A Cultura no Algarve tem de começar a intervir, com mais implicação e continuidade, naquilo que são os problemas do mundo hoje: migração, tolerância, conflitos, clima…
Cinquenta anos de Cultura em Democracia! Onde estamos hoje? E onde queremos estar na próxima década?
Comecemos pelo ponto de vista administrativo. Desde janeiro de 2024, a Cultura na região deixou de ter a sua representação oficial que era a Direção Regional de Cultura do Algarve, e, ao contrário das restantes regiões onde a Cultura passou a integrar o Conselho Diretivo das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional, com uma Vice-presidência, aqui, na nossa região, o mesmo não aconteceu.
Dirão que é apenas simbólico, mas os símbolos importam! O país a olhar o Algarve, como sempre fez e nós com a mesma (pouca) capacidade reivindicativa.
Se queremos que a Cultura se afirme como um bem público, temos de exigir um olhar diferente a Lisboa, nomeadamente a regionalização, e temos de exigir respeito porque somos portugueses de pleno direito como os que vivem noutras regiões.
A Democracia dotou a região de equipamentos culturais – teatros, bibliotecas, arquivos, museus, galerias de arte – que têm vindo a contribuir para aumentar o sentimento de pertença e a identidade coletiva, para transformar as gentes e os territórios a partir da Cultura e da Arte.
É, no entanto, necessário dar um novo salto qualitativo nestes equipamentos, dotá-los de uma autonomia ao nível das direções dos equipamentos (artísticas e técnicas), de uma missão e visão claras, de profissionalização das equipas (sim, ainda é necessário!), de maior responsabilização, para que o seu papel social seja reforçado, para que se trabalhe a Democracia Cultural, a participação das comunidades, a criação coletiva, a cocriação e as programações participadas.
Isso exige tempo, mudança de paradigma e reflexão, exige sair do «fazer para» e de passar a «fazer com». Precisamos de criar condições para que os equipamentos culturais do estado local ou central não sejam os centros, mas sejam (apenas) mais um dos nós de uma rede cultural local e regional polissémica, horizontal, pensante, ousada e atuante. Precisamos de criar cidadania a partir da Cultura!
Precisamos de um Museu de Arte Contemporânea Nacional na região! Somos a única região que não tem um Museu Nacional; parece pouca coisa, mas, uma vez mais, muito significativa.
Este equipamento não colide com o trabalho que vários municípios têm vindo a fazer (com altos e baixos): Faro, Lagos, Tavira, Loulé, complementam, que é uma palavra que é necessário ser posta em prática mais vezes na região e no pensamento regional e não só na área cultural.
É preciso reforçar o trabalho significativo entre Educação e Cultura e entre Educação e Conhecimento; veja-se o papel relevante que a Universidade do Algarve (UAlg) tem tido, quer na formação de quadros, quer na criação de conhecimento e na dinamização e reforço da comunidade artística e da programação de Arte na região.
Necessitamos de reforçar mais este papel através de curadorias; com espaços de pensamento e de debate; com a Arte a sair para a Rua. É preciso que o Plano Nacional das Artes (ou o que lhe suceder) seja incluído nos curricula, depois de meio século, exige-se que o ensino integre a Arte (música, teatro, dança, circo, artes visuais) e a Cultura em todos os graus de ensino, ao lado das disciplinas base como a História, a Matemática e o Português. Que seja parte do Ano Letivo e não um acrescento ao Ano Letivo!
É, uma vez mais, criar cidadania, cidadãos pensantes, livres-pensadores, para construir um Mundo mais tolerante, mais justo e mais fraterno. Não podemos adiar, é Urgente, parafraseando António Ramos Rosa.
A região tem hoje comunidades artísticas que impactam na sociedade, que transformam a partir do seu olhar – quer nas artes performativas, quer nas artes visuais – que criam a partir das necessidades e dos desafios do território mas, ainda, com muita precariedade; necessitamos que o subsídio se transforme em Apoio/Investimento, como nas restantes áreas da atividade económica; necessitamos de criar condições para fixar artistas e técnicos, para trabalhar a partir da região para o país e para o Mundo.
Na área do Património Cultural importa reforçar o seu papel na criação de uma autoestima e Identidade regional, de valorizar o seu papel (sem medo) na sua relação com o Turismo, proporcionando uma região mais resiliente.
O património é um ativo económico e cultural disponível 365 dias por ano, e necessita de um pensamento integrado que se estruture com as outras ofertas permitindo criar emprego permanente.
A Cultura na região tem de começar a intervir, com mais implicação e continuidade, naquilo que são os problemas do mundo hoje: migração, tolerância, conflitos, clima… Porque a partir da Cultura podemos ousar integrar, conhecer, sentir o(s) outro(s), perceber as diferenças e construir um mundo mais humano.
É preciso continuar a valorizar as tradições, e projetos como o TASA, o Loulé Criativo são necessário ser continuados, expandidos, repensados e integrados no que são os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e a Economia Circular. É preciso reforçar a nossa Identidade, só assim conseguiremos reivindicar e construir uma região com futuro para os nossos filhos.
Termino com uma palavra de GRATIDÃO a todas as pessoas que fizeram Cultura no Algarve nestes últimos 50 anos. Sem elas, hoje seriamos mais pobres. Bem hajam pela vossa resiliência e pelo acreditar, porque como alertou Sophia de Mello Breyner Andresen: «A cultura é cara, a incultura é mais cara ainda».
Dália Paulo | Diretora Municipal da Câmara de Loulé
Nascida em 1975, em Faro, fazedora cultural, trabalha na área do Património e da Cultura no Algarve há 28 anos. Museóloga e Gestora de Património e de Cultura. Atualmente é Diretora Municipal na Câmara Municipal de Loulé e Assistente Convidada na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve.
Artigo publicado no âmbito dos 50 anos do jornal barlavento.
Foto: Luís Torres