Estalou o verniz em Castro Marim, após uma quezília que já dura há dois anos, no pequeno concelho do Sotavento algarvio. Se Francisco Amaral poderia encontrar alguma oposição dos socialistas, a verdade é que essa oposição parte, afinal, do seio da concelhia do próprio partido, do qual é militante e eleito para a presidência de Câmara Municipal.
O caldo entornou-se, no sábado de madrugada, 1 de outubro, com o envio às redações de um comunicado da secção concelhia do PSD, a retirar a confiança política a Amaral. A decisão foi aprovada por unanimidade em reunião no dia 30.
Por sua vez, o médico autarca assegura que é candidato àquela autarquia em 2017, «com a confiança da distrital e da comissão nacional» social-democrata, e em declarações ao «barlavento» acrescenta que não está «preocupado com essa retirada de confiança política», pois trata-se de uma questão «meramente pessoal», ou seja, é uma iniciativa «do presidente da concelhia» do PSD.
A história culminou esta semana com esse documento da concelhia castromarinense, liderada por José Estevens, ex-presidente daquela Câmara Municipal, entre 1998 e 2013, que não se pôde recandidatar nessa altura devido à lei de limitação de mandatos.
Recordando os factos, em 2013, Francisco Amaral, que também não se poderia candidatar a Alcoutim, desceu para o litoral e candidatou-se a Castro Marim, com o aval do PSD local. E ganhou. José Estevens, por outro lado, candidatou-se a Tavira. E perdeu. Mais tarde, viria a ganhar a liderança da concelhia e a incompatibilizar-se com o autarca.
Agora, a um ano das eleições autárquicas de 2017, em comunicado, a secção concelhia põe as cartas na mesa e argumenta que «o PSD de Castro Marim acreditou que podia confiar a missão de continuar a revolução tranquila e decisiva para o futuro do concelho, iniciada em 1998 por José Estevens, a Francisco Amaral». O edil tinha «créditos» enquanto autarca de Alcoutim, havia mais de vinte anos, e médico. Passado três anos, a estrutura local «sente-se defraudada nas legítimas expetativas criadas e traída na confiança depositada no decano dos presidentes de câmara portugueses».
Para os sociais-democratas, desde que tomou posse, Amaral «adotou uma atitude de distanciamento e repulsa para com o PSD de Castro Marim, escusando-se a dialogar e a cooperar com o partido que sempre o apoiou». Segundo continua o relato, o autarca terá ignorado, inclusive, uma carta de Estevens, em fevereiro de 2015, onde este o advertia «para a deriva» que a governação do concelho estava a tomar e o alertava «para os avanços do Partido Socialista», que tem vindo a ganhar terreno.
Aliás, no comunicado, a concelhia refere que é com «mágoa e grande desalento que o PSD de Castro Marim, na defesa dos valores e dos princípios que norteiam a sua ação política em prol da comunidade castromarinense, retira a confiança política ao presidente da Câmara Municipal de Castro Marim, sob pena do partido ser politicamente devorado nas eleições autárquicas, já em 2017».
Ao «barlavento» Francisco Amaral assegura que não está preocupado, porque sente que tem «a confiança de quem é mais importante, que é o povo de Castro Marim, e, por outro lado» tem também «a confiança do órgão distrital e nacional do PSD». Até porque, é público, em declarações de Pedro Passos Coelho, líder social-democrata a nível nacional, e de Carlos Carreiras, coordenador nacional autárquico, que os atuais presidentes que estejam em condições de se recanditar, são candidatos apoiados pelo partido.
«Isto é uma questão pessoal. Isto é o ex-presidente da Câmara [José Estevens], presidente da concelhia, que quer voltar a candidatar-se. O vice-presidente da concelhia há cerca de um ano e meio que vai às Assembleias Municipais fazer intervenções de ataque pessoal ao presidente da Câmara. Portanto isto, para mim, não é admiração nenhuma» argumentou o edil, admitindo que já esperava esta situação.
Amaral defende-se ainda afirmando que, «nesse comunicado, há uma série de inverdades que estão subjacentes à intenção do presidente da concelhia». Questionado se avançará com alguma medida em relação a essas acusações, o médico apenas repetiu que não está «preocupado», auxiliando-se de um provérbio popular. «A verdade é como o azeite, vem sempre acima, mais cedo ou tarde», disse.
O autarca confidenciou ainda que há dois anos que recebe «cartas anónimas», sendo ainda alvo de perfis falsos na rede social facebook que o caluniam todos dias. «Costumo dizer que é terrorismo psicológico e político».
A secção refere ainda que Amaral «mandou às urtigas o programa eleitoral», que é responsável «pelos primeiros saneamentos políticos verificados no concelho de Castro Marim em 42 anos de democracia», com a «exoneração de cargos e funções de influentes dirigentes do PSD, que levianamente acusou de incompetentes», lê-se. Nomeou também a presidente da Junta de Freguesia de Altura, em novembro de 2015, eleita pelo PS, para adjunta do gabinete, «garantindo a maioria dos votos na Assembleia Municipal, que os castromarinenses lhe recusaram nas urnas». Até essa altura, o atual vice-presidente da concelhia ocupava esse cargo.
A concelhia termina o rol, acusando o médico autarca de desenvolver «uma campanha de intoxicação diária, junto do povo de Castro Marim, habilmente misturada com campanhas de desintoxicação tabágica, de combate à obesidade e de promoção pessoal nos órgãos de comunicação social à custa dos magros recursos financeiros do município».
«Tenho a consciência tranquila. Estou a fazer o melhor que posso e que sei, a fazer um bom trabalho que é reconhecido pela população», concluiu Francisco Amaral.
O «barlavento» ainda contactou o líder da distrital David Santos que se escusou a comentar esta situação, remetendo mais explicações para depois da próxima reunião desta estrutura.
Para já, fica uma garantia do atual presidente de Câmara. «Eu sou candidato pelo PSD» à Câmara Municipal nas próximas autárquicas de 2017. Com ou sem confiança política da concelhia…
Célia Brito candidata-se pelo PS a Castro Marim
A candidata pelo Partido Socialista à Câmara Municipal de Castro Marim será Célia Brito, tendo a decisão sido aprovada no sábado, 1 de outubro, na reunião da Comissão Política Concelhia. A proposta foi aprovada por unanimidade. A socialista tem 47 anos e é residente na freguesia de Altura, naquele concelho do Sotavento algarvio. É enfermeira especialista em saúde comunitária, e foi eleita vereadora da Câmara Municipal de Castro Marim, nas últimas eleições, cargo que acumula com a função de presidente da Comissão Política Concelhia de Castro Marim.