Visualforma tem cada vez mais procura para sistemas com novos algoritmos de inteligência artificial para smart cities, em domínios que vão da gestão de regas, à iluminação pública e recolha de resíduos.
Nos últimos 14 anos, a Visualforma – Tecnologias de Informação, S.A., com sede em Faro, teve nove projetos apoiados por fundos europeus.
No total, segundo Leonel Ruivo, diretor financeiro, estes nove projetos implicaram um investimento por parte da empresa na ordem dos 4,52 milhões de euros, sendo que deste investimento total constituiu investimento elegível aprovado para a concessão de incentivos um montante parcelar de 3,56 milhões de euros, que justificou a atribuição até presente data de 1,60 milhões de euros a título de incentivos financeiros.
«Todos estes apoios têm sido fundamentais na agilidade e no encurtar da janela temporal em que a empresa atinge patamares de eficiência e de escalabilidade da sua operação», descreve e aponta como exemplo pragmático, o último projeto no âmbito do Programa de Apoio à Produção Nacional (PAPN).
«Estávamos particularmente expostos às oscilações do preço da eletricidade, porque, em 2018, aderimos à tarifa indexada ao mercado ibérico de energia. E depois, como sabemos, em meados do primeiro semestre de 2021, houve uma escalada intensiva dos custos energéticos. Para uma empresa que tem um datacenter que consome energia 24 sobre 24 horas, a fatura mensal mais que triplicou e estava a criar-nos um problema estrutural», revela. «Em boa hora submetemos uma candidatura que foi absolutamente estratégica, pois no final desse ano estávamos com encargos mensais de energia na ordem dos nove mil euros».
O PAPN permitiu a instalação de uma central fotovoltaica de microprodução para autoconsumo, com 196 painéis, que hoje gera cerca de um terço dos consumos, que rondam 1 Megawatt (MW) diário. Permitiu também desenvolver uma componente de ventilação e renovação do ar ambiente com recuperação de energia, de forma a minimizar o uso do ar condicionado na sede, onde chegam a trabalhar cerca de 150 pessoas. Mas, mais importante ainda, deu oportunidade à Visualforma de introduzir e desenvolver novas ferramentas de gestão interna, que segundo o diretor de operações Humberto Bento, «está a permitir-nos crescer» para uma faturação que superou os 10 milhões de euros em 2022. Ou seja, contratou a implementação de uma solução de Business Intelligence que centraliza toda a informação existente na empresa, baseado no software Power BI da Microsoft.
«Costumo dizer que foi a ferramenta da COVID, porque durante a pandemia, passámos menos tempo fora e isso permitiu-nos dar-lhe uma alavancagem muito grande. Hoje estamos a colher enormes frutos no nosso dia a dia. O nosso BI vai buscar dados a todos os sistemas que as várias equipas usam. Tem oito rotinas diárias de atualização de dados, o que permite ter sempre de forma continuada a informação atualizada e disponível», descreve. Tudo começou com uma base de 10 a 20 dashboards.
«Depois, continuamos a evoluir a plataforma. Ganhámos know-how e hoje dá-nos três vezes mais informação que no início. Também nos permitiu implementar um sistema de incentivos aos nossos colaboradores, com complementos salariais em função das metas atingidas. Este é um trabalho contínuo e que envolve as pessoas como um todo», sublinha.
Três áreas de negócio
A linguagem de programação Visual Basic emprestou o primeiro nome à empresa, fundada pelo empreendedor Luís Ferrinho em 1995, à qual juntou a palavra formação, neste caso focada nas novas tecnologias da informática que começavam a massificar-se.
«Esta empresa nasceu para desenvolver software. Na altura, começava o boom da informatização e ele já tinha uma visão. A verdade é que o nosso ADN é muito mais o de criar coisas próprias do que vender produtos de outros», recorda Humberto Bento.
«A Visualforma está muito ligada às infraestruturas TI (datacenters, redes, wi-fi, segurança de dados e sistemas, centros de recuperação de desastre/disaster recovery, etc) e isso ainda tem um peso grande na nossa atividade, pois temos muitos anos de mercado e muitas entidades trabalham conosco», explica. Essa vertente está consolidada, assim como a componente de desenvolvimento de soluções próprias, sobretudo a solução «Autarquia 360» vocacionada para as plataformas de comunicação online de entidades como municípios, empresas municipais e juntas de freguesia. Uma solução que está hoje presente em municípios de norte a sul do país.
