O «barlavento» desafiou nove personalidades distintas a comentarem o rescaldo da noite eleitoral de 4 de outubro.
Dália Paulo | Chefe de Divisão de Cultura e Património na Câmara Municipal de Loulé
«Algarve: onde a esperança é vigilante em tua luz». Inspiro-me em António Ramos Rosa, pois não é altura de afirmar nada. É altura de questionar, refletir, de estar vigilante e prosseguir na defesa da nossa dignidade. A coligação Portugal à Frente perdeu a confiança dos portugueses, mas vai formar governo. Terá capacidade de governar? Num novo quadro parlamentar, sem maioria, continuará as suas medidas profundamente injustas? Terão os portugueses consciência da sua escolha? Que significa o aumento do voto nos partidos de esquerda? E tantas outras questões que deixo ao leitor o desafio de as colocar. E no Algarve? Desta nossa região veio, permitam-me enfatizar, uma esperança e uma luz, numa região que foi marginalizada e esquecida nos últimos quatro anos. Uma região onde o desemprego é elevadíssimo, onde têm destruído o sistema de saúde público. A população disse basta. Deu confiança ao Partido Socialista, acreditando que há outros caminhos. Termino com um pedido aos «nossos» nove deputados, com as palavras de Lídia Jorge, para que o seu olhar «nunca se compraza por inteiro» e seja «sempre inquieto» na defesa do Algarve.
Elidérico Viegas | presidente da AHETA
Os resultados eleitorais expressam o descrédito dos portugueses nos políticos, nas forças partidárias e, sobretudo, nas estratégias que os mesmos dizem defender e/ou querer implementar. Os portugueses recusaram dar maioria absoluta, rejeitando liminarmente pseudo-políticas com as quais não concordam. A maior taxa de abstenção de sempre é elucidativa. Os portugueses não se revêm mais em pessoas a quem pagam excessivamente para obter tão poucas contrapartidas. Esgrimir promessas que não se concretizam, nem são para cumprir, já não dá direito a cheques em branco. Os políticos falam uns para os outros, à margem das realidades do país, num mundo fechado sobre si próprios. Em boa verdade, para a classe política, o país só tem portugueses nos discursos e em períodos eleitorais. Esta democracia de políticos para políticos, comentadores para comentadores e politólogos, é exclusiva das televisões, e não salvaguarda os interesses gerais, nem garante o futuro dos portugueses. Não admira, pois, que o povo português tenha muito, legitimamente, dado um cartão vermelho a estes senhores.
João Barnabé | Dirigente sindical
Para alguém que esteve em luta durante quatro anos, contra um conjunto de mal feitorias que foram lançadas às pessoas, o resultado das eleições, deixou-me perplexo. O resultado ainda podia ter sido pior, caso tivesse obtido maioria absoluta. Felizmente para os portugueses não existiu essa maioria absoluta. O que apesar de tudo, não quer dizer que não existam ainda riscos. Mas se houver sentido de Estado por parte dos deputados eleitos, as medidas que passarem na Assembleia, serão as melhores para o país, permitindo a recuperação económica e a melhoria da condição de vida da população. Claro que a credibilidade dos políticos deixa antever uma difícil execução desta premissa. Neste momento, teremos que aguardar para ver se, entretanto, não nos sai algum coelho da cartola, que nos surpreenda, outra vez, pela negativa, levando nós com mais quatro anos de agruras. Para quem está na defesa dos trabalhadores, esteja quem estiver, nunca é fácil lutar por melhores condições, em maioria. Não nos ouvem em minoria. Desculpam-se com os outros, vai ser uma experiência interessante, estes próximos tempos.
Josué Marques | cidadão ligado ao sector das pescas
A direita, Passos Coelho e Paulo Portas, sofreu uma estrondosa derrota. Perdeu votos, perdeu mandatos e a maioria absoluta. Há quatro anos obteve 50 por cento dos votos e agora 38,3 por cento. António Costa também foi derrotado. Outra coisa não seria de esperar. Andou desaparecido, quando os trabalhadores andavam em luta contra esta política de direita, que infernizou a vida dos portugueses, nomeadamente àqueles que menos têm e menos podem. A CDU elegeu mais um deputado e obteve mais votos e o BE alcançou um bom resultado. Esta política de direita, que cortou salários, cortou pensões, tirou o subsídio de natal aos reformados, reduziu e cortou várias prestações sociais, aumentou brutalmente os impostos e a carga fiscal, tem em preparação um plano de um forte ataque à Segurança Social com a intenção de a privatizar. Só a poderá prosseguir se o Partido Socialista lhe der a mão, o que não seria a primeira vez que acontecia. O Presidente da República vai continuar a andar ao colo com o governo. Está agora criado um novo quadro político que pode e deve favorecer a luta dos trabalhadores e do povo.
