«Fazendo uma retrospetiva de 2015, penso que foi o melhor dos 23 anos que estamos no mercado. É claro que sinto que este é um trabalho de aperfeiçoamento contínuo. Mas deixe-me ir um pouco atrás no tempo. Quando ouvi falar pela primeira vez do Algarve já a região era conhecida e tinha uma boa reputação pelos seus excelentes campos de golfe, a sua costa fantástica e, sobretudo, a simpatia dos portugueses. Desde sempre lembro-me de ouvir estes elogios. Vinham à conversa com frequência, nos hotéis onde trabalhava no início da minha carreira. Os jogadores de golfe começavam a marcar as suas viagens a partir de Outubro. O Algarve era a Florida da Europa», recorda Kurt Gillig.
«Quando fui desafiado para trabalhar aqui, a minha primeira posição no VILA VITA Parc, foi a de chef executivo. Tinha 29 anos e liderava uma equipa de mais de 70 chefs. Foi uma época muito interessante. Mas, ao mesmo tempo, tinha a sensação de que as pessoas não distinguiam a qualidade dos produtos da região. Não os relacionavam com Portugal, nem com o Algarve. Tínhamos uma boa reputação, mas a qualidade da oferta de excelência turística estava ainda por ser reconhecida».
Na sua opinião, «o Algarve manteve o seu foco nas praias, no sol e golfe por demasiado tempo. Na altura, os hoteleiros limitaram-se a copiar um padrão de sucesso para o replicar aqui. Era a mentalidade», recorda.
«Na verdade, não é nada disto que os hóspedes esperam quando vêm ao Algarve. O que procuram é autenticidade, experiências reais», considera.
«Os nossos hóspedes querem ouvir histórias» da cultura local. «É algo que a nossa equipa faz muito bem. Por exemplo, no line up do dia, há sempre um apontamento sobre a tradição e a cultura algarvia, relacionado com a gastronomia. Muitas vezes, são os próprios colaboradores que o trazem de casa, das suas famílias. O valor mais forte que temos aqui é a nossa identidade», sublinha o gestor austríaco. Há hóspedes que fazem questão de ir ao mercado biológico em Armação de Permera, ao sábado, e trazem as compras para os chefs da casa cozinharem. Parece estranho, num resort que até disponibiliza o seu próprio iate e toda uma panóplia de luxos.
Algarve precisa de um novo slogan
Numa altura em que a agenda mediática esteve atenta à Bolsa de Turismo de Lisboa (BTL), o gerente de uma das unidades mais prestigiadas do Algarve, considera que está na hora de repensar o marketing oficial.
«Os turistas já conhecem o Algarve e querem vir cá . Pudemos constatar isso em 2015. Temos hóspedes que regressam e outros novos que vêm pela primeira vez descobrir a região. A qualidade balnear e dos serviços que hoje prestamos, juntamente com a alma do povo, faz de nós um destino único. Ainda há muito que trabalhar a questão da identidade. Mas penso que temos hoje muito mais carácter», defende.
Referindo-se ao slogan oficial do Algarve («o segredo mais famoso da Europa»), Killig considera que «foi uma boa ideia. Mas agora precisamos de enveredar por um novo caminho. Está na altura de refletir se queremos continuar a ter um turismo de massas, barato, que privilegia a quantidade em detrimento da qualidade. Ou se devemos olhar para os recursos que temos, porque o Algarve não é uma área assim tão grande, e pensar como tirar o melhor partido do que existe em cada concelho? Não devemos entrar numa luta de preços com outros destinos mais baratos. Claro que o turista de massas nos traz ocupação hoteleira. Mas não traz o retorno que a região precisa», compara.
«Hoje em dia há onze restaurantes com estrelas Michelin no Algarve, temos produtores de vinho fantásticos e, mesmo assim, acho que não usamos bem estes argumentos na venda do destino. Temos pequenos produtores de figo, a morcela e o medronho de Monchique. Temos também os clássicos como a cataplana, algo único no mundo. É isso que os nossos clientes querem», sugere.
