Parque Ribeirinho Olhão Poente e renaturalização das Tapadas criam novo espaço de fruição junto à Ria Formosa, com percursos pedonais e palco natural para eventos culturais.
O pôr do sol sobre as salinas ganhou, esta segunda-feira, um novo miradouro. Olhão inaugurou o Parque Ribeirinho Olhão Poente e concluiu a renaturalização das Tapadas, dois projetos complementares que transformam uma zona antes degradada numa frente ribeirinha contínua de quase quatro quilómetros junto à Ria Formosa.
«Hoje é um dia importante para o município de Olhão», afirmou Ricardo Calé, presidente da Câmara Municipal, durante a cerimónia que decorreu naquele espaço, ao final da manhã de hoje.
«Conseguimos fazer aquela que é a ligação da zona frente-mar em toda esta frente ribeirinha, em que os munícipes podem fazer a sua utilização sem ter de passar por estradas, sem passadeiras, e passear com as suas crianças», descreveu
A intervenção, que o barlavento noticiou em 2024, estava inicialmente prevista para julho de 2025, com um orçamento de 1,5 milhões de euros. Acabou por ser concluída em dezembro, com um investimento municipal final estimado em de cerca de 2 milhões de euros, segundo revelou o autarca aos jornalistas durante a cerimónia de inauguração.
Uma frente ribeirinha sem igual
O plano, de tornar aquela zona numa das mais aprazíveis do Sotavento algarvio ainda não está concluída. Ali próximo, mais a norte, está prevista a demolição das oficinas municipais e de outros serviços que foram progressivamente relocalizados.
O canil foi transferido para as novas instalações do CROA (Centro de Recolha Oficial de Animais) e o estaleiro já foi desativado. Falta apenas a deslocalização das oficinas da AmbiOlhão, considerada «o terceiro e último passo para podermos ter esta zona, toda ela, requalificada», segundo o autarca.
Com as salinas como pano de fundo, uma grande diversidade de avifauna migratória ao longo das estações, a zona poente de Olhão assume-se agora como um espaço de fruição pública junto ao Parque Natural da Ria Formosa.
Renaturalização com espécies autóctones
A intervenção dividiu-se em duas frentes. A primeira, a renaturalização das Tapadas, incidiu sobre uma zona junto que acumulava detritos no que outrora fora piscicultura. O projeto inicial previa a criação de «praias urbanas» com areia, mas as entidades ambientais não autorizaram a transformação das zonas lodosas, tendo a solução assentado numa intervenção de renaturalização.
A segunda frente foi a criação do Parque Ribeirinho Olhão Poente, um espaço verde que funciona como corredor ecológico e zona de lazer, com percursos pedonais e cicláveis e um parque infantil. «Além de ser um espaço de utilização familiar, importa lembrar que, nas salinas, no outono, na primavera e no verão, há muitas pessoas a praticar desporto», explicou Ricardo Calé, que «agora podem começar a partir daqui, sem terem de atravessar uma zona degradada e insegura».
O espaço foi projetado para facilitar a manutenção. «Os projetistas pensaram nisso desde o início. Não há zonas relvadas mas muitas plantas autóctones, que se mantêm praticamente por si próprias. Nesta fase, temos ainda um período grande de chuvas, o que é positivo para estas plantações, que vão aguentar até ao final da primavera e depois ganhar força para se manterem de forma natural», informou.
Anfiteatro natural para o jazz
Mas o novo parque não se destina apenas ao uso quotidiano. Ricardo Calé revelou que a modelação do terreno foi pensada para criar «um equilíbrio que funcione quase como um anfiteatro natural», permitindo realizar eventos culturais com a Ria Formosa como cenário de fundo.
Sendo este «um cenário idílico, é perfeito para lhe darmos outro tipo de utilização, e para criar um novo momento marcante em Olhão», afirmou o autarca olhanense, anunciando que está previsto, para o início do verão de 2026, um novo festival de jazz.
«A ideia é ter um palco e permitir que as pessoas, enquanto veem o pôr do sol apreciem um concerto ao vivo», disse. «Queremos que seja uma referência na programação cultural do Algarve».
Num momento mais descontraído, o presidente brincou com a dimensão do investimento feito pela autarquia: «se Olhão já tinha um pôr do sol maravilhoso, agora, de certeza, vai ter o melhor pôr do sol do mundo. Inclusive, fizemos aqui um investimento muito grande, porque, de seis em seis horas, mandamos mudar o cenário – a maré sobe e desce, para que se possa tirar aqui vários tipos de fotografias».
Homenagem ao mentor do projeto
Durante a cerimónia, Ricardo Calé fez questão de prestar homenagem a António Miguel Pina, ex-presidente da Câmara Municipal de Olhão, agora autarca de Faro, que idealizou o projeto durante o seu mandato. «Quisemos convidar António Miguel Pina, porque esta foi uma obra que desde sempre foi muito acompanhada pelo nosso ex-presidente e foi uma vontade de longa data do próprio», explicou. O ex-autarca não pôde estar presente por ter reunião de Câmara em Faro durante a manhã de segunda-feira, mas «deixa um abraço a todos», transmitiu Ricardo Calé.
