
A obra, com o título «Os Bichinhes Algarvies», terá ilustrações de Isabel Avó, artista já conhecida daquela chancela, e do filho Gonçalo, que dá o toque da criatividade natural e inocente do imaginário infantil. A história, sobre a fauna da região, tem ainda a particularidade de surgir nas páginas em português corrente (sem sotaque) e em inglês, para vencer ainda mais barreiras linguísticas.
Questionado sobre se faz sentido falar em «dialeto algarvio», Sérgio Brito admite que «essa questão é polémica desde o início». Quando lançou em 2012 o primeiro livro totalmente em algarvio, «Duas histórias no Algarve», que marcou a estreia da «Arandis Editora», e até hoje, o seu maior sucesso (mais de 10 mil exemplares vendidos e nove reedições), Sérgio Brito já esperava as mais variadas críticas, o que acabou por acontecer. «Mas depois de explicar às pessoas a necessidade de preservar este património imaterial, comecei a ter o apoio de muita gente ligada às letras, que se tem mantido assim até hoje».
Na verdade, «o dialeto algarvio tem uma estrutura muito própria, já estudada, eu não inventei nada de novo. Temos como contributos os estudos da professora Maria Alice Fernandes, as recolhas de vários autores como por exemplo o professor Estanco Louro na sua monografia O livro de Alportel, o conhecidíssimo dicionário do falar algarvio do Professor Eduardo Brazão Gonçalves, entre tantos outros, são documentos valiosíssimos, pois são estes que conservam as palavras, expressões e modos de falar do dialeto. Durante séculos, o isolamento do Algarve permitiu que se conservasse este falar. Com a globalização e a crescente literacia, a televisão, os jornais, ou seja, a comunicação que felizmente nos é proporcionada hoje em dia, constitui uma aculturação pelo português padrão. Por isso considero que como bem imaterial, o dialeto deve ser preservado na forma escrita para memória futura».
«A minha prestação e onde posso ter feito maior trabalho, foi na divulgação e na ousadia positiva de editar um livro todo em dialeto algarvio. Parecia-me haver vergonha de falar algarvio». Ainda assim, reconhece que há muitas variantes fonéticas, de Portimão para Faro, de Monchique para Olhão.
«Sim, e não é fácil resolver essas diferenças. Eu digo que marafade se escreve de determinada forma, e quando o faço é para tentar apanhar a oralidade. Em Vila Real de Santo António dizemos de uma forma, em Albufeira de outra. Eu tento pegar na forma mais comum, as variações sonoras são visíveis, por exemplo em Lagos, Alvor, Portimão e Aljezur. O vocabulário é comum, mas as fonéticas são diferentes. Em Monchique existem palavras que não se usam noutros pontos do Algarve. É muito difícil padronizar. O que eu quis, essencialmente, foi tirar a vergonha das pessoas sobre o dialeto algarvio».

Ainda assim, o autor reconhece progressos. «Acho que tem havido um desenvolvimento nesse sentido. Hoje existem pastelarias, restaurantes e mercearias que começam a apresentar os seus produtos com o dialeto algarvio, ou pelo menos, esboçam uma tentativa de o representar. Eu tentei padronizar alguma forma fonética na escrita, e isso poderá levar a diversas interpretações. Mas há uma mudança de mentalidades, uma abertura. Por exemplo, o humorista Môce dum Cabréste, tem contribuído muito para isso. Tem uma fonética extraordinária, adoro ouvi-lo a falar. Portimão é uma bolsa de resistência do falar algarvio, e do próprio vocabulário, que não se verifica por exemplo em Albufeira. Olhão também mantém muito o algarvio. Eu quando defendo esta costela regionalista não o faço de forma bacoca, faço-o com a abertura de admitir que algarvios são todos os que gostam desta região», conclui.
Além de escritor e editor, Sérgio Brito criou um grupo chamado «Fássebuque Algarvie» na rede social facebook, com cerca de 10 mil membros, sobre temas de cultura regional.
A apresentação de «Os Bichinhes Algarvies» está agendada para sábado, dia 16 de fevereiro às 17 horas na Biblioteca Municipal Lídia Jorge, em Albufeira, e já pode ser encomendado online.