Outra área de negócio tem a ver com o datacenter próprio que a empresa construiu em 2017 e que suporta toda a atividade da empresa e seus parceiros, como a Omnibees, além disso, «temos alojadas as plataformas digitais de municípios e de várias outras entidades». Temos ainda cerca de 300 Terabytes de informação de clientes (backups/cópias de segurança). Em relação ao rácio de crescimento, possivelmente, vamos dotar a nossa capacidade de alojamento ainda este ano para cerca de 1 Petabyte», estima.
Toda a área da cibersegurança também está em forte crescimento, mas Humberto Bento aponta o nicho das smart cities como algo que «começou devagar, mas hoje está completamente a ferver».
Da academia à realidade
«Há poucos anos que se começa a falar em cidades inteligentes, e ainda tudo é muito académico. A quantidade de empresas que implementam sistemas ainda são poucas» e também há dificuldades nas cadeias de produção de hardware especializado, mas o futuro da Visualforma passa, sem dúvida, por aí. «Sim, é um eixo estratégico. Pela dimensão dos projetos, em termos de volume de negócio, já é uma área com um peso muito importante. E creio que este ano, a tendência é para crescer». «Há muita coisa a acontecer em termos de protótipos e provas de conceito», garante.
Um exemplo é o Green Spaces SMART Irrigation Control (GSSIC) que está a ser desenvolvido com o apoio de fundos europeus, desde novembro de 2020 e que junta as empresas Visualforma e Itelmatis à Universidade do Algarve (UAlg). O projeto, que tem estado a ser testado no concelho de Loulé, ficará concluído a 30 de junho, com a apresentação final dos resultados.
«Temos vindo a recolher dados no terreno para alimentar os algoritmos de otimização das regas que dará origem a um módulo de inteligência artificial e de machine learning. Esse produto vai entrar no mercado e acredito que vai ser um sucesso e ter muita penetração», sublinha o diretor de operações. Este tipo de soluções utiliza o protocolo LoRaWAN (Long Range Wide Area Network), de comunicação de dados via rádio, no qual a Visualforma já tem experiência.
«Temos um projeto com uma outra empresa parceira no âmbito da recolha de resíduos urbanos, sejam normais ou seletivos. Abrange várias subáreas, e pormenores como balanças incorporadas nos camiões que enviam as pesagens da carga que transportam, para que seja possível faturar o peso logo à entrega no centro de processamento. E também a instalação de sensores volumétricos nos contentores para ajudar a estabelecer rotas inteligentes diárias, de forma a que as equipas só recolham os pontos assinalados pelo sistema. Isto é possível parametrizar, por exemplo, conforme a densidade populacional existente a cada momento em cada local. No período de inverno, apenas se recolhem os contentores com mais de 50 por cento. No verão, com a pressão do turismo, por exemplo, recolhem-se os que têm mais de 30 por cento», exemplifica.
«Temos provas de conceito em vários locais de norte a sul do país. Num dos casos já implementados na Zona Metropolitana de Lisboa, temos um projeto resultou numa redução de 14 para nove camiões de lixo em circulação diária. Portanto, menos cinco camiões é uma poupança anual bastante elevada» em custos operacionais. «Fechamos um protocolo recentemente com um dos principais fabricantes mundiais de contadores inteligentes de água e já temos em curso alguns projetos piloto».
Ordem para desacelerar
Segundo Leonel Ruivo, «em junho de 2009, quando criámos o núcleo de investigação e desenvolvimento tecnológico, houve mudança em termos da atividade da empresa. Começou com três pessoas e passados dois anos já empregava 30 colaboradores. Estávamos numa crise financeira e era objetivo do Luís Ferrinho diferenciar a oferta comercial e acréscimo de valor para os clientes. Seguiram-se anos de grande investimento em projetos (I&DT) cujo grande foco foi o projeto Protur (atual Omnibees)».
Hoje, tanto o diretor financeiro como o diretor de operações elogiam o desenvolvimento recente do BI, porque «em comparação com o volume de trabalho que tínhamos em 2018, seria um ato de loucura gerir o nosso dia a dia sem ter as ferramentas que nos dão uma visão de tudo aquilo que temos implementado. Apesar de estarmos dentro daquilo que é o espetro das PME, costumo dizer que temos os meios de uma organização muito maior», diz Humberto Bento.
