barlavento – Quais as iniciativas para assinalar o «Dia Nacional do Doente com AVC» neste núcleo do CHAlgarve?
Nuno Costa – Começo por elucidar que o Núcleo de Enfermagem de Reabilitação (NER) é constituído pelos Enfermeiros Especialistas em Enfermagem de Reabilitação, neste caso das unidades hospitalares de Portimão e Lagos. Este grupo tem como objetivo partilhar experiências e conhecimento, desenvolver estudos científicos, discutir casos clínicos, para melhor servir a população, desde a prevenção da doença até à última fase do processo de reabilitação, tentando alcançar a máxima independência possível da pessoa que se vê limitada em diversas funções decorrentes de um episódio de doença/acidente. Segundo a Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação da Ordem dos Enfermeiros, organismo que também colabora connosco na organização deste evento, o Enfermeiro de Reabilitação detém conhecimentos e procedimentos específicos que permitem ajudar as pessoas com doenças agudas, crónicas ou com as suas sequelas a maximizar o seu potencial funcional e independência. Outro parceiro deste evento é a Associação Portuguesa de Enfermeiros de Reabilitação, que contribui para divulgar e desenvolver perante a sociedade a presença da Enfermagem de Reabilitação. Tendo como base este pressuposto, é de importância extrema poder contribuir para a sensibilização da população na prevenção de uma doença que potencialmente é tão incapacitante. As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em Portugal e na Europa, sendo uma destas o Acidente Vascular Cerebral (AVC). No entanto, com os avanços da técnica e do conhecimento na área dos cuidados de saúde, hoje é possível alcançar uma taxa de sobrevivência muito mais elevada. A intervenção não se esgotou nos últimos tempos nestes fatores, mas no aspeto preventivo da legislação com a cessação tabágica, a diminuição do teor de sal no pão ou a promoção de hábitos de vida saudáveis por organizações científicas. Por outro lado, houve um desenvolvimento na correção clínica dos fatores de risco modificáveis como a hipertensão arterial ou o colesterol elevado. Devo ainda referir a criação da Via Verde do AVC como uma medida substancial no tratamento desta patologia. Contudo, a problemática não é apenas a taxa de mortalidade, mas, com um peso significativo, a morbilidade associada às consequências: é das patologias que leva a maiores índices de morbilidade. Por outras palavras, a pessoa que sempre conseguiu ser independente e gerir a sua vida, pode, dependendo da gravidade do AVC, ver-se privada da autonomia da realização das suas funções básicas como andar, alimentar-se ou ir ao wc. Consequência de uma lesão vascular, o cérebro perde a sua capacidade de controlar e desenvolver o que antes era normal e espontâneo. Os Enfermeiros de Reabilitação das unidades de Portimão e Lagos para comemorar este Dia vão divulgar trabalhos realizados numa exposição, patente entre 30 de março e 4 de abril, no átrio da entrada principal da Unidade Hospitalar de Portimão. Trata-se de uma forma de perceber a mais-valia da Enfermagem de Reabilitação para o cidadão com aquilo que é o nosso quotidiano. Também no dia 31 de março vamos estar no Mercado Municipal de Portimão, nosso parceiro neste evento, para um rastreio grátis dos fatores de risco para o AVC, consulta de Enfermagem de Reabilitação, assim como «4 estações técnicas», onde mostramos algumas atividades do nosso dia a dia (treino de marcha, equilíbrio ou transferências da cama para cadeira de rodas). Este último ponto pretende desmistificar a ideia de que uma pessoa que sofreu um AVC está acabada, demonstrando as nossas intervenções com vista a maximizar a atividade que ainda restou e desenvolver estratégias de adaptação a uma nova fase da vida. Talvez o mais importante desta iniciativa seja a prevenção. Contudo, o acreditar que é possível viver após o AVC é uma ideia que gostaríamos de deixar marcada.
b – Quais são os sintomas de um AVC e o que deve ser feito logo?
