Concertos de jazz nas adegas de Silves, ouvir as estórias de contrabandistas em Alcoutim, celebrar a primavera literária de Faro, descobrir cidades utópicas em Loulé, fazer render o peixe em Portimão e por fim, lavrar o mar em Aljezur e Monchique, são algumas das 48 propostas de 37 entidades algarvias, para ver nos 16 concelhos da região ao abrigo do novo programa Algarve. Ao todo serão mais de 600 momentos culturais a acontecer entre outubro de 2016 e maio de 2017, dirigidos a turistas e residentes.
O terraço do Centro de Ciência Viva de Lagos foi o lugar escolhido para a apresentação desta iniciativa que pretende reduzir a sazonalidade através da uma oferta cultural diversa durante a baixa e média estação. Desta vez, contudo, «o objetivo é um programa feito por quem está no Algarve e não um programa artificial construído com papel e caneta», garantiu a secretária de Estado do Turismo, Ana Mendes Godinho, ao final da tarde de segunda-feira, 8 de agosto.
A apresentação contou ainda com a presença de Luís Filipe Castro Mendes, ministro da Cultura, Miguel Honrado, secretário de Estado da Cultura, Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal de Lagos, Desidério Silva, presidente da Região de Turismo do Algarve e Dália Paulo, na qualidade de Comissária do novo programa Algarve.
Turismo quer um «Algarve 365»
Coube a Ana Mendes Godinho sublinhar a importância estratégica do programa Algarve que surge numa altura em que «os números são bons. Estamos com crescimentos muito significativos no turismo. O Algarve está cheio. Portugal está na moda. Há uma crescente procura pelo nosso destino. De janeiro a julho desembarcaram mais de 300 mil pessoas em Faro. Na época baixa, este ano, o Algarve teve mais 500 mil dormidas. Quer dizer que a atividade turística está a correr bem. Mas é nestes momentos que temos de ser mais ambiciosos e mais exigentes», defendeu.
«Há muitos anos que ouvimos falar nos problemas de sazonalidade que o Algarve tem, e não há milagres», admitiu. «Mas há instrumentos e medidas para que se possam atenuar, e, cada vez mais, alargar os períodos da época alta, aumentado a shoulder season, garantindo que os restaurante e hotéis continuam abertos e continuam a criar emprego» depois do pico do verão.
«Temos andado a fazer um roadshow pelos principais mercados que procuram Portugal e os operadores têm-nos sinalizado, como principal preocupação, a falta de vida que existe no Algarve no inverno. Não há operador no estrangeiro com quem tenhamos falado que não nos sinalize a necessidade de mobilizarmos as forças locais e regionais para garantir que existe vida no Algarve durante todo o ano», justificou.
Assim, no passado dia 17 de junho, as secretarias de Estado do Turismo e Cultura, reuniram, em Faro, autarquias e agentes culturais da região, que foram desafiados a apresentar propostas até 8 de julho. Segundo a comissária Dália Paulo, para a construção de um «programa cultural de qualidade baseado na identidade do Algarve. Estudos recentes indicam que os turistas gostam de experienciar o autêntico, o genuíno, o diferenciador, o único. Temos tudo isso aqui, apesar de alguns preconceitos», frisou.
Com um um orçamento alocado de 1,5 milhões de euros, suportado na íntegra pelo Turismo de Portugal, «o grande objetivo é que durante 365 dias haja sempre qualquer coisa a acontecer. O Turismo de Portugal usará este programa como fator de promoção do Algarve no estrangeiro para demonstrar que é um sítio fantástico para passar férias, mas também para viver e trabalhar. Um programa de reposicionamento associado ao turismo de natureza e cultural, para mostrar um destino que é mais do que sol e praia», concluiu Ana Paula Godinho.
O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, elogiou «a construção de um tecido, de uma atividade comum entre autarquias, criadores locais e o Estado. Este projeto é exemplar porque, além de refletir a transversalidade com que este governo encara a cultura, na sua articulação com a economia, ambiente, educação e ciência, apela à descentralização e à criatividade que existe por toda esta região».