Avenida 5 de Outubro avança para requalificação
No mesmo dia da inauguração, a autarquia aprovou, em reunião, a empreitada para a requalificação final da Avenida 5 de Outubro, desde a rotunda do Cavalo-Marinho até à rotunda de saída da cidade para a EN125. A intervenção abrangerá a rede viária, a componente paisagística e a rede pedonal.
«Vamos diminuir aquela que será a disponibilidade para o tráfego automóvel, privilegiando a utilização pedonal», explicou Ricardo Calé. A avenida, construída como variante urbana na década de 1980, deverá assumir-se «como uma grande artéria central para a prática desportiva», completando assim a transformação urbanística da zona poente da cidade.
Obra condicionada pelas chuvas
A conclusão da obra foi condicionada, nas últimas semanas, pelos períodos de chuva intensa que se fizeram sentir no Algarve. «A obra correu bem, com os seus desafios normais», explicou Ricardo Calé. «Íamos fazendo os últimos acabamentos, mas depois caia uma grande chuvada e, enquanto os solos não estivessem estabelecidos e consolidados, não conseguíamos trabalhar».
O presidente agradeceu às equipas municipais do urbanismo, obras públicas e planeamento, bem como aos empreiteiros e às empresas parceiras do projeto. «Houve um trabalho muito próximo e uma grande dedicação. Os desafios foram semanais. Cada vez que tentávamos fazer uma nova estratégia de intervenção, tínhamos sempre desafios novos», reconheceu.
O trabalho conjunto com o Parque Natural da Ria Formosa foi também destacado pelo autarca, que convidou o diretor da entidade a acompanhar a visita ao espaço após a cerimónia de inauguração.
Ciclovia à espera de Faro
O novo parque reforça também a rede de ciclovias e ecovias do concelho. O troço executado em Olhão prolonga-se até cerca de metade do percurso previsto em direção a Faro, mas a continuidade da ligação ciclável entre os dois concelhos continua dependente da intervenção no concelho vizinho.
«Felizmente, já temos uma rede de ciclovias e ecovias até ao limite do concelho de Olhão», afirmou Ricardo Calé. «Sabemos que Faro fará a sua parte. Este projeto já estava desenhado e acreditamos que a dinâmica agora existente em Faro, com o novo presidente, vai permitir que se concretize. A nossa parte está feita».
Estratégia de qualificação do espaço público
Ricardo Calé enquadrou a inauguração numa estratégia mais ampla para a cidade. «O município de Olhão está cada vez mais dedicado a fazer uma boa requalificação do espaço público, para que seja cada vez mais aprazível aqui poder viver e construir família», afirmou aos jornalistas.
O autarca destacou ainda a aposta em «boas infraestruturas públicas» nas áreas da educação, saúde e segurança, completadas agora com «bons espaços públicos aprazíveis».
Com a conclusão desta obra, «conseguimos ganhar, não apenas uma ligação, mas uma nova zona de fruição pública para o concelho de Olhão, para os nossos munícipes, para os nossos jovens, para as nossas famílias e para quem nos visita», referiu.
Obras do PRR em execução
No final da inauguração, Ricardo Calé fez um ponto de situação sobre o conjunto de investimentos estruturantes que o município tem em curso no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), num montante superior a 15 milhões de euros.
Estão em execução a construção da nova Unidade de Saúde Familiar de Olhão, a construção da nova Loja do Cidadão, a requalificação dos centros de saúde, a intervenção no Bairro 16 de Junho Sul e a construção do Hub Azul, projetos que, segundo o presidente, «vão mudar a face do concelho ao nível das infraestruturas públicas».
Sobre o Hub Azul, Ricardo Calé garantiu que a obra está dentro do prazo. «Apresentámos uma proposta à estrutura de missão para que o empreiteiro pudesse reforçar equipas e trabalhar em espelho, de manhã e à tarde, mediante um reforço orçamental acompanhado de financiamento», explicou.
«O valor da obra aumentou, mas a dotação também acompanhou. Vamos conseguir concluir a obra mais rapidamente, dentro dos prazos, sem onerar o erário público», assegurou.
Os prazos apertados do PRR são fonte de preocupação. No último congresso da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP), no início de dezembro, os 308 autarcas subscreveram uma carta conjunta à Comissão Europeia a pedir um alongamento de prazos.
«As empreitadas podem derrapar 10 a 15% no tempo, o que colocaria obras fora do PRR, criando constrangimentos sérios para os municípios», alertou Ricardo Calé, manifestando confiança de que, «com uma extensão de poucos meses, mesmo que até ao final de 2026, tudo será concluído com sucesso».






