Olhar para o fenómeno da desertificação na região do Algarve é, acima de tudo, focarmo-nos em muito do que se passa em territórios de clima seco e quente, solos depauperados, com escassez de água, com sistemas agrários multifuncionais degradados, com baixo nível de retorno do capital investido e, na maior parte dos casos, não viáveis sem o suporte de políticas públicas. Mas é, também, percebermos que a erosão destes territórios não é só física, mas também humana.
O nordeste algarvio é, certamente, onde estes fenómenos ganham maior amplitude. É aqui que deve estar a nossa maior atenção. Perceber a articulação nos territórios de fronteira, a sul o perímetro de rega do sotavento algarvio, onde a intensificação agrícola se não for sustentável pode levar a perda de qualidade dos solos, a oeste o caldeirão, área de sobreiral, com reincidência em grandes fogos, outro fator de fragilidade para os ecossistemas, a norte, a serra de Mértola e para lá do Guadiana terras de Andaluzia, onde a situação é em tudo análoga: o risco de termos um deserto à nossa porta é real.
É certo que a sensibilidade para o problema é maior. No programa de desenvolvimento rural (PDR2020) passaram de 5 para 20 por cento os fundos cujos critérios de seleção têm como condicionalidade o combate à desertificação. Mas ainda de forma ambígua, pois as medidas de apoio às atividades agrícolas e florestais intensivas estão fora deste objetivo. Não estamos, pois, perante uma prioridade transversal.
O Plano Intermunicipal Algarve 2020 introduz um conceito interessante, várias vezes repetido, mas pouco praticado, da necessidade de uma intervenção integrada de combate à desertificação. Na concretização, refere apenas o papel dos municípios no reforço da defesa da floresta contra incêndios. Claro que há depois uma série de outros contributos, nomeadamente para a fixação de populações, que podem ajudar. Mas não há nenhum programa integrado, nem nenhuma estratégia coordenada nesse sentido.
É preciso passar da sensibilidade à prioridade. Para isso é preciso dar visibilidade ao problema. Desenvolver projetos de referência, envolvendo empresas, universidades, associações e administrações, para reconverter e melhorar o espaço agroflorestal, para investir mais na componente pecuária, para recuperar a atividade cinegética, para lançar um programa ambiental que valorize territórios, produções e produtos, como por exemplo a biomassa e os sobrantes da floresta de pinhal. Criar marcas e capital simbólico. Agarrar o Guadiana.
Voltarmos a ter a noção do custo do abandono do interior. Tudo isso é importante. Mas não chega. Só a perceção de que esta causa é de todos (dos que vivem na cidade e dos que nos visitam, das pessoas, das empresas e das instituições da região), pode criar o movimento social e político capaz de travar este processo, que embora silencioso, está cada vez mais próximo. O deserto pode mesmo ser para esta geração. Por isso somos responsáveis. É preciso agir.
Opinião de Miguel Freitas | Professor universitário