Produção controlada de Salicórnia em Portimão está mais estável após anos de aprendizagem. Presente e futuro são promissores.
Muitas vezes procuramos longe os produtos que mais gostamos mas, neste caso, não é necessário porque existe salicórnia «suculenta e crocante» a crescer por perto. Tanto em estufa como a céu aberto, esta planta salgada e comestível está a ser cultivada na zona da Figueira, no concelho de Portimão.
Tudo começou em 2016, ano em que a Salivitae foi criada e materializou as ideias de Ricardo Coelho, um dos fundadores da empresa. Desde então a salicórnia portuguesa, tanto fresca como desidratada (sal verde), viaja além-fronteiras e é comercializada por toda a Europa.

De momento, a área das estufas da empresa é de 4400 metros quadrados (m²) e a área de produção em espaço aberto de 1,8 hectares, com vista à expansão de forma a aumentar as 25 toneladas anuais que produz. Este ano, foram aprovados dois projetos que permitem aumentar, de forma considerável, a área produtiva que contará com uma nova estufa de 4000 m².
No entanto, esta não é a única novidade: a Salivitae está-se a transformar numa marca, com o apoio da empresa Gôndola d’Aventura, Lda e dos investidores Erik de Vlieger e Jeroen Haen, que servirá de exemplo para a BioHub Portugal, da qual farão parte várias empresas do sector agroalimentar.
A ideia é que a BioHub Portugal seja reconhecida como um «centro global de excelência em Biosoluções», conectando «atores da terra ao prato, ou através de parcerias inovadoras, desde experiências até o lançamento no mercado, conservando e agregando valor à natureza e aos recursos naturais, especialmente espécies locais.
Alguns dos seus princípios são a valorização do património cultural local, de espécies naturais e do ecossistema e o apoio de ideias de novos produtos e negócios entre os membros, não sendo colocada de lado a hipótese do codesenvolvimento de experimentos de biosoluções com outras entidades.

Será também feito um investimento em novas tecnologias necessárias para permitir a experimentação e a bioprodução e promovida a colaboração internacional, sempre com «espírito empreendedor e processos ágeis» para que os projetos decorram com a maior rapidez possível.
«Crescer e replicar o que já existe, sempre com foco na inovação e diversificação» é o caminho que a empresa, produtora de aproximadamente 25 toneladas por ano de salicórnia, pretende percorrer após anos de aprendizagem que se refletem no sucesso da empresa. A Salivitae exporta cerca de 98 por cento da salicórnia produzida na aldeia da Figueira, maioritariamente para a Holanda, seguindo-se de Inglaterra, Alemanha e Espanha, e a que cá fica é servida em vários restaurantes da região, entre os quais o Faina (em Portimão), Numa, Ribeira (ambos em Alvor), e Chácháchá (em Olhão).

Ciente de que o leque de produções halófitas é enorme, Ricardo tem uma perspectiva muito positiva quanto ao futuro, prevendo um aumento da equipa e novidades em breve. «Queremos crescer muito porque a produção fresca só faz sentido se for em massa assim como a produção desidratada», revelou Ricardo ao barlavento ao acrescentar que «a produção de complemento alimentar faz sentido também em massa».
Este é um alimento que pode ser consumido das mais variadas maneiras e possibilita que se salguem alimentos com uma adição de menos coloreto de sódio. Além das duas opções que atualmente a Salivitae oferece, vai também passar a disponibilizar pickles para os que gostam de um sabor mais ácido.
O seu consumo é aconselhado devido aos componentes como cálcio, magnésio, potássio e vitaminas antioxidantes que apresenta e por ser «muito mais saudável do que a flor de sal», esclareceu Ricardo Coelho ao revelar que a Salivitae tem outros produtos em desenvolvimento como o suplemento alimentar e diferentes fermentados para que todos possam desfrutar dos seus benefícios que são ainda desconhecidos por muitos.
A salicórnia ajuda de forma significativa na recuperação de doenças, contribuindo para a limpeza sanguínea através dos polifenóis que favorecem a reconstrução celular e afetam diretamente o sistema nervoso e o cardiovascular, de forma positiva.

Por exemplo, se for ingerido extrato da planta, o tempo de recuperação de alguém que teve um Acidente Vascular Cerebral (AVC) é reduzido em cerca de 70 por cento.
Já a nível neurológico, este alimento permite minimizar os efeitos de doenças degenerativas. No caso dos atletas, é igualmente bastante benéfico porque não só tem uma elevada componente proteica como auxilia a recuperação muscular.
Também para o meio ambiente a produção de salicórnia reúne vantagens como a promoção da redução do uso de água doce, o que se traduz na diminuição de recursos escassos; a capacidade de sequestrar CO2 atmosférico em grandes quantidades e ser integrante na natureza porque se reproduz perto de sapais e mantém uma economia da natureza ao mesmo tempo que reabilita solos abandonados – devido ao aumento da salinidade de forma natural.
Dois fatores fundamentais para a sua produção são a temperatura média entre 20 e 35 graus e a salinidade do solo adequada, dado que é uma planta dependente do sal e dá-se melhor em terrenos próximos do mar, condicionantes que foram previamente estudadas por Ricardo Coelho, que é biólogo licenciado na Universidade do Algarve (UAlg) com mestrado na Universidade de Plymouth, no Reino Unido.
O interesse que tem por plantas conjugado com a conexão que sente com o mar levaram a que não tivesse dúvidas no momento de escolher a área que queria seguir.
Quanto à ligação com a salicórnia, não foi imediata. Só no terceiro ano de licenciatura é que começou a estudar a otimização de produção de sal e, a partir daí, foi percebendo a fisiologia da planta.

Ainda que, na altura em que abraçou este projeto a informação existente fosse muito reduzida, essa adversidade nunca o parou, pelo contrário, fez com que pesquisasse mais e realizasse um levantamento dos terrenos no Algarve que poderiam servir para a produção desta planta halófita.
Livro «Halo Farms – Agricultura Halófita» explica como fazer
Em setembro de 2022, Ricardo lançou um livro em conjunto com Mauro Hilário e Hugo Mariano, o primeiro dedicado à produção halófita no Algarve, com o objetivo de chamar à atenção para as alterações na qualidade do solo, provocadas pelo aumento da salinidade e erosão, e escassez de água doce.
Estes fatores, que condicionam as produções agrícolas convencionais, podem ser combatidos com a produção de vegetação autóctone que tolera a presença de sal, proporcionando também um desenvolvimento financeiro, social e ambiental em zonas não produtivas, informa o «Halo Farms – Agricultura Halófita».
A escrita da obra impulsionou o levantamento dos terrenos na região, o que ajudou os produtores de salicórnia a projetar os próximos passos. «Trabalhamos com sistemas de informação digital, através de mapas disponibilizados pelas autarquias de Lagos, Portimão e Lagoa, que nos permitiu identificar os melhores terrenos na região para produção», explicou Ricardo.
No livro são ainda referidas diversas variedades da salicórnia e a potencialidade e a integração da produção no meio ambiente, distinguindo as plantas halófitas no sapal e produções adjacentes, fazendo uma previsão do futuro.