Rodeado por trilhos pedonais e flamingos, em pleno Parque Natural da Ria Formosa, poderia ter sido votado ao abandono, não fosse a persistência de uma família que quis devolver à Fuzeta, um património que faz parte da memória coletiva desta vila piscatória.
«Esta zona era conhecida por sítio dos moinhos e este chamava-se moinho dos olheiros, pois há uma nascente de água aqui próxima. Foi adquirido pelo pai da minha mãe em 1920», explica Margarida Gomes.
«Esta propriedade está há quase um século na família. Possivelmente, quando o meu avô o comprou, este moinho já não funcionava. Serviu de habitação para os trabalhadores das salinas e da fábrica do sal». Até cerca de meados dos anos 1990, aqui viveram várias famílias, mas o espaço acabou por ser abandonado.
«Estava num estado muito degradado, houve partes da cobertura que cederam. A açoteia caiu e a varanda estava em ruínas. O interior estava muito adulterado, porque foi adaptado para servir de habitação, tivemos que retirar todos esses elementos» intrusivos.
«De vez em quando, as pessoas que aqui viveram no moinho vinham visitar a obra e ficavam comovidas por ver que se fez alguma coisa do edifício» que lhes serviu de casa.
A fábrica de sal tinha o nome do proprietário, José Guerreiro, tal como o moinho. Das salinas, fez-se uma sociedade que tem o nome Neto e Guerreiro. Ainda hoje existe e abraçou o projeto de reabilitação.
A ideia de recuperar o moinho «era de todos, da família. Mas o processo só começou em 2006», resume. Entre a adjudicação dos primeiros estudos de arquitetura até hoje, passaram dez anos, sendo o aspeto burocrático, o grande consumidor de tempo.
«Havia muito receio por parte das autoridades que não fizéssemos uma construção fiel ao original. Mas comprometemo-nos perante o Parque Natural da Ria Formosa que íamos só construir com técnicas tradicionais e que não iríamos aumentar o espaço. Este moinho não está um centímetro maior daquilo que sempre foi. Todas as paredes exteriores foram feitas em pedra, assente à mão. É um trabalho que já pouca gente sabe fazer. Houve um grande esforço por parte da família para suportar o custo da obra», estimado em 400 mil euros (obra e equipamentos).
«Concorremos a um apoio ao investimento do Grupo de Ação Costeira (GAC) do Sotavento e conseguimos um apoio máximo elegível de 200 mil euros, isto é 54,5 por cento do investimento total. Em contrapartida, criamos quatro postos de trabalho e a tendência é aumentar» o quadro de pessoal. Cerca de 95 por cento do investimento ficou na região, pois os trabalhos foram dados a empresas algarvias.
Além dos cinco quartos, de alojamento local, a sala principal do moinho vai funcionar durante todo o ano, numa lógica de bar de tapas, com produtos regionais. Chama-se «Mó de Cima». Para ser agradável ao longo de todo o ano, foi instalado chão radiante, «para adaptar o espaço às exigências de hoje do turismo».
Restos de antigas mós, encontradas na propriedade, foram incorporados nas paredes. O girar do moinho com a maré vazante, e as janelas quase ao nível da Ria, criam um ambiente idílico. Em breve, será colocado um vidro temperado que permitirá ver a caldeira e o eixo da antiga mó em movimento.
«Basicamente, a ideia comercial foi sempre esta. Quartos e um espaço aberto ao público onde se pudesse observar o moinho a funcionar. Este é o primeiro espaço que recuperamos, mas não queremos ficar por aqui. Temos um outro moinho de maré que funcionou até 1944 que queremos reabilitar».
«Tivemos o cuidado de apoiar a comunidade. Isto é uma vila piscatória, todas as pessoas que aqui vão trabalhar estão ligadas ao mar por relações familiares. O nosso sonho seria arranjar o outro moinho que temos e dar oportunidade às pessoas de conhecerem a safra do sal, verem os moinhos da maré a funcionar, e trazer desenvolvimento» desta forma, sem adulterar a economia tradicional.
O público é bem-vindo a partir de domingo dia 12. A porta está aberta das 8h30 às 22h00 até final de setembro.
Apesar de ainda não terem divulgado o projeto aos operadores turísticos, o moinho tem atraído bastante curiosidade e promete ser «um paraíso para observadores de aves» e para os amantes da cultura algarvia.