Depois de quase cinco anos de luta como membro da Comissão de Utentes da Via do Infante (CUVI), e de o governo socialista ter tomado posse com o apoio do BE, a verdade é que as portagens continuam sem fim à vista. «Vou dizer-lhe porquê. O Bloco de Esquerda não é governo. Prometi que se fosse eleito deputado, uma das primeiras iniciativas que tomaria era apresentar na Assembleia da República uma proposta para acabar com as portagens no Algarve. Foi isso que foi feito, está lá, um projeto de lei que só não subiu a plenário por dificuldades na discussão do Orçamento de Estado (OE). Mas subirá, se entretanto as portagens não acabarem», esclareceu João Vasconcelos, no final da sessão que trouxe Catarina Martins, dirigente nacional, à capital algarvia.
Questionado sobre o acordo que suporta o governo socialista de António Costa, o deputado bloquista algarvio esclareceu que o mesmo, à partida, nunca previu qualquer medida relativa às portagens. «Não pusemos essa condição porque havia uma prioridade, que era defender o emprego, as reformas, os salários, evitar mais privatizações, apostar na defesa dos serviços públicos, da escola pública e do Serviço Nacional de Saúde. Foi um acordo mínimo. É claro que além desse acordo mínimo, estamos a exigir mais».
«A alternativa, se não tivéssemos feito esse acordo mínimo, era termos um governo de direita. Estaríamos bem pior, sem dúvida nenhuma», considerou.
Ainda assim, «na discussão do OE há uma proposta na especialidade para isentar a Via do Infante. Entendemos que é chegado o momento de o governo, o primeiro-ministro cumprir uma promessa que efetivamente fez perante a comunicação social. A mim disse-me pessoalmente que iria estudar o contrato da Via do Infante com a concessionária. Numa declaração também que fez, disse que iria acabar com as portagens no Algarve, tendo em conta que a EN125 não constitui qualquer via alternativa», sobretudo numa altura em que as obras a tornam uma autêntica via sacra. Segundo Vasconcelos, até António Costa reconheceu que esta estrada «é um massacre».
Sabe-se, porém, que a proposta fracassou, tendo sido chumbada na segunda-feira, 14 de março, na comissão de Orçamento e Finanças, com votos contra do PS e CDS e abstenção do PSD, já após esta entrevista.
«Por outro lado, como também ainda faço parte da CUVI, já marcámos uma nova manifestação», na manhã de 24 de março, junto à ponte internacional do Guadiana. «Iremos também desenvolver outras iniciativas ao longo do verão, algumas bastante drásticas, se até lá as portagens não forem levantadas. Continuamos a batalhar, sem desistir», garantiu.
Esta luta prossegue com uma esperança. «Sabemos o que o PSD/CDS-PP fez em relação às portagens. Foram eles que exigiram a sua colocação no Algarve à semelhança de outras ex-SCUTS. Agora estamos a cobrar ao governo do Partido Socialista uma promessa. Vamos ver se não segue o mesmo caminho» da coligação.
E se seguir? «Ficamos desiludidos», mas retirar o apoio ao PS, é matéria que «não está pensada», sublinhou. Mas caso o executivo insistir na continuação das portagens, «achamos que é uma medida bastante grave, a tragédia vai continuar agravada no sul do país e criará mais um obstáculo em termos de estabilidade governativa. Não sei se está a perceber o que lhe quero dizer? É mais um fator de instabilidade governativa», reforçou.
João Vasconcelos sabe que tem sido criticado nas redes sociais por não ter atingido, até agora, o objetivo a que se propôs. «Algumas críticas vêm de pessoas ligadas à direita; já reparei. Nunca levantaram um dedo e sempre apoiaram as portagens. Estão a atacar-me, faz parte do apoio aos seus partidos. E como estão contra esta maioria que suporta o governo, estão a fazer o seu papel. Outros poderão ser socialistas que defendem a redução da tarifa da portagem. Nós não concordamos. Outras pessoas, vejo que também me apoiam bastante». E a essas, deixa a mensagem que continuará «com a luta até ao fim».
«No grupo parlamentar do Bloco de Esquerda está sempre em cima da mesa essa revindicação», mas ainda assim, o deputado considerou que faz sentido continuar a contestação popular. «Claro. Aliás, devia era haver grandes movimentações de protesto. O problema é que as pessoas estão desiludidas, não acreditam. Mas é necessário que continuem a protestar. Só assim teremos mais facilidade em acabar com as portagens na A22».
«Escrevi uma carta aberta, como sabe», a António Costa, entregue no Palácio de São Bento a 10 de março. «Mais do que isto também não consigo», admitiu ao «barlavento».