Há mais de 40 anos a incorporar uma personagem feminina nos palcos todas as semanas, Linda Xennon é a drag queen mais antiga do Algarve e uma das mais conhecidas a nível nacional.
No palco do Teatro Lethes, em Faro, treinam-se espargatas, ensaiam-se coreografias, preparam-se as músicas e adicionam-se os adereços. Os camarins estão repletos de tules, perucas, muita maquilhagem e vestidos cheios de brilhantes para a quarta edição da Gala Xis organizada pela Associação Xis – Grupo para a Promoção e Proteção dos Direitos LGBTI em parceria com o MAPS – Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais, na tarde de sábado, dia 17 de junho.
A partilhar o último camarim, como tantas vezes também partilham o palco, está António Mendonça, 59 anos e Filipe, de 42. Juntos somam 62 anos de carreira na arte do transformismo e, num par de horas, voltam a dar vida a Linda Xennon e Melanie Nova. Para o primeiro, esta rotina é semanal, mas já foi até diária. Linda Xennon nasceu tinha António 17 anos e decorria o ano de 1981, numa altura em que pouco ou nada se conhecia sobre o transformismo.
«Em miúdo, mesmo no campo, enrolava-me em roupas e fazia os meus teatrinhos. Nessa altura, não era pela questão de me transformar em mulher, mas pelo gosto pelas artes», recorda ao barlavento, enquanto coloca sombra verde nos olhos em frente a um pequeno espelho iluminado. Através de amigos começou a fazer espetáculos numa discoteca em Olhão, já depois de assistir aos primeiros shows de transformismo em Lisboa. Mas foi em grupo que percorreu toda a região e o país. Eram as Donzelas em Festa.
Numa época em que não existia Internet e poucos eram os espetáculos de drag queens, António Mendonça aprendeu a maquilhar-se sozinho e, segundo o próprio, inspirou-se em sim mesmo para criar as suas personagens. Acabou por se tornar a sua atividade profissional e hoje conta no currículo com atuações em vários pontos de Espanha e até em Nova Ioque.
«Queria era ser artista e sou o que sempre quis ser há 42 anos. É o que me faz feliz», conta. Contudo, essa mesma escolha custou-lhe a relação com a mãe. «Tive de sair de casa. Sempre levei muita pancada por ser homossexual e por ela ter descoberto as roupas da Linda. Ainda fiz a tropa, mas saí de casa aos 18 anos quando já tinha o meu trabalho. Hoje, ela assiste a alguns espetáculos meus, mas não temos uma relação forte», lamenta.
Para Filipe, que durante o dia trabalha no ramo da hotelaria, a paixão começou de outra forma e um dos primeiros espetáculos a que assistiu, Linda Xennon era a protagonista. Hoje, mesmo com mais de 20 anos de carreira, ainda não são todos os elementos da sua família que conhecem a existência da Melanie Nova. Esse é um dos motivos para pedir anonimato no seu apelido.
«Tinha 21 anos quando iniciei. Sempre gostei muito de música e, por norma, aquela que é cantada por mulheres. Comecei a ver alguns shows e a frequentar casas em Lisboa que apresentavam drag queens. Transformei-me num autêntico rato de camarim, aquela pessoa que lá estava sempre presente a apreciar e a absorver tudo. Era muito crítico e sentia que os transformistas em palco não sabiam fazer playbacks e não conheciam a letra das músicas. Incentivaram-me a começar e, um dia, por carolice, fui fazer um pequeno número. Nessa noite, o dono de um bar quis logo contratar-me. Fiquei até hoje», recorda. O que para uns é trabalho, para outros, tal como o próprio afirma, «é um complemento para a vida».
Em comum, estes dois transformistas partilham da opinião que as suas personagens nasceram de forma natural e que são um reflexo das suas próprias personalidades. Além de ser a drag queen mais antiga e conhecida da região, «a Linda é também uma pessoa muito doida. Gosta muito da copofonia e da loucura, mas também é muito reservada. Com espetáculos quase todas as semanas, canta em playback, dança e conta piadas. Em Lisboa é conhecida como a Diva do Algarve», nas palavras de António Mendonça. A colega, Melanie Nova, «é uma pessoa muito bem-disposta e serve para animar o público. Só faz playbacks, desenrasca-se a dançar, mas não faz espargatas. É uma pessoa muito versátil, malcriada e dramática, por vezes», caracteriza Filipe.
A menos de duas horas de subirem a palco, os nervos começam a sentir-se. «Sente-se sempre aquele nervoso miudinho, por muitos anos de experiência que se tenha», diz António, corroborado por Filipe: «quando não tens é mau sinal. É sinal de que não te preocupas».
