A Câmara Municipal de Portimão está a constituir uma equipa de trabalho para a salvaguarda do Ocean Revival. Parceria com a Portisub para a gestão do parque é uma das hipóteses em cima da mesa.
Nascido da visão de Luís Sá Couto, que mobilizou vontades, recursos e saberes, o Ocean Revival resultou no afundamento planeado de quatro emblemáticos navios da Marinha Portuguesa, de forma a dar origem a um dos maiores recifes artificiais da Europa.
Mais do que um feito técnico e ambiental, este projeto representou a criação de um cluster de turismo de mergulho, projetando Portimão a nível nacional e internacional como um destino de excelência para os amantes do mar.
Durante vários anos, o Ocean Revival foi um caso de sucesso, acolhendo mergulhadores de todo o mundo, fomentando a biodiversidade marinha e gerando valor económico e científico para a região.
No entanto, a maré mudou. As severas restrições provocadas pela pandemia da COVID-19 afetaram profundamente o sector do turismo e do mergulho. Um dos mais modernos e equipados centros de mergulho da Europa, que fora um dos principais motores deste projeto, acabou por encerrar.
Agora, consciente do valor ambiental, turístico e simbólico deste recife artificial, e da necessidade de assegurar a sua manutenção e valorização, a Câmara Municipal de Portimão está a constituir uma equipa de trabalho, com o objetivo de garantir a salvaguarda deste património único.
O barlavento sabe que, em cima da mesa, está um protocolo de parceria que entregará a gestão do espaço à Portisub – Clube Subaquático de Portimão, um dos parceiros fundadores do parque.
No inicio do projeto, a MUSUBMAR – Associação para a Promoção e Desenvolvimento do Turismo Subaquatico, «surgiu para tratar do afundamento dos navios e que tinha a missão de criar o parque. Penso que nunca se pensou muito gestão futura. Assumiu-se, na altura, que isso depois ocorreria naturalmente», recorda Nuno Monteiro, instrutor de mergulho e presidente da Portisub, entidade que conta hoje com 170 mergulhadores ativos.
Em termos de prazo, «gostava que durante este ano o processo ficasse minimamente concluído. Porque existem já coisas que precisam ser tratadas, como o balizamento do parque. É preciso fazer manutenção às boias e também manter os navios. Quanto mais tempo eles estiverem», sem cuidados, «mais redes e artes de pesca irão ali acumular-se. E isso não apenas prejudica a fauna, como a segurança dos mergulhadores», pois apesar de o Ocean Revival já não estar a ser divulgado como foi nos primeiros anos após a sua criação, continua a ter procura e visitantes.
Mergulho «sempre diferente»
Monteiro, que pratica mergulho desde 1986, explica que «enquanto num naufrágio real é preciso ter atenção redobrada, aqui a exploração é muito facilitada» e diferente.
«Faço quatro a cinco mergulhos no Ocean Revival por ano. As condições do mar nem a fauna nunca são iguais», descreve.
Os quatro navios foram preparados para priorizar e garantir a segurança dos visitantes subaquáticos. Foram descontaminados de hidrocarbonetos, amianto, cablagens e de tudo o que pudesse ser nocivo ao ambiente. Removeram-se também os pontos perigosos das superestruturas.
«Todas as escotilhas, portas e obstáculos que pudessem criar problemas foram retirados. E há sempre dois pontos de saída disponíveis» para os mergulhadores não se perderem no interior.
Portanto, considera, «é um mergulho fácil, mas é necessária a certificação de mergulhador avançado. Na maioria das visitas, vamos até ao convés, na parte superior dos cascos, a cerca de 20 metros de profundidade. Lá mais em baixo, há âncoras e mais coisas para descobrir. O navio mais profundo está a 36 metros», sendo ideal para os mais experientes em busca de desafios.
A maior dificuldade tem a ver com a visibilidade. Pela sua experiência, «o final do verão, entre setembro e outubro, são momentos espetaculares. Embora, no verão, quando a água está mais quente e normalmente mais calma», também é uma boa opção para visitar esta herança naval.
Durante a COVID-19, quando o mergulho foi classificado atividade de alto risco, o hiato «permitiu que a flora e a fauna se desenvolvessem muito. Hoje vemos ali cardumes de todo o tipo de peixes a nadar entre as antenas dos navios, desde corvinas, sargos, douradas, safios, polvos», e até há quem garanta já ter visto atuns. «É um espetáculo incrível», resume.
Um pouco de história
A corveta «Oliveira e Carmo», com 1400 toneladas, 85 metros de comprimento e 10 de boca, serviu uma profícua carreira na Marinha Portuguesa entre 1975 e 1999. Ferrugenta e sem leme, mas ainda impressionante, foi cuidadosamente rebocada para Portimão, em fevereiro de 2012.
Na altura, foi a derradeira viagem para o primeiro de um conjunto de quatro navios doados pela Marinha ao município de Portimão para serem afundados.
Seguiram-se o navio patrulha oceânico «Zambeze» (que serviu de 1972 a 2003), o navio oceanográfico «Almeida Carvalho» (ativo de 1972 a 2001) e a fragata «Hermenegildo Capelo» (cuja carreira no mar começou em 1968 e terminou em 2004).
