João Lourenço, 23 anos, é o único piloto profissional algarvio de Enduro – palavra que vem do francês endurance que significa resistência. Durante uma prova, os pilotos atravessam todo o tipo de trilhos e caminhos e obstáculos naturais. O objetivo é realizar as etapas o mais aproximado possível do tempo pré-determinado pela organização.
Lourenço vive no concelho de Vila do Bispo, entre a Figueira, onde se ocupa da mecânica das motas, e a Praia da Salema, onde cozinha no restaurante da família. Fez o curso de cozinheiro na Escola de Hotelaria e Turismo do Algarve, em Portimão. Trabalhar com os pais, os maiores «patrocinadores», permite-lhe ter uma ocupação remunerada conciliável com o motociclismo.
O «barlavento» entrevistou-o, enquanto preparava a mota para mais um treino. Os pilotos têm de ser também mecânicos, por razões financeiras e porque, se acontecer uma avaria a meio da prova, terão de ser eles a resolvê-la.
«É impossível viver só das motas, a não ser que sejamos ricos, ou consigamos ser piloto oficial de uma marca, o que não é fácil», começou por dizer este jovem. «No Enduro, o único adversário é o tempo, porque as provas são feitas individualmente».
«Comecei no todo-o-terreno, aos 18 anos. Aos 20, alguém me falou no Enduro. Nunca tinha visto uma prova, fui e gostei. Experimentei e, na primeira competição, na classe verdes, fiquei em segundo lugar. Nunca mais abandonei a modalidade e vim a ser campeão nacional nesta classe. No ano passado ano, fui vice-campeão nacional na classe open. Este ano, estou a lutar para ser campeão nacional na classe elite. Na primeira prova, comecei mal e penalizei, mas acabei por recuperar e fui ao pódio» no terceiro lugar.
Em 2015, João Lourenço foi ao Mundial, em Espanha, esteve seis dias na Eslováquia, integrado na seleção nacional, na «maior prova de Enduro do mundo», e participou numa prova do Mundial disputada em Portugal. No entanto, considera que é muito caro ir a meetings internacionais, pois obriga à deslocação e hospedagem do piloto e de um mecânico, além dos encargos inerentes às motos, peças sobressalentes e pneus. Em Portugal, disputa o Enduro (10 provas) e o super enduro (seis provas), em recinto fechado. Mas a prova mais próxima do Algarve, fica a 400 quilómetros de distância, o que encarece a logística.
Os bons resultados obtidos pelo piloto algarvio têm–lhe proporcionado vários patrocinadores, entre os quais se destacam «a autarquia da Vila do Bispo, que me ajuda muito e cujo apoio me tem ajudado a crescer gradualmente», e a Sherco, uma marca francesa de motas que tem vindo a apostar e a vingar no todo-o-terreno e no Enduro.
«Um piloto necessita de possuir, pelo menos, duas máquinas: uma preparada para entrar em competição e outra para os treinos, que sofre muito mais abusos. Somos obrigados a mudar de mota, todos
os anos. Se um piloto treina muito, tem de fazer a troca a meio da época. É aí que o patrocínio da Sherco se torna imprescindível», revela.
João Lourenço participa em «Elite 1», que permite motorizações de 125cc a dois tempos ou 250cc a quatro tempos. Embora as motorizações a dois tempos sejam mais rotativas e desenvolvam mais potência, o piloto algarvio prefere motas a quarto tempos, que considera «mais seguras».
Sobre o futuro, «gostaria muito de conseguir um contrato com uma marca, profissionalizar-me e viver apenas das motas. Mas sempre no Enduro, onde tudo pode acontecer e temos de resolver os problemas. Por exemplo, se partir a cremalheira, tenho de consertá-la, porque os mecânicos não podem entrar em pista».
A maior dificuldade dos pilotos algarvios assenta na falta de pistas que lhes permitam as condições de treino ideais. João tem construído pequenos circuitos nas redondezas, tentando copiar as dificuldades encontradas nas provas. Está a tentar que se construa uma pequena pista de motocross, para poder treinar o «CT – Cross Test», uma das especiais obrigatórias nas provas, para evitar deslocações dispendiosas.