Desidério Silva satisfeito e com expetativa
No uso da palavra, Desidério Silva voltou a sublinhar que «o turismo algarvio tem que ter uma sustentabilidade durante todo o ano. Há que encontrar soluções para que a flutuação do número de turistas ao longo de todo o ano vá diminuindo progressivamente, e os números se mantenham mais uniformes».
O presidente gostaria de ver uma dinâmica diferente, em vez das «de termos taxas de ocupação de 100 por cento em julho e agosto e depois, taxas de ocupação de 20 a 25 por cento em janeiro e fevereiro», sublinhou.
«Todos sabemos que é uma missão difícil que estamos a fazer, mas não será uma missão impossível», considerou.
O presidente da RTA lembrou ainda que «o Algarve deve ser visto com um olhar diferenciador por parte de quem pode decidir e gerir políticas governativas. Este programa vem claramente ao encontro das necessidades da região e do país», disse.
Um Work in Progress disse Dália Paulo
Dália Paulo teve a missão de avaliar as propostas apresentadas «em tempo recorde» pelos vários agentes culturais e transformá-las num «programa articulado e apelativo».
«Em junho passado, o secretário de Estado da Cultura e o a secretária de Estado do Turismo lançaram um apelo aos agentes culturais do território, tendo nessa altura apresentado a moldura estratégico-conceptual do projeto que resultava da interseção das visões da cultura e do turismo como chaves para a concretização de um projeto de valorização artística e de promoção artística do Algarve, tendo como objetivo reduzir a sazonalidade nas épocas de baixa e média estação», explicou.
O programa Algarve, apesar de ainda não ser definitivo, «resulta pois, de convocar o território, os seus recursos endógenos, o património cultural e natural, os seus agentes culturais e criativos, aqui entendidos como a matéria-prima e o recurso para oferecer uma experiência única e diferenciadora, quer aos moradores, quer aos visitantes».
A comissária considerou que este foi um trabalho «exigente, forte e cheio de matizes», mas «procurou ter uma visão holística para dar coerência ao programa». «Na diversidade temática, há uma clara predominância da música, desde a erudita ao jazz, seguindo-se a animação do património, a dança e a criação de novos festivais. Julgamos vir a ter uma grande capacidade de atrair pessoas pela novidade e complementaridade da oferta. Temos 32 eventos novos, 12 eventos existentes qualificados e a reativação do Festival Internacional de Música do Algarve (FIMA), extinto em 2009, que é agora uma proposta da Orquestra Clássica do Sul». Segue-se uma nova fase para avaliar outras propostas, até 23 de agosto. O programa geral deverá estar pronto até 10 de setembro e está previsto um evento inaugural em outubro.
«Mandam os que cá estão» sublinhou Joaquina Matos
Joaquina Matos, presidente da Câmara Municipal de Lagos e anfitriã desta apresentação também se mostrou entusiasta. «Tenho a certeza que vamos ficar todos mais fortes, mais coesos e mais ricos, como uma região de facto. É um projeto que irá vingar porque é uma excelente semente. Tenho a certeza que vamos ter sucesso, o programa há-de crescer e florir para o futuro», afirmou aos presentes.
«Antigamente em Trás-os-Montes costumava-se dizer que para lá do Marão, governavam ou mandavam os que lá estão. E eu às vezes também penso que para cá do Caldeirão e do Espinhaço de Cão também mandam os que cá estão. E mandaremos todos melhor se de facto, os 16, nos unirmos e ganharmos força e cada vez mais escala. É este o sentido deste programa e é assim que o vejo», sublinhou a anfitrião, Joaquina Matos. «O Algarve está aqui muito bem representado em todo o potencial artístico que tem ,e penso que poderemos dar cartas», sublinhou.