Este último, com 102,5 metros de comprimento, era a maior do lote. A partir de outubro de 2012, a frota começou a ser colocada no fundo, a cerca de 5,5 quilómetros da costa de Alvor, ao largo da Prainha, num local escolhido para não comprometer a navegação.
Nuno Monteiro recorda que «no início não concordava muito com o sítio, porque achava-o demasiado longe. A verdade é que o mar já está bastante segmentado. A zona para os navios de cruzeiro já estava definida, assim como as áreas para os vários projetos de aquacultura. Acabou por se encontrar um cantinho disponível. Hoje reconheço que houve alguma visão nessa escolha porque a distância entre o parque e os portos de Portimão e de Lagos é quase a mesma».
Ou seja, foram criadas «condições para que os dois portos mais próximos consigam trabalhar em circunstâncias idênticas em termos de distância».
Em relação à profundidade, «se fosse menor, é verdade que seria acessível a mais mergulhadores, mas com o tempo, os navios acabariam por sofrer muito com a ondulação e acabariam por sofrer danos», tal como aconteceu recentemente ao NRP «Oliveira e Carmo», que perdeu a chaminé devido à fúria da tempestade Hércules.

«Se alguém descobrir uma um tubo de chapa com 9 metros de altura e com 6 de largura, por favor, avisem-nos, porque continuamos sem saber» o paradeiro do artefato. «Pensámos que iria dar à praia, mas até ao momento, ainda não apareceu», brinca.
Hoje, o que ali existe é «um ambiente muito dinâmico. O parque está numa zona de confluência de correntes e, apesar de já terem passado 13 anos, os navios ainda não estão totalmente assentes no fundo. Por isso, o parque está em constante mudança. E está cheio de vida. Do ponto de vista da biologia marinha, é um redondo sucesso. Estamos a falar de uma zona de areia, que era praticamente um deserto», recorda.
Em agosto de 2011, Marinha e Portimão assinaram o termo de transferência e de aceitação dos navios que se encontram então na base naval do Alfeite (Lisboa). O projeto teve a aprovação de diversas entidades competentes, como o Ministério da Defesa.
Normas de conduta e proteção ambiental
No âmbito do protocolo com a Câmara Municipal de Portimão, Monteiro acredita que há espaço para iniciativas futuras como a elaboração de um manual de normas de conduta e para um estatuto local de proteção ambiental, à semelhança do que foi criado para a Pedra do Valado.
«Gostávamos que o Ocean Revival tivesse regras fundamentais de utilização, não só do ponto de vista da segurança dos centros de mergulho e das empresas marítimo-turísticas certificadas que ali operam, como também da sua fiscalização, para evitar a pesca furtiva. É preciso passar a mensagem que o parque é uma zona de criação de biodiversidade, e que essa biodiversidade se irá estender ao redor. E com isso, todos ganham», sublinha.
Em relação ao ambiente, por exemplo, sugere que poderiam ser feitas ações pontuais de voluntariado para a limpeza do parque.
No futuro breve, será preciso refazer a comunicação. E há muitas ideias para retomar a divulgação que o parque merece. Será preciso lançar um novo um website dedicado, uma vez que o original já não está disponível.
O responsável pela Portisub mostra também abertura para acolher e colaborar com universidades interessadas em estudar as várias possibilidades científicas do Ocean Revival. «Temos toda a abertura e interesse, porque isso enriquece ainda mais o parque».
Crescer para terra
Existe no Museu de Portimão uma exposição dedicada ao Ocean Revival, mas Nuno Monteiro considera que «o parque pode crescer para qualquer lado com novas ideias e novos projetos», inclusive, em terra.
«Antes de ter sido criado, tínhamos proposto algo mais pequeno, na perspectiva de criar uma mais-valia para a promoção turística de Portimão subaquático. Na altura, havia algumas aeronaves, aviões de combate da Força Aérea Portuguesa que poderiam ser interessantes para o efeito. O problema é que o alumínio não dura muito tempo na água» como tal, a longevidade seria muito limitada, e a ideia acabou por se abandonada.
Hoje, poderia ser interessante ancorar em Portimão um navio militar descomissionado, visitável, ou um antigo submarino, visitável ao público, pois «muitas pessoas têm curiosidade e nunca tiveram essa oportunidade».
«Os naufrágios que existem no Algarve têm uma história e uma mística associada. Neste caso, isso também acontece, visto que cada um destes navios teve uma longa vida militar. Foram a casa de gerações de marinheiros ao longo dos anos que ali viveram centenas de horas em muitas missões, inclusive de combate, e criaram ligações afetivas muito fortes» às embarcações. «Já tivemos até pedidos para colocar cinzas» no local, revela.
«Ou seja, isto é um património que não é só de Portimão nem é apenas para os mergulhadores. É, acima de tudo, um património português que deve ser protegido e divulgado», afirma.
«E é um final em glória para estes navios. Melhor do que serem desmantelados como sucata, continuam a servir Portugal de uma forma digna e útil», conclui.
Fotos: Miguel Judice