E exemplifica: «um gestor de conta, numa reunião com um cliente, abre um dashboard e consegue ver as oportunidades em aberto, as que foram perdidas e porque motivos, os tickets em aberto ou já concluídos, os contratos e as garantias que estão a expirar. É um poder incrível» que é valorizado pelos interlocutores. «Desta forma conseguimos fazer um diagnóstico, um planeamento com os clientes e ser muito assertivos. No fundo, é o que fazemos nas smart cities: criámos algoritmos de análise e decisão rápida» com a informação interna.
Em relação ao próximo quadro Algarve 2030, «vamos ficar atentos à abertura de avisos que sejam favoráveis. O I&DT poderá vir a fazer sentido de novo, mas terá de ser algo em que tenhamos uma visão e uma estratégia muito clara e direcionada para o que queremos fazer. Porque o acompanhamento, a gestão e a operacionalização dos projetos também têm um grande impacto. A tendência é para desacelerar. Agora, não vamos tirar valor a algo que nos tem ajudado e que nos ajudou a chegar onde estamos. Vamos é ser mais seletivos», garante.
Em relação ao Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), «vamos estar sempre muito atentos. Os nossos clientes são muito consumidores de apoios comunitários para a execução de projetos em que estamos nós próprios envolvidos». Por exemplo, «estamos muito empenhados na elaboração de desenhos tecnológicos para alguns avisos já abertos, como os Bairros Comerciais Digitais» a nível nacional, sendo candidatos no Algarve a esta medida do PRR, alguns municípios.
Ainda assim, os gestores gostavam de ter apoios à mobilidade. «Somos uma empresa tecnológica da periferia sul do país, de referência neste sector, e que tem o pressuposto e a intenção de ter uma verdadeira implementação nacional. Temos equipas multidisciplinares, com administradores de sistemas, especialistas da parte da infraestrutura tecnológica, programadores e engenheiros informáticos na área de adequação e desenvolvimento de soluções. Por vezes, temos a necessidade de juntar todas estas sinergias e deslocar várias pessoas em simultâneo», diz Leonel Ruivo, que ambiciona ter toda a frota com automóveis 100 por cento elétricos. Para já, do parque de 20 viaturas, apenas quatro são amigas do ambiente, o que implica uma taxa atual de 20 por cento na eletrificação da frota da empresa.

Omnibees, um caso de sucesso
A Omnibees (que inicialmente se chamou Protur) é um produto criado dentro da Visualforma, recorrendo a fundos europeus. «Basicamente, é um midleware que está entre o Property Management System (PMS) de um hotel e todas as plataformas online de reservas», explica Humberto Bento, diretor de operações. «Numa fase final, de comercialização, teve uma operação de rebranding e passou a chamar-se Omnibees», acrescenta. Dito de forma simples, é uma ferramenta para ajudar os hoteleiros na distribuição para plataformas como a Booking ou Expedia, assim como para operadores turísticos e agências de viagens online.
«Cresceu muito e já nem temos a noção de tudo o que faz», diz. Em 2017, começou a ganhar a estrutura para ser independente e posteriormente deu-se o spin-off que encontrou sucesso na moderna indústria hoteleira. Hoje tem cerca de 500 colaboradores. «Este produto tem uma grande receptividade no mercado porque havia um esforço muito grande em afetação de recursos dentro dos hotéis para carregar manualmente conteúdos nas múltiplas entidades e diferentes plataformas e canais de distribuição. Conseguiu, de forma fácil, dar muito mais locais de publicitação e orientação da oferta para diferentes perfis de utilizadores, assim como fazer a diferenciação de preços. O último I&DT que fizemos foi o Profiler Rate Optimizer, dedicado aos perfis de utilizador (lazer ou negócios)», recorda. Luís Ferrinho acabou por se dedicar na totalidade a este software e mudou-se para a América Latina. Embora se mantenha sócio maioritário, delegou a administração da Visualforma, passando o conselho de administração da empresa a ser constituído por três administradores, Cláudio Martins, Humberto Bento e Leonel Ruivo, em janeiro de 2018.

