Se a ponte é bonita ou feia, outros a julgarão. Mas um facto sei e afirmo: esta ponte da Praia de Faro, tal como está, não é para bicicletas!
Se a ponte é bonita ou feia, sobre a estética da ponte – outros a julgarão, até porque dizem que gostos não se discutem, se irá ou não resolver algum problema de acesso ou fluidez no trânsito na praia de Faro aguardemos pelo final do verão para essa avaliação, mas um facto sei e afirmo: esta ponte, tal como está, não é para bicicletas!
Este nosso concelho, que pretende afirmar-se como amigo da mobilidade suave e se quer integrar no conceito tão na moda que representa a cidade dos 15 minutos, é o mesmo concelho cuja principal ação é comemorar em setembro a Semana Europeia da Mobilidade com uma série de medidas temporárias:
- Gasta 7 milhões na remodelação de uma escola de um agrupamento com tradição em promoção da mobilidade ciclável, mas depois não pondera um parque coberto para as mais de 40 bicicletas que todos os dias levam alunos e professores para a escola, ou uma arrecadação para as mais de 20 bicicletas que tem para as aulas de educação física ou para o Projeto Desporto Escolar Sobre Rodas;
- Não tem zonas de coexistência onde a velocidade máxima é 20 km/h. Numa cidade com bairros como os da Penha, do Alto de Santo António ou Alto Rodes, automóveis, peões e bicicletas coexistem de forma não muito harmoniosa. Esta é a mesma cidade que obriga alunos e professores da Escola Secundária Tomás Cabreira que moram no Bom João, Alto de Santo António e Atalaia a entrar na Avenida 5 de Outubro, a fazer duas rotundas em hora de ponta, só porque se quis ganhar mais alguns lugares de estacionamento na rua da escola;
- Não tem lugares para as pessoas deixarem as suas bicicletas seguras à noite;
- Usar uma das poucas bicicletas partilhadas no concelho custa 5,20 euros por 15 minutos…
Neste concelho, dizia, foi construída uma ponte. O projeto foi pensado, teve várias versões. Cada versão foi mais cara e cada versão reduziu o espaço para bicicletas.
As normas de segurança dizem que faixas de utilização comum entre bicicletas e peões devem ser evitadas, especialmente em zonas de fluxos elevados, e não foram evitadas nessa ponte.
Essas normas dizem que as vias bidirecionais só para bicicletas devem ter 2,40 metros (m) de largura, a da ponte tem 2,30m e ainda tem de ser partilhada com os peões!
Como se não bastasse, essa faixa está sobrelevada em 15 centímetros (cm) em relação à via dos automóveis.
O que vai acontecer (e já começou a acontecer) é que os ciclistas vão entrar na Praia de Faro por essa via estreita, sobreelevada e partilhada com peões e vão regressar pela via automóvel.
No final da ponte têm duas opções: ou param e sobem o desnível de 15 cm para entrar no passadiço em madeira (correndo o risco de serem abalroados ou, no mínimo, de levar uma apitadela do automóvel de trás) ou seguem pela via automóvel até à «Rotunda do Caranguejo» (arriscando-se também a serem insultados e buzinados pelos automóveis que não os podem ultrapassar).
Esta ponte, além de representar evidente perigo e risco, vai também, desnecessariamente, aumentar a conflitualidade entre peões, ciclistas e condutores de automóveis.
Uma ponte que demorou tanto tempo e dinheiro, que foi alvo de sucessivos projectos e sucessivas alterações às próprias alterações, é inquestionável que deveria ter sido feita de outra forma.
A todas as pessoas que circularão na ponte, incentivo e peço-vos que, antes de buzinarem ou insultarem o vosso parceiro de estrada, tenham presente e lembrem-se dos verdadeiros responsáveis pela vossa irritação: o presidente da Câmara Municipal de Faro, Rogério Bacalhau e o seu executivo camarário!
E não me excluo dessa responsabilidade, pois apesar de vereador «sem pasta» e eleito pela oposição com voz ignorada pelo mesmo presidente da Câmara Municipal de Faro e restante executivo, também me incluo – e aqui faço meu ato de contrição por não ter conseguido impedir esta asneira.

Termino citando Paula Teles, especialista de desenho urbano, e chefe da equipa responsável técnica pelo plano de mobilidade e transportes da cidade de Faro aprovado na Assembleia Municipal de novembro de 2018, no seu livro «A Cidade das Bicicletas – Gramática para o desenho de cidades cicláveis»:
«Quando planeamos e projetamos cidades temos uma dupla responsabilidade: a responsabilidade técnica, naturalmente, mas também a responsabilidade do legado de conhecimento adquirido ao longo do nosso percurso. (…) o conhecimento necessário ao bom planeamento urbano ou do território nem sempre consegue acompanhar o tempo imediato, urgente, de fazer para ontem, que atualmente pressiona a elaboração dos respetivos projetos».

«O tempo do planeamento é obrigatoriamente maior que o tempo do projeto. Este primeiro, exige conhecimento absoluto do território físico e social como forma inequívoca da compreensão das mudanças observadas ao longo do tempo, diagnóstico esse, essencial para anteciparmos o futuro desejado para as vilas e cidades que planeamos. (…) A mobilidade, na sua visão holística, tem de irrigar todos os tecidos urbanos. Com analogia à medicina, por comparação com a designação de tecidos humanos, cada vez mais entendo a cidade como um tecido urbano, em que as ruas, as ciclovias, os passeios, são justamente os vasos capilares que a terão de irrigar, para a sua própria sobrevivência e sustentabilidade».
André Lara | Professor, vereador na Câmara Municipal de Faro, eleito pela lista do Partido Socialista (PS)
Fotos: Bruno Filipe Pires