Depois da maquilhagem é preciso colocar todos os postiços. E são muitos. «Ancas, peito, rabo e pestanas. Só não colocamos unhas porque geralmente trabalhamos sozinhos e quando temos três minutos para trocar de roupa, com unhas grandes, não dá!», explicam. O processo final é vestir a roupa e colocar a peruca. Nesse mesmo momento já estamos a falar com Linda Xennon e Melanie Nova. «É uma transição natural. Assim que olhamos ao espelho e vemos a personagem, ela aparece sozinha. Mudamos de forma automática a maneira de andar, de agir e de falar. Não consigo sequer ensaiar como Filipe. Nunca me irá sair igual à Melanie. Não me sinto bem a fazer os gestos que ela faz sem estar preparado», diz, a minutos de subir ao palco. Há superstições ou rituais para que tudo corra bem? «Por norma, benzo-me», responde. Por sua vez, Linda Xennon tem por hábito bater três vezes na madeira, mesmo naqueles dias em que a disposição não combina sequer com o brilho dos seus vestidos. «Assim que piso o palco, passa-me tudo. Esteja feliz ou triste, incorporo a personagem e faço-o completamente por prazer», assegura.
E o que é o melhor do transformismo? «O público e a sua validação. Reagem, gostam do que fazemos e é isso que me dá força para continuar», diz prontamente Filipe. Nenhum dos dois, em dezenas de anos de carreira, sentiram discriminação por parte dos espetadores. Na maioria, segundo contam, os maiores fãs são homens homossexuais, «cerca de 70 por cento, por norma, mas quem aprecia mais o nosso trabalho, hoje em dia, até são homens e mulheres heterossexuais. Fazemos mais sucesso com eles e dão-nos mais valor», justificam. Já entre pares, é diferente. «Entre colegas é onde existe mais discriminação. Do público nunca senti. Há muita inveja relacionada com a fama. Sempre houve e sempre vai haver, mas a verdade é que há lugar para todos. Ninguém é igual a ninguém. Cada um tem a sua maneira de interpretar a música», aponta o transformista mais novo.
Questionados sobre até quando ponderam dar vida a Linda Xennon e Melanie Nova, a resposta é muito diferente. Para António, a hipótese de deixar os palcos não existe. «Tenho um grande investimento nesta arte e hei de continuar até ao fim dos meus dias. Podem chamar-me velha, mas também há números de transformismo em cadeiras de rodas. Há sempre maneiras de o fazer», afirma. No caso de Filipe, «já tive para desistir várias vezes. Como faço disto hobby, às vezes tiro férias durante alguns meses. Peço para não me marcarem atuações porque quando entro no ritmo de fazer espetáculos de seguida, passa a ser um trabalho e o que quero é que continue a ser um complemento para a minha vida. Gosto que o público me diga que tem saudades de me ver»…
Apesar de acreditarem que, nos dias de hoje, a arte do transformismo e as drag queens continuam a ser tabu, também são da opinião que há mais pessoas a atuarem, mas não na região, e com menos qualidade.
«No Algarve, contam-se pelos dedos os colegas que temos. Acho que estamos a caminhar para que deixem de existir. Está muito banalizado. Hoje, qualquer pessoa pode entrar neste mundo, vingar é que é mais difícil. Antigamente, o transformista era um homem que se transformava em mulher. Hoje, há a drag queen, o drag king e mulheres cis(género). Mas a qualidade, em muitos casos, também fica à porta. Antes havia muito trabalho, agora já não. Até porque as pessoas também estão a preferir outras coisas, outros espetáculos e festas de música», asseguram ambos.
As luzes no palco começam a baixar, a sala do Teatro Lethes está esgotada e o público vai-se sentando nos seus respetivos lugares. A Gala Xis está prestes a começar.
Transformismo é sinónimo de direitos humanos
Fábio Simão, presidente da Associação Xis – Grupo para a Promoção e Proteção dos Direitos LGBT e do MAPS – Movimento de Apoio a Problemáticas Sociais, coletividades que organizam a Gala Xis, diz ao barlavento que, «no Algarve, mostramos a diferença e temos muitas cartas dadas nesta área. Tivemos coragem e tem surtido resultado. Disseram-me para não realizar esta Gala e isso soou-me a desafio. Em 2019 foi o primeiro espetáculo de sempre a esgotar no Teatro Lethes duas semanas antes. Isso foi a prova que tínhamos público. O transformismo é arte e a mensagem que transmite é o mais importante: sermos nós próprios e aquilo que queremos ser. A drag queen é um grito de silêncio das pessoas que querem mostrar algo mais. Estamos a falar de direitos humanos. Deixemo-nos de carimbos. Isto é educação social. O preconceito destrói-se a conhecer o conceito». O próximo evento será em outubro, em Sagres. Em Faro, as quatro edições esgotaram e para o ano, o Lethes voltará a ser o anfitrião.



