«O posicionamento de Portugal no mercado estrangeiro depende muito da nossa imagem lá fora», defendeu Luís Laginha de Sousa, presidente da Euronext Lisbon, no painel dedicado ao “Financiamento para o crescimento”, que preencheu a tarde de trabalho do IV Fórum Internacional do Algarve. O debate foi moderado por Luís Ferreira Lopes, editor de Economia SIC/SIC Notícias, e contou ainda com as intervenções de José Maria Ricciardi, CEO do Haitong Bank, Francisco de Lacerda, chairman e CEO dos CTT – Correios de Portugal, S.A., Luís Magalhães, head of tax da KPMG, e José Miguel Gomes da Costa, presidente do Conselho de Administração da COSEC.
O debate centrou-se na necessidade de recorrer ao financiamento externo para fazer crescer as empresas portuguesas, já que todos concordaram não haver capital suficiente em Portugal para esse efeito, além de defenderem igualmente a necessidade de diversificar as fontes de financiamento, principalmente aquelas alternativas à banca. «As notícias negativas têm sido algumas», recordou Luís Laginha de Sousa, não impedindo, no entanto, «que tenham existido algumas positivas, claro». «O mercado português está hoje perfeitamente integrado, e esse é um aspeto muito positivo», afirmou.
Vitor Gonçalves, professor de Gestão do ISEG, fez a abertura do painel, avançando um enquadramento que abordou o “Crescimento Económico em Portugal”. Começando pelo porquê do crescimento económico como desígnio dos países, Vitor Gonçalves salientou a necessidade de incrementar a competitividade e apostar no investimento – e não no consumo interno. No entanto, Portugal terá de ultrapassar algumas dificuldades: concorrência das economias emergentes, crescimento para fora da Europa, desemprego, estagnação da economia, diversificação das exportações, e a necessidade de um ambiente institucional mais favorável e de maior capacidade empresarial.
A melhoria da produtividade, a diversificação de empresas e a criação de valor, a promoção do desenvolvimento, e a estabilização do financiamento foram outros dos fatores apresentados por Vitor Gonçalves para potenciar o crescimento económico, limitado atualmente, e num futuro a médio prazo, pelo elevado nível de endividamento das empresas e pela dificuldade na obtenção de crédito bancário. Para o professor é fundamental haver consenso político e social, metas credíveis e novas formas de financiamento, que venham representar alternativas ao financiamento bancário.
Partindo da apresentação de Vitor Gonçalves, e relativamente ao “estado da arte” da economia nacional, José Maria Ricciardi apontou alguns sinais positivos, como a queda do desemprego, as taxas de juro relativamente baixas, e algum crescimento positivo. Quanto aos aspetos negativos, apontou a dívida global, pública e privada, na ordem dos 350% do PIB, a excessiva fragmentação empresarial (89% das empresas nacionais são microempresas), com fraco capital, que precisa de sofrer uma restruturação, e a grande dependência das importações e as fracas exortações – apenas 30% das empresas exportam, entre outros aspetos.
Luís Laginha de Sousa salientou o papel do mercado de capitais, e a necessidade de aproveitar as oportunidades, principalmente aquelas que surgem no exterior, para financiamento. Como boas práticas, apontou a situação chinesa, cujo mercado de capitais aumentou de 0% para 50% entre 1988 e 2015.
O chairman dos CTT, Francisco de Lacerda, chamou a atenção para as 25.000 novas empresas criadas, principalmente start-ups, com grande capacidade de crescimento e afirmação nacional e internacional. Este tipo de empresas criou metade do número de empregos criados no último ano, uma área com muita dinâmica em Portugal, e que merece uma especial atenção. De qualquer forma, referiu, não existe em Portugal capital suficiente para financiar as empresas portuguesas, daí a necessidade de angariar capital no exterior, nomeadamente através do mercado de capitais.
Luís Magalhães, desafiado por Luís Ferreira Lopes, abordou a estratégia Portugal 2020, referindo, em primeiro lugar, a falta de coerência entre as políticas fiscais e as políticas económicas. Faltou nos últimos anos a atração de capital estrangeiro para Portugal, o que prejudicou, naturalmente, o crescimento. Já José Miguel Gomes da Costa salientou os aspetos macroeconómicos, e referiu em concreto a involução do comércio internacional – que este ano crescerá apenas 1%, e que acompanha apenas o crescimento do produto, e não na racionalidade de 2/1 como há uns anos.
Pegando precisamente na temática do comércio internacional, e do desafio de conseguir um posicionamento face ao investimento estrangeiro, José Maria Ricciardi afirmou que a situação terá melhorado um pouco nos últimos anos, no que respeita, por exemplo, à desburocratização e à estabilidade fiscal. «Fomos o quarto país da União Europeia com maior financiamento chinês em 2014, e este é um aspeto fundamental, porque, para nós, é absolutamente fundamental que o investimento estrangeiro continue», salientou, a par da formação de jovens empreendedores capazes.