanto, não há riscos de segurança. As pessoas estão com o espírito aberto e é engraçado», diz.
Hoje, Tó Quintas guarda em casa um móbil – uma escultura móvel, constituída por várias peças suspensas por cabos. Cada elemento representa um voo especial – como um modelo inspirado no hidroavião «Lusitânia» – o biplano Fairey no qual os aviadores Sacadura Cabral e Gago Coutinho atravessaram o Atlântico em 1922. Tinha sido pensado para o Aeroporto de Faro, mas acabou por ficar sem efeito. «É um pouco o sonho da criança, e ao mesmo tempo a história da aviação», conclui.