O pianista e compositor Mário Laginha edita «Retorno», o segundo álbum em nome próprio, 19 anos depois de «Canções e Fugas».
«Neste CD fiz uma coisa que nunca tinha feito, que foi pôr improvisos totais. O que eu tenho muito noutros álbuns são introduções improvisadas para chegar ao tema e alguns destes improvisos [incluídos em «Retorno»] acabam por ter um mote que eu sigo do princípio ao fim. O «Improviso II – Para a Francisca» é um desses. Isto eu nunca tinha feito. Não é uma coisa nova no mundo, mas é para mim», disse o músico em entrevista à Agência Lusa.
«Retorno», que é apresentado nos dias 5 e 6 de fevereiro no CCB, em Lisboa, é o segundo álbum em nome próprio de um dos mais regulares músicos nos palcos de jazz portugueses, 19 anos depois de «Canções e Fugas».
Sobre a escolha do título, o pianista afirmou que, por um lado, retorna ao seu primeiro disco a solo, mas a ideia surgiu de um tema que compôs com o mesmo nome para a banda sonora de Campo de Sangue (2022), de João Mário Grilo, a partir do romance homónimo de Dulce Maria Cardoso, publicado em 2018. Laginha é o autor dessa banda sonora, que inclui o tema «Retorno», cujos direitos de autor, no contexto do filme, tinha vendido e não podia usar. Quis, no entanto, de alguma forma envolver a autora do romance, que escreveu também O Retorno (2012), e pediu-lhe autorização para usar o título no CD.
«Retorno», eu gosto e soa-me bem e, apesar de tudo, não é um título imediato», argumentou, referindo que também assinala um retorno a si próprio, enquanto compositor.
Em declarações à Lusa, o músico reconheceu que se sentiu mais livre neste álbum, em contraste com «Canções e Fugas», que «foi um disco muito estruturado», em que quis fazer «uma graça com os Prelúdios e Fugas, de Bach». «Eu tinha uma canção e uma fuga. Nas fugas não há qualquer improviso, foram escritas segundo a sua técnica e, neste disco, queria algo mais livre», explicou, referindo que em todos os temas há improvisações. No primeiro tema, «Fugato Baião», que liga ao seu primeiro álbum a solo, «começa com uma ideia de fuga e depois liberta-se, e é onde já pus improvisação».
«É um disco muito mais livre, com muito mais improvisação», sublinhou.
«Retorno» é constituído por 14 composições, todas da sua autoria e interpretadas ao piano. Um dos temas, «Santo Amaro», é inspirado «numa aldeia à beira-mar», onde o músico passa férias habitualmente, e cuja melodia remete para uma ondulação, como acontece em Santo Amaro. «O nome só surgiu depois de o compor», disse.
O álbum inclui cinco improvisos, e do alinhamento fazem parte temas como «Improviso – A Dança dos Camiões», «No Segundo Dia», «Batuque» ou «Mãos Abertas», entre outros.
Sobre o tema de abertura, «Fugato Baião», Laginha referiu que «é invulgar, num disco a solo, começar com uma melodia que não tem acompanhamento; é meio inesperado».
No álbum, reconheceu o músico, há algumas influências do fado, resultado das suas parcerias recentes com o fadista Camané. Laginha afirmou que deixou cair algumas barreiras que erguera entre si e o fado.
À Lusa, reconheceu que essas influências não as faria há 20 anos.
Mário Laginha afirmou que o seu interesse pelo fado surgiu «muito mais tarde». «Aí a idade ajuda», disse, contando o seu encontro com o fado ao ouvir na rádio Camané a cantar um tema de autoria de José Mário Branco, e «pouco a pouco, a ouvir com outros ouvidos» outras coisas, não só de Camané, mas também de Amália Rodrigues e outros. «E cheguei à conclusão que até gosto, não de tudo, evidentemente, mas gosto; eu também no jazz não gosto de tudo».
«Eu quando estava a estudar jazz mesmo, a partir dos 18 anos, queria aprender tudo à volta do jazz, as harmonias, as escalas, e há muito para estudar. Nessa altura, para mim, o fado não me atraía absolutamente nada. Digamos que essa porta não me estava aberta, não estava para aí virado, não ouvia, não procurava», contou.
«Se a pessoa estuda música complexa, é um fascínio nessa altura, e depois, com o correr dos anos, há um certo tipo de simplicidade que também é muito difícil e a que não se chega apenas por saber fazer muito complexo e não querer fazer simples. Acho que se chega lá de outra maneira: é ter conhecimento, amadurecer e começar a perceber as subtilezas que a simplicidade pode ter, que são uma riqueza», afirmou, acrescentando: «Eu aprendi isso. Mais vale tarde que nunca».
O compositor recusou qualquer paralelismo entre o fado e o jazz, mas referiu existirem «pontos em comum». «Há um idioma fortíssimo que acontece no fado e no jazz, que tem a ver com uma tradição [musical] de dezenas e dezenas de anos».
«É verdade que também no fado, muitas vezes, as frases que vão pontuando o cantor à volta da guitarra portuguesa são improvisadas, e isso é um ponto em comum».
O músico referiu que «os ritmos muito elaborados e complexos, as melodias complexas e os solos que podem ser intermináveis existem no jazz, mas não no fado».
Nos dois concertos no CCB, Mário Laginha conta apresentar o alinhamento completo de «Retorno».
A escolha de tocar a solo foi «fazer um disco e pôr cá para fora», estando relacionada «com a decisão de juntar essa música e dá-la a conhecer».
Depois de Lisboa, em março, Laginha apresenta «Retorno» no Auditório de Espinho, no dia 13, e, em abril, no dia 2, no Teatro Municipal de Ourém, em Vila Nova de Ourém, e no dia 30, no Teatro Messias, na Mealhada.