Luísa Monteiro | Escritora
Algo está a morrer. Para já, este abalo no bloco central PSD/PS. Uma lógica corriqueira e pobreza argumentativa começaram a ditar o Outono dos «patriarcas». Mas questões essenciais (presença na Nato, zona Euro ou a eminente federação da UE) foram mais desérticas que Paris-Texas. Talvez o BE tivesse o mérito de aliviar ligeiramente o corcunda da abstenção, o PCP ainda nos 100 anos de solidão e o PS com a maior fratura de sempre, face ao seu peso histórico: eis o crime e castigo do autismo da esquerda ao negar coligações entre si. Como crer agora na verdade da sua oposição? O PàF vai governar. Quem o elegeu não foi a falta de memória dos cidadãos. Foram antes os medos de um povo. O medo de perder honrarias, ou porque acreditam que o sacrifício conduz à salvação. Medos já do berço inquisitorial, engordados na ditadura e enquistados por uma «revolução» sem substância. Isto traduz a ignorância letal do país de agora. Tal como na Última Ceia, a dúvida da consubstanciação: a salvação está no Estado ou os governantes é que o salvarão? Até sabermos, que a ceia de amanhã… não seja a última.
Mário Cunha | Advogado
As legislativas 2015 ficam marcadas, podendo não o parecer, pela derrota da coligação PSD/CDS que, no seu conjunto, perde cerca de 30 deputados. Já o Partido Socialista, apesar da progressão eleitoral, ficou muito aquém das expectativas, com Costa a poder esperar tempos atribulados pela frente. A vitória foi, assim, à esquerda do PS, com a CDU a aumentar ligeiramente a sua percentagem de votos e a sua representação parlamentar e com o Bloco de Esquerda a mais que duplicar o número de deputados, contrariando as sondagens e cativando, provavelmente, parte do eleitorado descontente que, noutras circunstâncias, votaria PS. Também o PAN surpreendeu ao ser o único dos partidos ditos «pequenos» a eleger pela primeira vez um deputado. Quanto a alianças de governo, tudo está em aberto. Apesar do número de votos na Coligação, há uma maioria de esquerda (se contarmos com o PS) no Parlamento. O PS não conseguirá governar sozinho e a questão agora é se irá violar o que prometeu em campanha. Ou se procurará à esquerda os consensos necessários para garantir a estabilidade que lhe permita governar.
Miriam Tavares | Professora universitária
O resultado das eleições… preferia escrever outro texto. Preferia dizer que os portugueses escolheram novos caminhos. Mas não foi este o texto que me foi permitido escrever. Porque uma vez mais, conscientes ou não, escolheram não votar ou votar na continuação do desastre que nos empurra em direção ao abismo. Se há algo de elogiável no atual governo é a sua capacidade de destruição. Entre muitas outras coisas, destruíram o principal mecanismo que forma cidadãos: o Ensino. Através de palavras de ordem, da adoção cega de normas europeias espúrias, de um desejo novo-rico e inculto de transformar Portugal num país pró-ativo, deram cabo da capacidade de florescer um pensamento divergente. Quem não quer alcançar a excelência? Todos apostaram numa retórica oca e vamos todos pagar, muito caro, por isto. Há, no entanto, uma esperança: a esquerda pode, se assim o quiser, avançar unida em prol do bem comum. E espero que isto aconteça, porque queria estar a escrever outro texto. Não este que lamenta, profundamente, a escolha conservadora, e suicida, de um país.
Nuno Manjua | Enfermeiro e dirigente sindical
Inacreditável! Este resultado eleitoral não é coerente com os últimos quatro anos de empobrecimento, emagrecimento de serviços públicos, desemprego, fome, desalojamentos, insolvências, emigração… tudo em nome de uma dívida pública que não para de crescer, mas para salvar bancos e não pessoas. Que mundo parvo, este! As manifestações populares não se traduziram em votos e da revolta não se fez vontade. Que se passa com a nossa gente? E agora, quem chamará Cavaco Silva a formar governo? A abstenção, já que foi a grande vencedora das eleições? Até isso é incompreensível. Para aqueles que dizem que são sempre os mesmos a governar, acabaram de perder, na história da democracia portuguesa uma oportunidade de escolher. Mas preferiram não ir votar. A única posição que marcaram é a que está à vista. Infelizmente, não me parece que o Presidente da República vá chamar os abstencionistas a governar. O que nos leva à Coligação PàF, que governará viabilizada pelo Partido Socialista, por falta de entendimento da esquerda, até o PS achar que tem condições para ganhar as eleições.
Paulo Cunha | Professor de música
Depois de uma noite de eleições legislativas em que a grande vencedora foi, uma vez mais, a abstenção, assistimos à passagem do «furacão Catarina» que catapultou o Bloco de Esquerda para algum conforto interventivo e negocial na legislatura que se avizinha. Mas foram os partidos pequenos os grandes perdedores, porque de pequenos, mais uma vez, não passaram. Por mais que se esmiúce quais as razões que levaram a coligação a perder a maioria absoluta, e os socialistas a perderem as eleições, tudo se resume à memória da última década. Talvez tenha sido o mote para a metade de Portugal, que chamou a si a enorme responsabilidade de votar. Sem grandes flutuações, mas o suficiente para provocar um rumo renovado. A sul, o Algarve mostrou ser fiel a quem já conhece e tem obra feita. Foi nisso que o PS, CDU e Bloco de Esquerda apostaram, e fizeram bem. Ao contrário da Coligação que relegou para segundo lugar um deputado que merecia outro destaque, trazendo para a sua lista os habituais «paraquedistas». Fica a lição! Os nove deputados eleitos serão os depositários da nossa especial atenção.