Algarve bem escrito, mas com o «A» invertido e «R» cirílico

Dália Paulo, comissária do programa Algarve explicou que a identidade gráfica ainda está em estudo. É «um trabalho que está em progresso, desenhado pela empresa Parterns. Tem uma leitura e trabalho contemporâneo, uma matriz identitária mas não passadista. Uma marca que se pretende que seja, como a palavra Algarve, forte e que tenha na sua vertente cultural, múltiplas leituras, transformações, sensações e movimentos. Uma marca que ouse ficar connosco e que quando a vejamos possamos dizer: ali está o programa Algarve», referiu.
«Nas suas diferentes paletas cromáticas, do estudo que se está a fazer, apresenta-se um Algarve que nos indica movimento, inovação, criação, criatividade, diferença, tolerância, e acima de tudo nos remete para a ideia de confluência de pensamento e de lugar múltiplo», concluiu.
Descarregue aqui a apresentação preliminar oficial do programa Algarve.
Nove linhas programáticas
O programa Algarve está a ser construído com as propostas apresentadas pelos agentes culturais regionais. Desafiam visitantes e residentes na escuta, interação, criação, (re)descoberta, experiência e fruição do território em nove linhas programáticas.
1) Arte e paisagem
A paisagem como mote para a criação e reflexão do território. Destaque para o projeto de arte pública contemporânea «Outdoor» a acontecer de outubro de 2016 a março de 2017 em Loulé, Faro, Lagos e Alcoutim. criado e desenvolvido pela P28, em parceria com o CIAC, Fundação Sonnabend e Travessa da Ermida.
2) Festa e tradição
Convida a descobrir a cultura imaterial dos lugares. Destaque para o Festival do Contrabando, Contrabandarte, de 11 a 13 de março de 2017 em Alcoutim e de SanLucar. E para São Braz d’Alportel, 1914 – Uma viagem no tempo, marcada para 27 e 28 de maio de 2017.
3) Gentes que nos inspiram
Os territórios marcam os que nele nascem e habitam. Poderá celebrar o aniversário de Álvaro de Campos num festival multidisciplinar realizado por artistas de Tavira para homenagear este heterónimo criado por Fernando Pessoa em outubro. Entre março e maio de 2017, Faro celebra a Primavera Literária.
4) Música, espaços e paladares
Celebração da Dieta Mediterrânica. Em janeiro de 2017, Albufeira acolhe o Festival de Jazz Gourmet Moments pela Orquestra de Jazz do Algarve. Entre outubro de 2016 e março de 2017, as Adegas com Jazz em Silves unem a música improvisada ao vinho.
5) Música, espaços e tempos
A cultura sai à rua, praças e até espaços industriais. Destaque para o Ciclo Guitarras & Património entre outubro de 2016 e maio de 2017 nos espaços museológicos dos 16 concelhos algarvios pela Academia de Música de Lagos. Lagoa estreia o Festival Internacional de Piano do Algarve, em fevereiro de 2017.
6) Pensar o território
Propostas artísticas para uma nova visão para o território. O Festival encontros do DeVir – cidades utópicas trata a descaracterização de Faro, Loulé, Quarteira, Olhão e São Brás de Alportel. 32 criações (26 novas encomendas), 5 visitas guiadas, 3 exposições, 2 documentários, 1 workshop de fotografia e urbanismo.
7) Território e fronteiras
Perceber como a geografia (não) nos molda. Destaque para a Mostra Internacional de Cinema de Fronteiras, de 19 a 23 de outubro de 2016, pela Associação BACKUP e o Festival Internacional de Teatro de Vila Real de Santo António, entre março e abril de 2017, ambos naquela cidade.
8) Território e memória
Fusão entre o passado e o presente apresentam lugares mágicos e experiência inesperadas. Há Momentos Fantásticos com o Património – A Banda Bai, um projeto que liga as bandas filarmónicas aos museus, entre outubro e novembro de 2016 em Lagos e Silves.
9) Território, criação e transformação
Algarve é o ponto de partida para a criação contemporânea. De outubro a maio de 2017, o Museu de Portimão vai Fazer Render o peixe, celebrando os produtos do mar, ex-libris do Algarve. Aljezur e Monchique vão Lavrar o Mar, de novembro a maio, com a dupla Madalena Vitorino e Giacomo Scalisi.