NC – Os principais sintomas que permitem identificar que uma pessoa está a ter um AVC são a diminuição da força, sensação ou mesmo paralisia de um dos lados do corpo (braço e perna ou um dos dois), paralisia facial com assimetria da face (boca ao lado) com pálpebra descaída, alteração da fala sem que se consiga perceber o que é dito, alteração da consciência (podendo haver perda total), confusão mental, desorientação (não sabendo quem é, onde está ou a data atual) ou amnésia. Os sintomas podem ser verificados com alguns testes simples como pedir para a pessoa sorrir e verificar alteração na simetria, para levantar os braços e um deles não consegue ou cai rapidamente, para responder às perguntas de orientação (quem é, onde está e a data), percebendo se há alteração na forma de falar. Perante estes sinais deve-se de imediato contactar o 112 que dará o seguimento adequado. Pode acontecer que, passado pouco tempo, estes sintomas desaparecam, mas não se deve considerar como voltar ao normal. Deve ser observado urgentemente no hospital e verificadas as suas causas. Podemos estar perante um AVC transitório (Acidente Isquémico Transitório).
b – Que fatores podem contribuir para um AVC e quais os escalões etários mais afetados?
NC – Os fatores podem ser modificáveis e não modificáveis. Os que não podem ser modificados são a idade, o sexo, a etnia, por exemplo. Todavia, concentrar-me-ei nos modificáveis: hipertensão arterial, tabagismo, colesterol elevado, sedentarismo, obesidade, diabetes, problemas cardíacos (fibrilação auricular) e apneia do sono. Todos estes, sabe-se terem uma influência muito significativa na predisposição para desenvolver um AVC. Nos últimos anos, contrariando a ideia de que esta é uma doença da terceira idade, aparecem cada vez mais jovens com AVC. Considerando o AVC uma doença vascular, compreende-se que os vasos sanguíneos, com a passagem do tempo, deixam de ter a mesma capacidade elástica, podendo desencadear estes episódios. Os estudos publicados colocam a fasquia nos 65 anos. Nos últimos anos, esta idade tem, porém, vindo a diminuir, sem citar nenhuma fonte exata, para perto dos 55 anos.
b – O que representa esta doença em Portugal?
NC – Segundo dados da Direção Geral de Saúde e da Organização Mundial de Saúde, em Portugal temos cerca de 170 a 200 novos casos de AVC por ano por 100 mil habitantes, sendo que a prevalência é de 8% em pessoas com mais de 50 anos (10,2% homens e 6,6% mulheres). O AVC no nosso país é a primeira causa de incapacidade. Em 2006 morreram, decorrente de um AVC, 6270 homens e 8225 mulheres. Cerca de 20% dos doentes que sobreviveram ficaram dependentes com lesões neurológicas permanentes e incapacitantes, constituindo um evento catastrófico para o próprio e para a família. Em termos de custos, um relatório recente aponta para o valor de 2,5 milhões de euros gastos num ano pelo AVC. Considerando as metas da DGS nos últimos anos, procurar-se-á diminuir a taxa de mortalidade e morbilidade para valores mais próximos da Europa. Temos valores que não são nada abonatórios, apesar de já estarmos muito melhor do que há dez anos. Da nossa parte continuaremos a apostar em ações preventivas, de promoção de hábitos de vida saudáveis, quebrando as barreiras da procura pela vigilância dos fatores de risco. Porém, caso aconteça um episódio de AVC, gostaria de deixar esta mensagem: os Enfermeiros de Reabilitação, sendo enfermeiros estarão sempre próximos da pessoa em fase de doença, tentado garantir a melhor qualidade de vida, maximizando a funcionalidade e apontando para a independência. Aproveito para convidar todos a visitar a nossa exposição no Hospital e a marcar presença no dia 31 de março. Em nome do NER de Portimão-Lagos, agradeço à Câmara de Portimão, Junta de Freguesia da Mexilhoeira Grande, Farmácia Rosa Nunes e ao Mercado Municipal de Portimão o apoio no desenvolvimento desta iniciativa, considerando-a de importância significativa para a população.