A meio da década de 1990, num trabalho para a disciplina de «Sistema das Relações Internacionais», eu e um colega de turma (Henrique Gomes) teorizámos sobre as implicações do Maio de 1968 no mundo. Considerámos que a revolução de Abril de 1974 teria sido uma espécie de Maio de 68 à portuguesa, com uns anos de atraso.
Mais de 20 anos volvidos sobre esse trabalho, e depois do mundo já ter mudado duas vezes, procurei olhar de forma sistémica para as manifestações que têm ocorrido no nosso país. Dei por mim a pensar que o Maio de 1968 não levou seis, mas 44 anos a chegar a Portugal.
A grande manifestação de 15 de setembro de 2012, em Lisboa, movimentou cerca de um milhão de pessoas e teve como símbolo uma algarvia, de Lagos, a abraçar um agente de autoridade. Adriana Xavier deu uma lição ao mundo com um singelo abraço e mostrou-nos o quanto de amor e pureza de coração são necessários para as mudanças a operar.
Terá sido a manifestação de 15 de setembro o equivalente ao Maio de 1968 em França?
Será necessário que mais catástrofes sociais e financeiras se abatam sobre nós para que se opere uma mudança profunda na forma de fazer política? Depois desta manifestação, foi possível organizar, através das redes sociais, a 13 de janeiro de 2013, em Miranda do Corvo, um encontro com 19 movimentos cívicos (num total de 80 pessoas) que levaram os seus concidadãos às ruas naquele setembro histórico de 2012.
Ou seja, um encontro de «rodas motrizes» – aqueles que são a alma e dão força para que o mundo pule e gire como uma «bola colorida por entre as mãos de uma criança». Deste encontro em 2013, nasceu a ideia de unificar vários movimentos cívicos emergentes num único movimento em nome dos cidadãos. Assim surgiu o Movimento Cívico «Nós, Cidadãos!».
O que seguiu foi um passo curto até à sua formalização como partido político.
Será que esta manifestação inesperada de um milhão de cidadãos na capital portuguesa – uma manifestação que juntou patrões e empregados no mesmo lado da barricada, que juntou militantes e simpatizantes de todos os partidos – foi o equivalente ao Maio de 1968 em França?
Para isso, é necessário que as pessoas despertem para as suas realidades e condição de serem cidadãos conscientes, ativos, criativos e responsáveis pelas suas cidades e por Portugal – porque a soma das partes também faz parte do todo.
Hoje, mais do que nunca, são necessárias políticas plenas de interioridade, espiritualidade e filosofia. Até agora nenhum governo o soube fazer. Por isso, começam a surgir outros protagonistas que saberão fazer a diferença, porquanto a rede clientelar – a mesma de sempre nos últimos 80 anos – não pode continuar a esmifrar-nos.
Sinais valem o que valem. Mas foi o pequeno David que matou o gigante Golias. Foi o frágil Gandhi que fez recuar o Império Britânico. Foi o recluso Mandela que derrubou o Apartheid. Os portugueses precisam de sinais de esperança. Urge implementar em Portugal o «caminho do meio» e do bom senso, pois não há lugar para mais oportunidades perdidas.
Opinião de Antonieta Guerreiro, consultora e gestora de micro empresa familiar.