
É inevitável voltar a Mário Soares, um homem marcante que ajudou a definir o Portugal livre, democrático e europeu em que vivemos. Mas o Portugal de Soares foi também um país que fugiu às suas responsabilidades ultramarinas, preferindo assumir uma influência quase nula no que ao futuro das nossas ex-colónias diria respeito, por razões de agenda revolucionária. Negativa foi igualmente a marca deixada nos colonos portugueses, após um processo de descolonização traumático para tantos, e que se estuda lá fora como um exemplo a não seguir. Façamos como a generalidade dos historiadores contemporâneos e guardemos, para já, as memórias boas. Lembremos o sucesso nas negociações de adesão de Portugal à CEE e lembremos, por exemplo, um outro momento central da história que leva a assinatura de Soares e que não tem merecido a menção de rigorosamente ninguém.
Falo da recusa de Soares, já Presidente da República, em empossar uma coligação PS/PRD, após triunfo da moção de censura que fez cair o primeiro governo de Cavaco Silva em 1987. A esta aliança de circunstância apoiada pelos comunistas (uma manta de retalhos ideológica que os dicionários modernos consagraram como «geringonça»), Soares disse desassombradamente não! Preferiu convocar eleições e abrir espaço para a afirmação de uma nova maioria, que deu corpo ao mais significativo projeto de desenvolvimento do Portugal democrático.
Foi também indiscutível o papel de Mário Soares como lutador pelas liberdades. Durante o Estado Novo foi preso, perseguido e conheceu as agruras do exílio. «Medalhas» que, de resto, soube exibir com vantagem no frente–a-frente televisivo com Freitas do Amaral, para as Presidenciais de 1986 que venceu «por um Estádio da Luz». No entanto, a sua principal obra política chegaria após o 11 de março de 1975. Nessa altura ganhava terreno a visão marxista-leninista de regime democrático. Uma democracia popular em que o Estado se substitui gradualmente a toda a sociedade civil, parindo um totalitarismo. Mário Soares, Melo Antunes e outros mais, travaram essa batalha e obtiveram sucesso. Mesmo quando «esses paranóicos», como lhes chamou Soares no famoso comício da Fonte Luminosa, montaram barricadas nos bairros, cercaram cidades e paralisaram o país.
É dele a liderança no processo de desmantelamento do Gonçalvismo. Foi uma obra de vulto que permitiu o estabelecimento das liberdades e a garantia dos direitos de cidadania. Pena é que o culto do politicamente correto, que Soares tanto combateu e uma conveniência política de circunstância, levem muitos hoje a amputar a história desses factos tão relevantes. Se Soares foi fixe, foi-o em todo o seu percurso e não apenas nos momentos que nos são convenientes.
Opinião de Henrique Gomes, licenciado em Relações Internacionais e Secretário-Geral do PSD/Faro.