Fomos conversar com este jovem de 34 anos, que passa quase despercebido, no dia a dia, porque a sua timidez o leva a adotar uma atitude discreta. Na sua opinião, tudo tem acontecido naturalmente. Nasceu e cresceu no mundo da representação e da brincadeira, porque o seu pai, José João Cercas, tornou-se palhaço um ano antes do seu nascimento. Também o seu avô materno, o famoso Augusto Sacristão, era um homem com espírito artístico, pintava e chegou a fazer cenários para alguns eventos.
Flávio Vicente – Nunca me foi imposto nada por ninguém. Eu sou um bocado tímido e nunca mostrava o que fazia, exceto em cima do palco. E, talvez por isso, esta paixão por fazer, imitar e brincar, desde pequeno. Aos nove anos, entrei no teatro infantil da autarquia que, curiosamente, se localizava no Boa Esperança. Mas a base do palhaço, da fantasia e da brincadeira esteve sempre presente. Aos 14 anos, juntei-me à dupla de palhaços Pevide (Carlos Pacheco) e Zacarolas (o meu pai), encarnando o Salsinha.
Mas consta-me que o escutismo também exerceu grande influência na sua vertente artística?
É verdade. Os escuteiros foram uma grande escola, porque me permitiram criar, representar e, até, desenvolver a parte da pintura, que já existia em mim, mas um pouco adormecida. Em suma, fizeram brotar a arte cénica na sua globalidade.
Como aconteceu a sua entrada no teatro de revista?
Eu achava piada na construção do espetáculo. Não apenas o que acontece no palco e que as pessoas veem, mas os bastidores. E comecei lá por trás, a ver e a aprender muito com os outros, ao nível de bonecos, personagens, caracterização. Um dia, em 1998, foi necessário alguém para um pequeno papel, apenas uma entrada e uma saída no meio daquilo tudo, e iniciei-me no palco, como figurante.
O Flávio é bastante conhecido como palhaço e como um dos atores principais da Revista à Portuguesa do Boa Esperança. Mas tem outra faceta que passa um pouco despercebida: cenógrafo. Como aconteceu?
Lembro-me de ver o pintor Júlio Amaro como cenógrafo da revista e comecei a desenvolver a arte da cenografia. Mais uma vez, veio naturalmente, colocando em prática o que aprendi nos escuteiros, a minha escola-base, onde tínhamos de fazer tudo. Como sou desenrascado e gosto de arranjar solução, em vez de ficar a olhar para o problema, não passou de deixar o novelo de lã ir-se desenrolando.
Isto acontece quando?
Comecei como ator e cenógrafo das revistas do Boa Esperança, no ano 2000. Comecei pelas pinturas mais simples e, depois, as coisas foram-se desenvolvendo. Também estive em artes, na escola, até ao 12º ano, porque era o caminho que queria seguir.
E é, agora, o responsável pelos diversos ambientes em que os quadros se desenvolvem?
Eu e o Carlos, que trabalhamos muito bem em parceria, idealizamos as cenas. Há um tema que é lançado para o ar, fazem-se riscos e rascunhos, até chegarmos mais ou menos ao produto final, em miniatura. Depois, passam para uma escala enorme, telas com 7 metros de comprimento por quase 4 metros de altura. É tudo pintado ao alto, à escala do ator que está no palco, para que haja profundidade, perspetiva, enquadramento; em suma, para que complete a cena, mas que não ofusque os personagens. O princípio é: se não houvesse, fazia falta; mas, como está, tem de funcionar de forma homogénea, criando magia, mas destacando o personagem. É criar a envolvência, algo que sempre me atraiu e continua a atrair. É criar dimensão naquela caixinha mágica que é o palco.
O público vê os cenários, gosta, mas o cenógrafo acaba por ficar numa zona de penumbra. Mas é o que lhe dá mais prazer, segundo me parece.
Embora as pessoas, muitas vezes, não tenham grande perceção do facto, quando a revista vai para cena já existem 3 ou 4 meses de trabalho árduo, dias, tardes, noites, muito tempo a idealizar até chegar ao produto final. Nos últimos tempos, tenho tido uma ajuda preciosa do Cláudio, que também é o contrarregra do teatro. E todos, quando têm um bocadinho, gostam de dar uma ajuda e de pintar um bocadinho. Mas há traços principais e linhas que eu, com o passar dos anos, comecei a aperfeiçoar e tenho um traço muito próprio. A mão começou a trabalhar e deixei fluir a criatividade. Nunca quis ser muito rígido, porque as coisas têm de se desenvolver. Gosto de amadurecer a ideia e, depois, tendo a base, é deixar as cores fluir.
Poderia estar a trabalhar como cenógrafo noutro local, até no estrangeiro. O que o prende aqui?
A cenografia faz parte de mim, mas também o fazem a parte de ator e, acima de tudo, a de palhaço, que tem feito parte de toda a minha vida. São três elementos bastante fortes e não consigo ser só um dos três. E, aqui, tenho a possibilidade de fazer todas e sentir-me planamente realizado, porque sinto o que faço e gosto do que sinto.
Flávio Vicente já foi convidado para fazer pinturas em paredes de escolas e decorar quartos de crianças, por pessoas que veem os seus cenários, gostam e convidam-no. Outra faceta menos conhecida prende-se com a caracterização e a pintura facial de crianças, que tem desenvolvido e pratica regularmente.
Um homem simples, tímido, mas com os pés bem assentes no chão, um artista que nunca esquece as suas raízes, onde foi buscar a sua arte. E não deixa de mencionar as duas pessoas que considera as mais importantes para o seu desenvolvimento artístico: o progenitor José João Cercas e Carlos Pacheco.