«Foi importante construir a imagem de destino de luxo, com o golfe e as marinas e projetos como Vale do Lobo e Quinta do Lago. Mas agora estamos prontos para o próximo passo. O Algarve pode vir a ser um destino gastronómico», sugere.
Novidades no VILA VITA Parc
Todos os anos o resort acrescenta algo de novo à sua oferta. Em 2016, «apresentaremos a Quinta do Vale Bom, no Douro, cujo vinho entrará em breve no mercado», revela.
Após a renovação total dos 170 quartos do hotel, no ano passado, «estamos agora a renovar o nosso Clubhouse, que é o centro gastronómico pulsante do VILA VITA Parc. Vai albergar um restaurante japonês contemporâneo. Inauguraremos também um restaurante de cozinha do mundo, segundo a ideia de oferecermos um roteiro gastronómico por cidades costeiras. Podemos ter pratos de caranguejo à moda de São Francisco, peixe à maneira de Tóquio. Queremos ter tudo pronto no início do verão. Estamos também a melhorar a zona da piscina e do bar de apoio». O club «V» também está a ser alvo de melhoramento, revela Kurt Gillig.
O trabalho de renovação do restaurante Ocean iniciado no ano passado está concluído. «Na primeira fase, renovámos a sala e a cozinha. No final de dezembro completámos todo o projecto. Tem um design absolutamente fantástico. A pesquisa para o resultado final teve em conta toda a experiência de trabalho dos últimos sete anos do chef Hans Neuner e da sua equipa. Foi dado o passo seguinte na nossa jornada. As cores, os materiais, o estilo e a forma como trabalhamos, a biblioteca de vinho. Tudo foi criado para exceder as expetativas dos nossos hóspedes. Foi um longo processo, mas agora está perfeito», considera.
Também o Bela Vita reabrirá a 10 de Março. «Fizemos uma alteração completa. O novo conceito é servirmos os clássicos mediante um mix de cozinha inovadora e contemporânea, tudo com ingredientes frescos dos mercados. «O próximo projeto será melhorar o spa e o health club», conclui.
Turismo de gama-alta requer mais cultura viva
Questionado sobre o que as forças vivas da região poderiam fazer para ajudar a impulsionar o turismo de gama-alta no Algarve, Kurt Gillig não tem dúvidas. «Não fazem falta mais infraestruturas, mas é preciso mais investimento em cultura viva. Temos uma percentagem de mais de 84 por cento de hóspedes que escolhem ficar no resort pela gastronomia. Mas muitos querem também sair e explorar a oferta cultural da região». Dentro de portas, «realizaremos um festival de xadrez em setembro, uma feira de jardinagem do Mediterrâneo em junho, o festival da cerveja (oktoberfest ) em outubro. Teremos também um concerto especial de jazz em data a anunciar.
Um negócio familiar
«A família Pohl, a primeira vez que veio ao Algarve, há trinta anos, apaixonou-se de imediato. E quis dar o seu contributo para a região, através da sua visão e da concretização das suas ideias», conta Kurt Gillig, sobre a origem do VILA VITA Parc nos Alporchinhos. Desde o início, «atraíram muitos alemães, suíços e austríacos para a região. Penso que foi importante, não para a economia, mas sobretudo para que fosse passada a palavra» sobre a qualidade do destino. «Desde 1994 que somos um dos melhores hotéis do mundo, o que nos coloca num nível muito diferente. Fazemos parte de uma pequena elite. Este grupo restrito, possui aquilo que distingue as obras primas da indústria. Quem vê o nosso logo, a nossa identidade, entende a relação com o Algarve. É o nosso valor mais forte», sublinha o gerente. O resort faz parte do grupo «Deutsche Vermögensberatung Holding». Com mais de 38 mil empregados, a empresa mãe é uma das líderes na área financeira de seguros na Alemanha e na Europa. Com o falecimento do seu fundador, Reinfried Pohl, em 2014, cabe agora aos dois filhos cuidarem desta preciosa herança. Gillig orgulha-se de participar ativamente nas decisões.
