Luís Neves chega ao cargo de ministro da Administração Interna após oito anos à frente da Polícia Judiciária (PJ) e três décadas ao serviço desta polícia de investigação criminal.
Luís Neves, de 60 anos, substitui Maria Lúcia Amaral na pasta da Administração Interna, que se demitiu depois da onda de críticas à forma como atuou e geriu a resposta à depressão Kristin, que assolou o país no final de janeiro.
Luís António Trindade Nunes das Neves, licenciado em Direito, iniciou a carreira na advocacia. Entrou na PJ em 1995 e foi nomeado diretor desta polícia pela primeira vez em 2018, pelo Governo socialista de António Costa. Cumpre atualmente a terceira comissão de serviço.
Na Polícia Judiciária esteve sempre ligado à investigação criminal, na área do crime violento e organizado, terrorismo e extremismo violento, rapto, sequestro, tomada de reféns, assalto à mão armada, tráfico de armas, tráfico de seres humanos, crimes com recurso a engenhos explosivos e crimes contra órgãos de soberania. Foi diretor da Unidade Nacional Contra-Terrorismo (UNCT) e da extinta Direção Central de Combate ao Banditismo (DCCB).
Em unidades de combate à criminalidade violenta e organizada, o nome de Luís Neves ficou associado, entre outros, ao desmantelamento de células da ETA em Portugal, à detenção de «skinheads» e do líder de extrema-direita Mário Machado, à detenção em Itália do espião do Serviço de Informações de Segurança (SIS) Frederico Carvalhão Gil e ao caso do rei Ghob, suspeito do homicídio de vários jovens.
Um dos seus primeiros casos mediáticos ocorreu em janeiro de 2001, quando Manuel Subtil se barricou numa casa de banho da RTP, exigindo uma indemnização e ameaçando suicidar-se. Entregou-se várias horas depois.
À frente da UNCT, Luís Neves investigou o assalto e furto de material de guerra em Tancos. Nos últimos anos, enquanto diretor nacional da PJ, ficou também associado ao desmantelamento de redes das máfias de Leste e de grupos criminosos que assaltavam caixas multibanco com recurso a material explosivo.
Sob a liderança de Luís Neves, a PJ desencadeou uma das suas maiores operações ao deslocar para o arquipélago da Madeira mais de uma centena de inspetores, num processo que envolve suspeitas de corrupção, prevaricação, abuso de poder e tráfico de influência, entre outros crimes. A investigação visava também o Governo Regional e resultou em várias detenções, incluindo a do presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado, e na constituição como arguido do presidente do executivo regional, Miguel Albuquerque.
Luís Neves é igualmente responsável pela detenção do antigo banqueiro João Rendeiro, na África do Sul, após meses de investigação ao seu paradeiro. O banqueiro esteve mais de um ano fugido às autoridades portuguesas, depois de condenado a três anos e meio de prisão efetiva por burla qualificada.
A sua direção ficou ainda marcada pela modernização da PJ e pelo reforço de quadros, incluindo especialistas e técnicos periciais, pela integração de parte dos trabalhadores do extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e pelo aumento salarial dos inspetores, através do subsídio de risco. Esta medida motivou a contestação de polícias da Polícia de Segurança Pública (PSP) e da Guarda Nacional Republicana (GNR), que exigiram ao Governo negociações para tratamento igual.
No ano passado, numa audição na Assembleia da República, Luís Neves negou existir relação entre crime e imigração, afirmando que a criminalidade violenta é mais baixa entre imigrantes do que entre nacionais e criticando as «fake news» que, segundo disse, tentam criar pânico em Portugal.
Ao longo da carreira, foi agraciado com a Cruz de Mérito Policial atribuída pelo ministro do Interior de Espanha, em 2004, e com a Cruz da Ordem de Mérito do Corpo da Guarda Civil espanhola, em 2007, tendo ainda recebido uma condecoração do Vaticano.
Além de preparar a próxima época de incêndios, Luís Neves tem como missão, à frente do Ministério da Administração Interna (MAI), a reforma da Proteção Civil, prometida pelo Governo para o final de 2025, mas entretanto adiada pelo primeiro-ministro para depois dos fogos, e as alterações ao Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP).
A anterior ministra deixou também um processo negocial em curso com os sindicatos da PSP e associações da GNR, que decorria sob protestos, tendo o maior sindicato da polícia abandonado as negociações em dezembro.
Luís Neves terá ainda de enfrentar os problemas registados nos aeroportos, nomeadamente no aeroporto de Lisboa, com longas horas de espera. Em abril deverá voltar a funcionar o sistema europeu de controlo de fronteiras, entretanto suspenso.