Duas estrelas Michelin com sabor a Portugal
O restaurante gourmet «Ocean» no VILA VITA Parc tem à frente o austríaco Hans Neuner – nomeado Chefe do Ano 2009 e 2012. Juntamente com a sua equipa, é galardoado com duas estrelas Michelin desde 2011. «Quando o Hans veio trabalhar connosco, visitámos nos primeiros meses muitos produtores locais, fomos ao frango piri-piri, falámos com os pescadores, explorámos muitos sabores da região. Tudo isso influenciou muito o que ele tem feito. O resultado está no menu. Mas há muito mais por explorar. Não é que queiramos estar sempre a inventar. Tencionamos simplesmente dar a conhecer a história, a influência do passado, a tradição moura que está presente ainda hoje» na gastronomia do Algarve. «Por exemplo, o uso dos coentros na maioria dos pratos de peixe. Não existe em mais lado nenhum. Aqui é possível sair e apanhar funcho e espargos selvagens. Não creio que seja possível obter nada mais biológico e autêntico. É algo que podemos divulgar», explica Kurt Gillig. «Há toda uma herança cultural que nos faz amar tanto Portugal. Temos, por exemplo, uma jovem chef da Madeira, que nos trouxe uma receita da avó baseada numa fermentação de bananas e cana do açúcar. O Hans desenvolveu-a e é agora servida como sobremesa no Ocean. Estava esquecida, ou teria sido esquecida,
e não existe em mais lado nenhum».
Americanos à descoberta do Algarve
A crise de 2008 «trouxe muita pressão, ficámos todos envoltos numa nuvem cinzenta. Os nossos dois mercados principais – alemão e inglês – caíram», admite Kurt Gillig, gerente do VILA VITA Parc. Hoje, «o quarto mercado é composto pela Holanda, Bélgica, os países nórdicos e a Rússia. Os portugueses também são para nós uma grande conquista», revela. Contudo, ao longo do ano, «os EUA revelaram-se como o nosso sexto maior mercado. Hoje em dia recebemos um tipo diferente de hóspedes. Podemos chamar-lhes courier travellers», isto é, turistas com um bom orçamento para estadias curtas à descoberta de vários países. «No início, a nossa divulgação no mercado norte-americano não funcionou. Eles têm as Caraíbas à porta de casa e há outros destinos atlânticos», refere. A forma de captar a atenção dos americanos, deve-se, uma vez mais, à identidade da região. «Procuram coisas diferentes. Querem explorar a história. Querem conhecer a cultura, querem saber o que comemos e bebemos. Onde está o património? Querem ver a Fortaleza de Sagres, onde tudo começou. São city hoppers, ficam connosco e seguem em passeio até Lisboa ou Porto».
Mais português que austríaco
Kurt Gillig formou-se na escola hoteleira de Caríntia, na Áustria, em 1986. Quando veio trabalhar para o Algarve, no final dos anos 1990, sentiu de imediato uma forte ligação com a cultura do país. É casado com uma portuguesa há 14 anos e pai de um filho adolescente. «Eu amo este país. Costumo dizer que as pessoas são recebidas aqui de braços abertos. Quem der um passo em frente nas suas relações, facilmente recebe um abraço. Isso é uma coisa específica de Portugal e do Algarve. Não conheço outro lugar onde queira viver», diz. Dono de uma carreira em hotelaria de luxo, chegou ao topo no VILA VITA Parc. «Não há um departamento que não conheça», diz. Nos últimos seis anos, a sua gestão catapultou o resort para o topo da hotelaria mundial, conquistando vários prémios de referência nacionais e internacionais.